A hora e a vez do capital feminino

Vivemos a era das mulheres. Se o século 19 ficou marcado pela libertação dos escravos e o século 20 pela do pensamento, com o fim do totalitarismo, o século 21 ficará marcado pela liberação do potencial feminino há décadas reprimido por uma sociedade hipermasculinizada.

Apesar de ter negligenciado as mulheres em sua formação, incubado na experiência americana de sociedade, o capitalismo não será capaz de sobreviver sem um equilíbrio entre o cuidado da mãe e a autoridade do pai. Ou os homens se reconciliam com seu lado feminino, ou estarão condenados a um ciclo destrutivo de jogos e batalhas sangrentas.

Os ensinamentos são de Raj Sisodia, fundador do movimento Capitalismo Consciente e um dos principais gurus corporativos da atualidade. E partem de um olhar espiritual e humano sobre os negócios. Nascido na Índia e com cidadania americana, Sisodia é ph.D. em marketing e política industrial pela Universidade Colúmbia e professor na Babson College, escola de negócios em Massachusetts que costuma figurar no topo dos rankings de empreendedorismo. Publicou uma dezena de livros. O mais recente, Empresas Que Curam, lançado no Brasil neste ano, conta histórias de companhias que, além de lucrativas, conseguem motivar seus funcionários, cativar clientes e contribuir positivamente para as comunidades em que atuam.

Para Sisodia, empresas conscientes são mais eficientes. A felicidade e o bem-estar libertam o potencial humano. A consequência é o aumento da lucratividade e o crescimento das organizações. Entretanto, a busca pela felicidade, a sua e a dos outros, é um fim, não um meio. Quem busca a consciência como forma de obter mais lucro, invariavelmente, fracassa em seu objetivo. Por isso o único caminho para o desenvolvimento sustentável é o autoconhecimento.

A ideia da reconciliação vai além da questão de gênero. Resolver a questão racial também depende da pacificação entre europeus e povos oprimidos pelo imperialismo. Vale, especialmente, para os afetados pela diáspora africana, mas não apenas eles. Há que considerar também os indígenas americanos e demais povos escravizados, inclusive os indianos.

Pelo aplicativo Zoom, Sisodia falou com a EXAME sobre temas existenciais e explicou como essa mesma lógica se aplica ao mundo corporativo, que também tem algumas reconciliações pendentes.

O senhor tem mencionado a necessidade de reconciliação com o passado. O que isso significa?

Não podemos consertar o presente sem remediar o passado. Neste momento, com o movimento Vidas Negras Importam, essa possibilidade está aberta. Se não fizermos isso, estaremos apenas pondo um bandeide no machucado, sem tratá-lo adequadamente. Isso se aplica a todos os lugares: Brasil, Estados Unidos, Oriente Médio etc. Claro, falamos dos africanos trazidos para a América, mas há os povos nativos, escravizados pelos europeus. Os indianos também foram tratados, de certa maneira, como escravos. Existe um legado de feridas abertas que não é totalmente reconhecido. E, se de um lado há uma postura defensiva, dos que alegam não ser responsáveis pela escravidão, de outro há quem prefira negar o impacto dizendo que não é mais escravo. O fato é que há um impacto. Precisamos aceitar a existência desse trauma para poder avançar.

O dalai-lama, líder espiritual do budismo: o testemunho do sofrimento gera a capacidade de amar | Shyam Sharma/Hindustan Times/Getty ImagesReprodução/

O que é preciso para a sociedade atingir esse nível de aceitação dos traumas do passado que permita a reconciliação?

Outro dia, li algo belo em uma entrevista, uma frase de um afro-americano. Ele disse que os brancos nunca serão capazes de entender o trauma histórico de seu povo. Ao mesmo tempo, os negros nunca serão capazes de entender a culpa ancestral que os brancos carregam. Mas ele afirmou também que nossos ancestrais desejariam que fôssemos capazes de curar essas feridas juntos. A culpa será extinta com o reconhecimento do trauma. Então, será possível seguir em frente. Precisamos lidar com isso de maneira humana. É o que vai permitir a reconciliação. O que está acontecendo agora não vem da raiva ou da culpa, mas da humanidade.

