SANTAELLA, Lúcia. O que é cultura. Culturas e artes do pós-humano: da cultura das mídias à cibercultura. São Paulo: Paulus, 2003, p. 29-49.

No sentido original, a palavra latina cultura, significava o ato de cultivar o solo, e em todos os seus sentidos, seja social, intelectual ou artístico, cultura é uma metáfora derivada daquela.


Surgiria, posteriormente, os sentidos conotativos da palavra. Um exemplo disso é a expressão cultura anima (cultura da alma) de Cícero. A expressão tinha relação com a filosofia e a aprendizagem de modo geral.
O emprego do sentido conotativo da palavra compreende a ideia de crescimento, proliferação e desenvolvimento que o termo original indica. Uma ideia relacionada aos quatro princípios que governam a vida: ela tende a se expandir como um gás para ocupar todo o espaço disponível; ela se adapta às exigências do espaço que se tornou disponível; ela se desenvolve continuamente em níveis de maior complexidade; quanto mais complexo for o nível de sua organização, mais rapidamente a vida cresce.
Assim, é natural a disposição para o crescimento da cultura. Em meio a condições favoráveis, a cultura se alastra, floresce, aparece, faz-se ostensivamente presente.

  1. NA CULTURA, TUDO É MISTURA

Para Paul Valéry cultura é mistura, pois a mistura é o espírito e a cultura é a morada do espírito. Apresentada como uma simples brincadeira silogística, aí está enunciada toda uma condição fundamental para se entender o que está acontecendo com a cultura das sociedades pós-industriais, pós-modernas e sociedades globalizadas deste início de século. No premiado livro Culturas
Híbridas, nota-se tais questões na análise que o antropólogo argentino, radicado no México, Néstor Garcia Canclini, faz da cultura na América Latina.

  1. A PROLIFERAÇÃO DOS SENTIDOS DE CULTURA

O breve mapeamento do campo da cultura apresentado pela autora é posto sob a hipótese de que uma cartografia analítica, quando suficientemente móvel, em vez de funcionar como camisa de força que impede a apreensão da fluidez do território, funciona como um sistema de alerta e de sinalização para as dificuldades apresentadas pela evanescência dos caminhos.


2.1 Um termo elusivo

Dentre as numerosas definições de cultura há consenso de que a mesma pode ser aprendida. Podendo manifestar-se por meio de instituições, padrões de pensamento (ideologias) e objetos materiais, a cultura permite a adaptação humana ao seu ambiente natural, é gradativamente variável.
Ao longo da história foram empregados dois sinônimos para a palavra cultura: o primeiro é tradição e o segundo, a civilização.
Uma definição básica para o termo cultura é a de que a parte do ambiente é feita pelo homem. Nesta definição está implícito o reconhecimento de que a vida humana é vivida num contexto duplo: o habitar natural e seu ambiente social.
Dessa forma, cultura é mais do que um fenômeno biológico e inclui todos os elementos do legado humano maduro que foi adquirido através de seu grupo social de maneira consciente ou em meio aos processos de condicionamento como as crenças e os modos padronizados de conduta, por exemplo.


Já o conceito popular de cultura é o de refinamento e está relacionado à ideia de alguém possuir a capacidade de manipular certos aspectos da nossa civilização propiciando-lhe prestígio.
Porém, do ponto de vista científico a pessoa culta é capaz, tão-somente, de manipular determinados fragmentos da cultura na qual está inserida. Desse ponto de vista, a mais rude economia, o rito religioso mais arrebatado, um simples conto popular são todos igualmente partes da cultura (Herskovits 1952: 17-18).
De acordo com Barnard (1973: 613), embora o termo cultura tenha tido sua origem no mundo latino, a palavra só foi se tornar corrente na Europa na segunda metade do século XVIII, quando o termo começou a ser aplicado às sociedades humanas. Aos significados herdados, logo se juntaram tantos outros que, antes da última década do século XVIII, a proliferação de seus sentidos levou o filósofo alemão J.G. Von Herder a afirmar que nada poderia ser mais indeterminado que a palavra cultura.
Depois disso, em 1934, A. Lawrence Lowell chegaria a dizer que nada no mundo é mais elusivo do que a cultura. A tentativa de abranger seu significado em palavras é como tentar agarrar o ar com as mãos, quando descobrimos que ele está em tudo exceto no que se pode agarrar.
Houve empreendedores para tal tentativa, os antropólogos A. L. Kroeber e Clyde Kluckhohn levantaram nada menos do que 164 definições de cultura. Das quais foram extraídas seis categorias:


a) Descritiva, com ênfase nos caracteres gerais que definem a cultura;
b) Histórica, com ênfase na tradição;
c) Normativa, enfatizando as regras e os valores;
d) Psicológica, enfatizando, o aprendizado e o hábito;
e) Estrutural, com ênfase nos padrões;
f) Genética.

