Operação de guerra

É um clichê do mundo corporativo dizer que toda crise esconde uma oportunidade — ainda mais quando se trata de uma tragédia de saúde pública e social que vai deixar cicatrizes profundas em um país. Entre os efeitos da pandemia do novo coronavírus vem se destacando a mobilização do empresariado brasileiro a fim de ajudar a combater a doença e de reduzir o impacto econômico do necessário isolamento social para desacelerar o contágio.

Os fundadores da fabricante paulista de respiradores mecânicos Magnamed — Wataru Ueda, Tatsuo Suzuki e Toru Kinjo — não imaginavam enfrentar uma emergência que os obrigasse a multiplicar por mais de 30, do dia para a noite, sua capacidade de produção. No maior desafio dos 15 anos da empresa, encontraram, porém, a chance de concretizar seu propósito juvenil de salvar vidas.

O sucesso da empreitada — um conforto para um Brasil que continua registrando aumento de casos da infecção respiratória covid-19 — só vem sendo possível graças à parceria com companhias tão diferentes quanto produtoras de papel e celulose e fabricantes de gases industriais e à afinação com diversas instâncias do governo. Essa é uma história que aumenta a esperança no futuro.

“Em uma crise, sempre deparamos com os extremos, o melhor e o pior de cada um. Nesta jornada, encontramos bancos sendo bancos, e bancos não sendo bancos; empresários sendo empresários, e empresários não sendo empresários. Não foi o dinheiro que falou mais alto. Foi a vontade de devolver à sociedade parte do que todos recebemos”, afirma Paulo Tomazela, sócio da gestora de recursos KPTL, que é, junto com os três fundadores e a gestora Vox Capital, uma das donas da Magnamed.

O encontro com a KPTL se deu em 2008, na incubadora de empresas tecnológicas da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo, a Cietec, que hospedava a Magnamed. A KPTL começou a investir na startup por meio de um fundo de investimento que tinha 80% de seus recursos provenientes do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e 20% do Banco do Nordeste.

No início, a Magnamed queria centrar sua atividade no encolhimento de peças de equipamentos médicos, mas acabou encontrando seu filão nos ventiladores, um ramo no qual Ueda e Suzuki, engenheiros formados pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), haviam atuado juntos quando eram funcionários de outra empresa. Como boa startup, a companhia de tecnologia médica foi montada na garagem da casa de Ueda, em 2005, e logo depois Kinjo entrou.

Nem se falava ainda em novo coronavírus quando, em dezembro de 2019, a Magnamed notou um aumento do interesse por seus respiradores em uma feira de equipamentos médicos da Alemanha. Um mês depois, em outra feira de Dubai, o cenário estava mais claro. Países asiáticos e europeus corriam para encomendar ventiladores pulmonares, e já se começava a ter uma ideia da gravidade da doença.

Foi só quando o Ministério da Saúde bateu à porta da empresa com sede em Cotia, na Grande São Paulo, com uma encomenda de 15.000 respiradores para os fabricantes nacionais — o equivalente a sete vezes sua produção anual —, em 19 de março, que a Magnamed entendeu o tamanho da pandemia. O choque inicial se deu porque o governo federal exigiu ficar com toda a produção da empresa por um período de seis meses.

Depois de uma análise jurídica, a empresa ficou sabendo que não se tratava de um confisco, mas que o Ministério da Saúde estava exercendo um direito de compra de equipamentos garantido pela Constituição Federal. Passado o baque, a Magnamed arregaçou as mangas para verificar quantas máquinas poderia efetivamente entregar.

Unidade de terapia intensiva: o respirador mecânico é a chance de salvar a vida de quem desenvolve a forma mais grave da covid-19 | Pedro Vilela/Getty ImagesReprodução/

Primeiro, seria necessário checar com os fornecedores de peças se poderiam entregar um volume maior. Naquele momento, os poucos produtores de componentes nacionais estavam sendo disputados pelas fabricantes de respiradores. No grupo de WhatsApp que mantém com os colegas de sua turma do ITA, onde se formou em 1982, Ueda mencionou então o projeto e as dificuldades que vislumbrava no caminho.

