Empreender é sexy

É sexy empreender no Brasil de 2020. Ao menos é a impressão que as toneladas de livros, influenciadores, lives e palestras sobre o tema fazem parecer. Os casos de sucesso, proclamados aos quatro ventos e estampados nas capas de revista, ajudam na fama. A popularização do empreender como um caminho possível para todos traz algo muito positivo: ajuda a desconstruir uma visão muito perversa que o empresário sempre carregou no Brasil, fruto de séculos de uma nação colonizada na base da exploração, com fazendeiros de um lado e mão de obra escrava do outro. Esse modelo levou a uma polarização na qual o dono do dinheiro – aquele que detinha os meios de produção e era dono de alguma coisa – fosse visto como inimigo do povo.

Os países que têm um modelo de sociedade mais avançado são os que premiam o tomador de risco e que olham para quem empreende como um ícone. O Brasil demorou a vir para essa página por conta desse legado histórico de colonizadores e senhores de engenho exploradores. E que bom que viramos essa página. Eu adoro quando um jovem de 16 anos admira mais o Guilherme Benchimol do que o Neymar. Ou quando um moleque de 14 anos entra em um curso sobre como comprar mídia no Facebook porque quer criar um e-commerce para vender roupa (algo mais comum do que você pensa).

Ao mesmo tempo, isso me preocupa. Porque empreender não é puro glamour, como os empresários de palco fazem parecer. E também porque, ao contrário do que dizem, não é para qualquer um. E aqui não estou me referindo a quem empreende por necessidade, em especial em um país onde há um déficit enorme de empregos. Falo para aqueles que sonham em abrir seu próprio negócio, e sonham grande. Por vocação, por desejo, por acreditarem que, de alguma forma, nasceram para isso. É para esses que pergunto: nasceram mesmo?

Não vejo garotos de 13 ou 14 anos que fazem três gols, ou dão uma bicicleta e metem um golaço na pelada com os amigos, saírem do jogo na quadra ou na várzea com a certeza absoluta de que vão ser a próxima estrela da Seleção Brasileira. As pessoas, de alguma maneira, já internalizaram que é preciso talento para isso, que é um fenômeno raro você ser um medalhista olímpico, por exemplo. Por mais que você vença um revezamento de natação com seus amigos, não sai da piscina achando que será o próximo Michael Phelps. Já quando o assunto é a cultura empreendedora, tudo muda. Vejo uma garotada que lê dois livros sobre empreendedorismo e, pronto, já acredita que será o novo Mark Zuckerberg.

Ao contrário do futebol, ou de esportes no geral, o empreendedorismo não tem uma barreira alta de entrada. Existe, porém, um componente de talento e DNA para empreender – e isso precisa ser debatido. Vários desses aspirantes a empresário vão seguir esse caminho porque admiram alguém que ficou famoso com a empresa que criou ou, pior, pelo dinheiro que esse ídolo está faturando. Não desejam ter um negócio, e sim o que esse negócio pode proporcionar: o carro, a casa, a lancha ou helicóptero. O problema é que, antes de colher os frutos, existe um caminho árduo. A jornada do homem de negócios é muito peculiar. É solitária, desafiadora, cheia de porrada por todos os lados.

Quem tem a audácia de querer vencer e construir algo que muda o mundo precisa entender que essa escolha é uma missão de vida. Enquanto só o lado glamouroso é divulgado, deixamos de comunicar os exemplos de fracasso, a depressão de quem não conseguiu e até os casos de suicídio como consequência da frustração. Para cada Geraldo Thomaz e Mariano Gomide, sócios da empresa de tecnologia VTEX, você tem milhares de histórias de pessoas que penhoraram a casa para montar uma empresa que não sobreviveu ao primeiro ano. Admirar o palco de quem consegue é fácil, difícil é enfrentar os bastidores que colocam essa pessoa sob os holofotes.

Fracassar pode acontecer por muitas razões, de crises econômicas a questões societárias, mas grande parte da explicação está na origem: as pessoas entram nesse mundo pelos motivos errados. Se entrar pelo carro ou pela casa, você não vai ser feliz. Longe de demonizar o dinheiro. Para o empreendedor raiz, a quantidade de dinheiro que ele faz é até, de alguma forma, uma métrica de quão bem sucedido é no mercado. E, ao final do dia, nem é pelo dinheiro, mas pela competição e pela conquista.

O debate inteiro da escolha da vida profissional deveria estar centrado em felicidade. Muitas das pessoas não vão ser felizes empreendendo porque o DNA delas não aponta para isso, tampouco a criação que tiveram as preparou para tal. Ou não vão ser felizes tentando criar um império multimilionário, pois o que maximiza sua felicidade é o equilíbrio de vida que uma pequena empresa que lucra R$ 7 mil ao mês permite.

Além do talento e da felicidade, também é preciso pensar qual é o nível de energia que uma pessoa está disposta a dedicar à sua missão. É isso que vai ditar se o negócio dela vai faturar R$ 20 mil, R$ 200 mil ou R$ 200 milhões por ano. Chegar aos 60 ou 70 anos com R$ 200 milhões na conta e a sensação de uma existência desperdiçada não me parece uma boa vida a ser vivida.

Numa era de mídia tão massiva como a atual, tenho até receio de que meus cem mil seguidores do Instagram confundam a admiração pelo que eu faço com a jornada de vida que eles têm de seguir. Da mesma forma que a admiração por eu estar treinando para subir o Everest pode levar alguém a uma escalada mortal, querer ter uma empresa porque é isso que eu faço pode levar uma pessoa a uma vida sem propósito. O empreendedor, na minha visão, não pode ter um trabalho, não pode ter uma carreira. Precisa ter um chamado de vida. E, honestamente, esse sacerdócio é para poucos.

É preciso conscientizar a sociedade, em especial os mais jovens, sobre o que significa empreender de fato. Colocar CEO no perfil de Instagram para conquistar mais garotas da faculdade não é uma boa motivação. Se for pelos motivos certos, eu garanto, essa pessoa vai acordar todos os dias e trabalhar das 7h às 22h com um sorriso na cara, porque aquilo não será um fardo.

Para finalizar, uma forte provocação para empreendedores e aspirantes: se você fosse viver os próximos 50 anos construindo um negócio e, passado esse tempo, ela virasse pó e você perdesse tudo, você faria mesmo assim? Se a resposta for sim, vai em frente; isso não é fonte de renda para você, mas fonte de vida. Se a resposta for não, melhor rever sua meta de vida profissional. Afinal, empreender tem que ser sobre o quão feliz você foi ao longo desses cinquenta anos e sobre o legado que você deixa na terra, e não sobre o saldo da sua conta bancária ao final. E tem que valer a pena mesmo se lá na frente tudo virar pó.

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