As seis categorias podem ser reduzidas a dois tipos de definições principais:
A)A primeira, uma definição restrita, que utiliza o termo para a descrição da organização simbólica de um grupo, da transmissão
dessa organização e do conjunto de valores apoiando a representação que o grupo se faz de si mesmo, de suas relações com outros grupos e de sua relação com o universo natural;


B)Um segundo tipo mais amplo de definição, e que não contradiz o primeiro, de acordo com o qual a cultura se refere aos costumes, às crenças, às línguas, às ideias, aos gostos estéticos e ao conhecimento técnico, que dão subsídios a organização do ambiente total humano (cultura material, os utensílios, o habitat, e ademais, todo o conjunto tecnológico transmissível).


2.2 A concepção humanista e a antropológica

Para Raymond Willians (1958) os termos cultura e civilização são sinônimos e possuem quatro sentidos comuns:
a) Um estado geral ou hábito da mente tendo relações próximas com a ideia de perfeição humana;
b) Um estado geral do desenvolvimento intelectual numa sociedade como um todo;
c) O corpo geral das artes e do trabalho intelectual;
d) Um modo geral de vida, material, intelectual e espiritual.

Os três primeiros sentidos estão associados à ideia humanista de cultura, ao passo que o quarto sentido às concepções antropológicas.
Se por um lado, as concepções humanistas de cultura são seletivas, separando aspectos das atividades humanas, as concepções antropológicas não são seletivas. A esta última aplica-se o termo cultura a trama total da vida humana numa dada sociedade. De maneira que o termo abriga a herança social inteira e a qualquer coisa que possa ser adicionada a ela.
Se por um lado os antropólogos evitam julgamentos de valor por medo de incorrerem em etnocentrismos, por outro lado os humanistas defendem necessidade de se avaliar as diversas formas de atividades e objetivos humanos.


Assim, a concepção antropológica de cultura é plural e relativista, o que significa que o mundo está compartimentado em diversas culturas, sendo que cada uma possui um valor em si mesma. A concepção humanista de cultura parte da ideia de que algumas pessoas “têm” mais cultura do que outras. Da mesma forma que alguns produtos humanos podem ser mais culturais do que outros (artes visuais, música ou literatura).
Há entre ambas as concepções de cultura a necessidade de se distinguir o cultural do biológico na vida humana e social. É dessas duas concepções que derivam os sentidos de cultura que se tornaram correntes: o sentido lato e o sentido estrito.
Constam no sentido lato os aspectos característicos de uma forma particular de vida humana. O sentido estrito é uma província das humanidades, cujo objetivo é interpretar e transmitir às gerações futuras os sistemas de valores em função dos quais os participantes em uma forma de vida encontram significado e propósito.


Nos dois sentidos apresentados, a cultura pode ser pensada como uma agente causal que afeta o processo evolutivo através de meios exclusivamente humanos. O que faz da cultura um recurso indispensável para o crescimento do controle humano no sentido em que nossa espécie muda.
Para Williams (1967) a concepção humanista tem ênfase idealista, pois apresenta a cultura como um processo e um estado de cultivo sob um prisma universalista. Um conceito que expressa um ideal de perfeição humana o que facilita, de certa forma, o conflito com a ênfase nas culturas particulares que acentua as diferenças nos modos pelos quais o ser humano encontra significado e valor na sua vida e, até mesmo concebe a perfeição.
Dessa forma, a ênfase própria da moderna antropologia e sociologia é relativa e comparativa, enquanto a ênfase idealista tende a ser absoluta e é comumente associada à herança clássica e cristã europeia. Entre as duas
ênfases está o sentido mais comum de cultura: um corpo existente de trabalhos artísticos e intelectuais.


Um trabalho artístico ou intelectual não necessariamente se conforma à ideia de um estado mental, perfeito, previamente associado a valores e significados tradicionais conhecidos.
Considere-se que se por um lado há o sentido humanista universal e do outro há o sentido antropológico relativista. Faz-se, com isso, a necessidade de distinguir alta cultura, baixa cultura, cultura de massas, ou outras denominações para o conceito de cultura e que se tornaram comuns no século XX.
Há ainda o fato de que a cultura pode ser vista como um corpo de trabalho artístico e intelectual ao qual um grande ou até mesmo um supremo valor é conferido. Essa condição dificulta aceitar os usos que a antropologia e a sociologia fazem da palavra cultura, uma vez que seus usos são neutros, referindo-se ao que as pessoas fazem ou pensam, sem levar em consideração qualquer mérito artístico ou intelectual. Pois, esses usos incluem elementos da vida social e econômica, especialmente institucional, que nada tem a ver como o sentido artístico e intelectual de cultura.


2.3 Cultura e civilização

Ao longo da história foram abundantes as distinções que se fez entre cultura e civilização.
Se o termo cultura deriva do sentido de crescimento natural, o termo civilização é derivado da condição de cidadão (civis, no latim). Um termo que se contrapõe a barbarismo (o qual, também, é uma condição social cujo significado original é o modo de vida de um grupo estrangeiro).
Barnard (1973) afirma que para os escritores como Kant, Coleridge e Matthew Arnold a cultura representa essencialmente as condições morais do indivíduo, e com isso está inevitavelmente associada a valores espirituais.

