“Economia compartilhada tem sido valiosa na pandemia”, diz Robin Chase

A crise provocada pela pandemia causou uma disrupção em toda a economia. Não seria diferente com os serviços compartilhados, representados por aplicativos como Uber, Airbnb, Blablacar, entre outros. Afinal, o temor do contágio pelo vírus afastou pessoas desses serviços. Nesse cenário, pelo apelo de segurança, voltou a ganhar força a propriedade do carro próprio.

Mas, afinal, essa reversão de tendência veio para ficar? Qual está sendo o papel da economia compartilhada na pandemia, e quais aprendizados podemos levar dessa experiência? Em entrevista à EXAME, a empreendedora serial americana Robin Chase analisa os impactos da atual crise nestes serviços e indica caminhos.

Chase foi cofundadora de uma das maiores empresas de serviços de caronas globais, a Zipcar, em 2000. Depois, criou um serviço de aluguel de carros de vizinhos, a Buzzcar. Também ajudou a colocar no mercado a Venian, uma rede de comunicações para o setor de transporte. É autora do livro Economia Compartilhada, no qual dá conselhos de como construir uma economia colaborativa. Confira a seguir a entrevista.

Você acredita que a pandemia irá afetar a economia colaborativa? Se sim, de que forma? Quais são os segmentos mais afetados, e os menos afetados?

Tudo é afetado pela pandemia. Quando olhamos para a economia colaborativa, nós temos de segmentá-la e examinar serviços específicos.

Durante o confinamento, serviços que fazem delivery foram considerados como serviços essenciais, e entregaram compras e comida às pessoas em um volume muito maior do que antes.

Naturalmente, a demanda por serviços de carona, de compartilhamento de corridas, de aluguel de veículos e aluguel de casas de temporada desabou porque ninguém podia sair de casa.

A pandemia pode representar uma oportunidade para alguns serviços? Quais?

Após o confinamento há uma forte retomada do setor de transporte compartilhado. Ao invés de optar pelo transporte público, trens e aviões, nos quais ficam expostas dezenas de pessoas durante a viagem, muitas pessoas estão preferindo dirigir sozinhas com carro próprio ou alugado ou viajar com mais uma ou duas pessoas, a exemplo de viagens de Uber.

Essa lógica faz sentido. Airbnb também viu a demanda por casas de temporada aumentar em junho para um patamar maior do que no mesmo período de 2019. Mas os viajantes estão preferindo ficar em lugares mais perto de casa e no qual podem chegar de carro.

Até agora nós falamos sobre a demanda por serviços da economia colaborativa, agora vamos olhar pelo lado da oferta. Um dos melhores aspectos da economia colaborativa é a habilidade de “empregar você mesmo”. Você não precisa esperar um patrão escolher você. Se você precisa de uma renda extra e tem as habilidades e ativos, você pode!

Naturalmente, isso tem sido muito valioso no momento em que muitas pessoas perdem seu emprego e não podem fazer nenhum trabalho que permita sair de casa, com exceção dos serviços essenciais.

Eu não tenho certeza, mas imagino que houve um aumento da oferta de freelancers em plataformas. E, claro, para atender à demanda crescente pelo delivery, empregos também aumentaram para entregadores.

Nós devemos compreender que a economia colaborativa sempre se baseou no acesso remoto para encontrar serviços. Em um cenário no qual tudo deve ser feito com o mínimo contato pessoal, a economia colaborativa já massificou esses processos.

Você falou sobre os impactos positivos que a pandemia trouxe para a economia compartilhada na pandemia. E os negativos?

Todos os que estão trabalhando nessas plataformas estão prestando serviços sem qualquer benefício que um empregado formal em tempo integral tem: sem seguro-saúde ou proteções sociais.

Mas a pandemia mostrou que não são apenas trabalhadores da economia compartilhada que não têm benefícios sociais, mas também milhões de outros que fazem parte da economia informal e freelancers. Deveria estar claro para todos agora que precisamos ter uma proteção social muito mais robusta para manter todos saudáveis e seguros nesse momento.

A cultura de ter o próprio carro, a própria casa, voltará a ganhar força no atual cenário, por questões de segurança? Será apenas algo temporário que acabará assim que a pandemia passar, ou mais perene?

Parte disso irá depender da resposta dos governos à pandemia. Se o governo complementar o transporte de massa com ciclovias seguras em todos os lugares, penso que nós poderemos ver uma nova e duradoura demanda por esse meio de transporte enquanto reduzimos a ocupação no transporte público.

Governos que não criarem mais espaços para carros e bicicletas agora correm o risco de sofrer consequências negativas enormes caso haja um aumento na propriedade de carros.

A pandemia nos faz pensar sobre o futuro do planeta. Isso ajuda a manter a economia compartilhada resiliente?

A pandemia causou uma disrupção em toda a economia e trouxe tudo de volta para o mínimo. Muitas pessoas perderam seu emprego, e muitos empregadores, grandes ou pequenos, enfraqueceram.

Então, o que devemos escolher construir? Deveríamos parar de subsidiar combustíveis. Ao invés disso, vamos aplicar recursos para construir uma economia sustentável, e criar empregos.

Nós temos também a oportunidade de impulsionar e encorajar pequenos comércios locais. Eu adoraria ver mais ativos e recursos disponíveis para um uso mais eficiente e compartilhado.

Neste momento precisamos usar ao máximo cada ativo e pessoa. A economia colaborativa combina o melhor de nossas forças industriais [a plataforma] com o melhor do potencial humano [local, customizado, criativo]. É hora de criar e investir em uma economia colaborativa e sustentável.

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