Temos dois processos distintos para a reconciliação. De um lado, o reconhecimento de uma culpa ancestral por parte do opressor. De outro, o perdão de quem foi oprimido. Não é mais fácil reconhecer a culpa do que perdoar?

Sim. No entanto, a capacidade humana de perdoar é enorme. Um dos princípios budistas diz que é preciso testemunhar o sofrimento. Fazendo isso de maneira profunda e significativa, o que emerge é a capacidade de amar. Quando assistimos a George Floyd ser sufocado por 8 minutos e meio, todos nós sentimos, não importa se somos negros ou brancos. Esse testemunho do sofrimento foi muito visceral. Um sofrimento, é verdade, que acontece há muito tempo, mas que se tornou tangível. Desse processo, emergiu um sentimento legítimo, que abre caminho para o perdão. Podemos trazer essa lógica para o mundo corporativo. Nas empresas, hoje, temos um sistema de castas. Há uma classe de trabalhadores ganhando salário mínimo e nenhum benefício, e outra com altos salários e tudo o mais. Não existe consideração pelo sofrimento das pessoas.   

O sistema é injusto, então. É possível “curá-lo”?

Podemos criar organizações que curam. Há duas coisas trancafiadas no armário corporativo. Uma são as emoções reprimidas e o cuidado não revelado. Na maioria das organizações, o ideal é que o profissional vista sua armadura e vá para a batalha, sem demonstrar sentimentos. Acredito que o amor não revelado seja o recurso mais abundante no planeta. A outra coisa é o sofrimento silencioso. Todos sofrem. Se pudéssemos olhar para além da armadura, ficaríamos comovidos. Devemos abrir esse armário para permitir a cura.

Por onde se inicia esse processo de aceitação dos sentimentos nas empresas? 

Deve começar pela liderança. O líder deve demonstrar suas vulnerabilidades, seus desafios pessoais e o que está acontecendo em sua vida. E, então, expressar o sentimento de cuidado. Não é preciso de mais nada. É como riscar um fósforo. Todos olham para o líder para saber como se comportar. Quando ele manifesta emoções em público, inicia um tsunami de cuidado.

O movimento Capitalismo Consciente fala de amor nas empresas. Mas não apenas no sentido lúdico. O amor torna as organizações mais eficientes e aumenta o lucro. Há um sentido econômico, também, no conceito de empresas que curam?

Há um aspecto econômico, e podemos demonstrá-lo com uma série de argumentos. Tomo cuidado, porém, para não pôr a carroça na frente dos bois. Há um motivo principal para seguir esse modelo e há a consequência disso. Muitos líderes olham para o Capitalismo Consciente e pensam que podem fazer mais dinheiro desse modo. Se sua motivação principal for o dinheiro, provavelmente não vai funcionar. É como pedir alguém em casamento porque pesquisas mostram que pessoas casadas têm renda maior. Não se faz isso. O mais importante é as pessoas estarem felizes, as comunidades se desenvolverem e, se você consegue mais dinheiro com isso, que sua empresa cresça e tenha capacidade de fazer mais pessoas felizes. O lucro permite a você espalhar seu propósito numa escala maior. Essa tem de ser a energia primária. Do contrário, as pessoas vão perceber que estão sendo manipuladas e se tornarão cínicas. Deixarão de acreditar. É preciso fazer o bem pelo motivo certo.

Mas o sucesso não é medido pelo lucro? Como saber se uma empresa está no caminho certo sem mirar o resultado?

Essa questão tem dois aspectos: o governamental e o corporativo. Quando se fala de países, há indicadores do bem-estar de uma sociedade que vão além do PIB. Podemos pensar em educação e acesso a oportunidades, por exemplo. Nas empresas, precisamos olhar para cada stakeholder individualmente. Não se trata apenas do engajamento dos funcionários, mas de seu estado emocional, espiritual e social. Devemos olhar não só para a lealdade dos clientes mas também para sua qualidade de vida e para os impactos que a oferta da empresa causa. Precisamos de indicadores holísticos que apontem para o futuro. Mas o que temos são números do último trimestre, do último ano. Eles não mostram o que está acontecendo. O fundo 3G Capital é um bom exemplo. Por alguns anos, ele foi capaz de fazer dinheiro, até cair do penhasco. Há um limite para o que se pode extrair das pessoas, antes de começar a tirar sangue.

Empresas focadas no lucro acabam sendo mais vulneráveis a crises?