O amigo Walter Schalka, presidente da Suzano, maior fabricante de celulose do país, resolveu ajudá-lo acionando a rede de representantes da Suzano no exterior para encontrar mais fornecedores. Sua concorrente Klabin, que também tem fortes laços comerciais com a China, reforçou a busca. A fabricante de computadores paranaense Positivo acionou seus contatos para procurar os componentes usados na placa de controle dos ventiladores. Outro gargalo estava na montagem das máquinas.

A linha de produção da Magnamed em Cotia conseguia fabricar apenas 200 respiradores por mês. Por indicação do ministério e de executivos próximos à empresa, a Magnamed acabou chegando à Flex (antiga Flextronics), multinacional americana especializada na produção terceirizada de equipamentos eletrônicos, que tem uma fábrica em Sorocaba, no interior de São Paulo. Contando com a capacidade da Flex, em 23 de março a Magnamed informou ao governo que conseguiria entregar 6.500 respiradores em um período de seis meses.

O passo seguinte foi encontrar recursos para comprar os insumos necessários à produção. Faturando cerca de 40 milhões de reais por ano, a Magnamed operava com um capital de giro apertado. A Suzano lhe emprestou 10 milhões de reais sem custo e com 45 dias para pagar. A Magnamed procurou depois o BNDES, seu investidor desde o início, e não obteve nem 1 real porque o banco não tinha uma regulamentação para esse tipo de financiamento.

Mas o BV (o antigo Banco Votorantim) lhe deu um empréstimo-ponte de 20 milhões de reais sem aval — a instituição criou um fundo especial para financiar as fabricantes nacionais de respiradores durante a pandemia. No fim, o Ministério da Saúde adiantou 129 milhões dos 322,5 milhões de reais do contrato. A fabricante de aviões Embraer usinou 8.000 peças de aço em um fim de semana, cobrando apenas o valor da matéria-prima, a General Motors ajudou no redesenho da linha de montagem da Magnamed em Cotia e a fabricante de gases White Martins forneceu oxigênio para o teste dos respiradores na fábrica da Flex (que também está produzindo para outras duas empresas nacionais).

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária acelerou o processo para certificar a fábrica da Flex, e a Polícia Federal faz a escolta dos produtos finalizados. Nesse processo, a Magnamed identificou novos fornecedores que poderiam ajudar a diminuir seus custos no futuro e descobriu gargalos na produção. Com a Flex, a fabricante de respiradores pode dizer que sua capacidade de produção anual subiu para 64.000 unidades. “Sabemos que podemos contar com nossos parceiros para projetos grandes. O Brasil tem as condições de virar um polo tecnológico na área médica”, afirma Ueda, presidente da Magnamed.

Wataru Ueda, presidente e um dos fundadores da Magnamed: ajudinha dos amigos do ITA para encontrar fornecedores | Leandro FonsecaReprodução/

Apesar de todo o apoio, a jornada teve percalços. Em 28 de março, o vice-prefeito de Cotia invadiu a fábrica da Magnamed e confiscou 35 respiradores. Devolveu-os após uma ordem da Justiça. Agora o projeto atingiu a velocidade de cruzeiro, e a Magnamed planeja o futuro. Não espera que o faturamento deste ano, estimado em 390 milhões de reais por causa da pandemia, vá se repetir, tampouco deverá regredir ao tamanho que tinha no ano passado. A covid-19 chamou a atenção para a necessidade de hospitais públicos e privados aumentarem  seu estoque de ventiladores pulmonares.

Equipamentos alternativos fabricados por universidades durante a crise não têm serventia para outras doenças, e o mercado também tende a identificar as máquinas de melhor qualidade. A Organização Mundial da Saúde recomenda que os ventiladores sejam substituídos a cada cinco anos de uso, e o governo brasileiro estima que o parque local tenha idade média de 12 anos. A Magnamed aposta que os novos clientes conquistados durante a crise continuarão comprando seus equipamentos ao fazer a troca.

Com o dólar em 5 reais, seus principais concorrentes, dos Estados Unidos e da Europa, terão mais dificuldade para vender ao país. O fundo da KPTL, que investe na fabricante de Cotia, acabará em novembro de 2021, e a gestora avalia se venderá sua participação ou continuará no negócio, que se tornou a joia da coroa entre as 48 empresas de seu portfólio. Qualquer que seja a decisão, o ganho do investimento vai muito além do lucro da venda dos respiradores. “Quando posto à prova, o brasileiro mostra sua competência técnica e capacidade de pensar em soluções”, diz Leandro Santos, presidente da Flex.

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