O ponto é a resiliência. Muitas empresas apresentam balanços vulneráveis, com alta alavancagem, sem caixa nem habilidade de se sustentar durante uma recessão prolongada. Só que o governo não estará sempre disposto a resgatar essas companhias, como está fazendo com as aéreas. Nos Estados Unidos, por exemplo, exceto pela Southwest Airlines, todas quebraram. Em momentos como este, as empresas é que deveriam ajudar o governo, e não o contrário. O stakeholder mais negligenciado pelo mundo corporativo hoje é a própria empresa. Os investimentos diminuíram. E para onde foi esse dinheiro? Para recompra de ações e dividendos. As empresas estão se endividando para pagar mais dividendos e beneficiar o acionista, à custa do próprio enfraquecimento. Olhando de fora, elas parecem bem, mas estão ocas.

No fundo, o que as empresas estão vivenciando é o dilema daquela pessoa que sempre trabalhou para aumentar o próprio patrimônio, mas, no fim da vida, percebe que não construiu nada significativo…

Exatamente. Precisamos tratar as empresas como entidades imortais, que vão além do nosso tempo.

Em seus livros, o senhor fala também sobre a presença do feminino e do masculino no mundo corporativo. A masculinidade está prejudicando as empresas?

As energias masculinas, na maioria das empresas, vêm da hipermasculinidade. Não é uma masculinidade madura. Dominação, agressão e competição excessiva são alguns dos aspectos. Tudo se transforma em um jogo ou em uma batalha. Ou nos matamos, ou não nos levamos a sério. A masculinidade madura e positiva está relacionada a aspectos como foco, resiliência, força, estrutura e coragem. Precisamos disso. Mas, na ausência do feminino para contrabalançar, o masculino se torna hiperativo. Os Estados Unidos são talvez a cultura mais dominada pela energia masculina no mundo. Isso tem um impacto global, porque tanto o capitalismo quanto a democracia foram, de certa forma, incubados aqui. Nesse processo, deixamos de fora o feminino. Na democracia, inicialmente, nem sequer foi dado às mulheres o direito de votar. Isso levou 140 anos e, mesmo assim, até hoje não houve uma mulher presidente. Vivemos, porém, uma era feminina. O século 21 ficará marcado pelo fim da opressão ao feminino, assim como o século 19 ficou marcado pelo fim da escravidão e o século 20 pelo fim do totalitarismo.

Os homens, principalmente, precisam se reconciliar com seu lado feminino…

Sim, mas para isso é preciso compreender quem você é. Esse será o tema do meu próximo livro. Não quem você é hoje, em relação à sua profissão ou identidade, mas quem era em seu nascimento, no momento em que você era unicamente você. Não há outro indivíduo com a mesma combinação de elementos. Esse é o motivo pelo qual a diversidade é tão importante. É como uma orquestra, em que cada instrumento é único. Não é possível todos tocarem a mesma nota.   

Desenvolvimento econômico e consciência, portanto, estão ligados. Contudo, não há uma contradição nessa afirmação, já que para uma pessoa ser consciente ela precisa viver com certo nível de desenvolvimento? Quem tem fome não pode refletir sobre a própria existência.

Pessoas que vivem em modo de sobrevivência são privadas de sua humanidade. Não há oportunidade para explorar os aspectos da existência. Apenas quando nos livramos desse modo de sobrevivência, e passamos a contar com recursos como tempo e educação, é que podemos liberar o potencial de nossa divindade. Este planeta costumava ser coberto de lava, hoje temos óperas. De onde vem isso? Da capacidade do ser humano de se conectar com a própria existência. O capitalismo permitiu isso a bilhões de pessoas, que antes apenas lidavam com a própria sobrevivência. Se pensarmos o capitalismo da maneira correta, teremos a oportunidade de universalizar essa capacidade. Ou podemos ser apenas soldados buscando derrotar a concorrência e ganhar mais dinheiro. No entanto, dessa forma, não aproveitamos toda a capacidade humana. Nesse sentido, acredito que muitas vezes as escolas de negócios e nosso sistema de ensino promovem um desserviço quando tentam enquadrar todo mundo no mesmo modo de agir. Não podemos pensar a escola como uma linha de produção. Temos de considerar a singularidade de cada indivíduo.

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