Ao passo que a civilização significa as convenções da sociedade à qual estão associados valores materiais.
De modo que para Kant a propriedade externa constitui meramente a civilização, mas a ideia de moralidade pertence à cultura verdadeira. Essa distinção é derivada do ceticismo sobre o valor da civilização que tem sua origem em Diderot, Rousseau, Hebert – pensamento que atinge seu auge no início do século XX com Spengler.
Matthew Arnold defende a ideia de cultura como auto perfeição moral e Toynbee, ao contrário, entendia a civilização como o mais alto desenvolvimento das culturas sociais a partir de suas origens primitivas.
Alfred Weber e R. M. MacIver reservavam o conceito de cultura para a área de valores e significados, e para o conceito de civilização a área de organização material. Sendo que para Weber a civilização é tida como um produto da ciência e tecnologia relacionando-se primariamente com a natureza e não com o homem, por isso é universal e acumulativa. A cultura refere-se à interpretação humana expressa em significados e valores (filosofia, religião e arte).


Já, MacIver apresenta a seguinte distinção entre cultura e civilização relacionando a cultura com os fins e a civilização com os meios. Neste caso a ordem tecnológica da civilização é determinada pela ordem cultural dos significados e valores.

  1. A CULTURA NA ANTROPOLOGIA
    3.1 Os precursores

Permanece a presença da relação entre cultura e civilização nos escritos dos antropólogos modernos. Dentre os quais E. B. Taylor foi seu primeiro expoente. O autor definiu a cultura como um todo complexo que inclui conhecimento, crença, arte, lei, moral, costumes e quaisquer outras capacidades e hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma
sociedade. Tal concepção teve influência dos intelectuais Vico e Herder que defendiam a cultura como um todo integral.


Para Martinon (1985), a obra de Taylor marcou o reconhecimento da coextensividade da cultura com o simbólico o que abriu uma gama de possibilidades para aquilo que poderia estar circunscrito sob a denominação de cultura.


De fato e por direito, tudo aquilo que pode ser entendido como uma organização, como uma regulação simbólica da vida social pertence à cultura, sendo esta a maneira pela qual se agenciam num mesmo todo, elementos tão diversos quanto a arte e a arquitetura, com ou sem arquiteto, as posturas nas práticas do parto, micção, defecação, os rituais do casamento, morte, a escritura ou o arco e flecha. São todos traços culturais que formam o conjunto de modelos diferentes de organização da vida social.
Todas as vezes que os aspectos e segmentos da vida social puderem ser discernidos e compreendidos a partir de uma coerência simbólica, tratar-se-á aí de cultura.
A maior crítica em relação à definição tyloriana de cultura viria nos anos 1960, do século XX, quando George Stoking (1968) refuta o consenso de que as raízes da antropologia moderna estão em Tylor. Para este último autor a definição tyloriana de cultura é menos antropológica do que parece, e ademais as verdadeiras raízes do conceito estariam espalhadas nos escritos de Boas.


Para Barnard e Spencer (1996), a história antropológica da cultura teve início a partir do momento em que se admite a utilização da palavra cultura no plural “culturas”. Nessa pluralidade está localizada o sentido moderno de cultura na antropologia.
Há que se considerar, ainda, que o primeiro a defender a ideia de pluralidade irredutível em cultura e a relatividade histórica das culturas humanas foi Herder. Isso além da ênfase no trabalho de artistas e intelectuais como o ponto mais alto da expressão cultural faz de Herder o fundador não
apenas do sentido antropológico, mas também do sentido humanista de cultura.


3.2 Herder e a modernidade

Antecipando algumas tendências atuais, especialmente na semiótica da cultura, Herder rejeitou a dualidade entre atividade material e não material. Um contraponto ao pensamento de que a cultura estaria relacionada a buscas espirituais e a civilização com o progresso material.
Para Herder os artefatos são parte da cultura da mesma forma que o são as ideias, as crenças e os valores. Cultura não é só o que os homens pensam, mas também o que fazem.
A relação mais estreita entre a concepção de cultura de Herder com a semiótica diz respeito a sua preocupação com os determinantes culturais que ajudam a produzir um sentido de identidade coletiva. Determinantes identificados principalmente com a linguagem, símbolos e valores compartilhados, costumes e normas de reciprocidade.


Para a antropologia moderna e em oposição às posições iluministas, é também antecipadora a visão de Herder de que os elementos irracionais são significantes agentes modeladores das culturas sociais. Sendo que, diferente dos pensadores marxistas, não considerava ideias e crenças como epifenômenos, superestruturas de uma base econômica determinante.
Por outro lado, em concordância com as teorias marxistas, na sua visão de um todo cultural como um campo de tensão, não apenas entre as subculturas dentro de uma mesma cultura, quanto na relação de diferentes culturas entre si antecipando a concepção marxista da sociedade como uma arena de classes em luta. Tal concepção tornou-se dominante especialmente na América Latina entre os anos 1960 e 1980 como meio de análise dos diferentes níveis e estratos culturais, populares ou de elite, como representações de conflitos de classes sociais.
Herder influenciou direta e indiretamente pensadores tais como Hegel, J.S, Mill, Spengler, Eliot e Toynbee.


Seu modo de tratar toda manifestação de cultura como essencialmente autônoma, embora histórica e funcionalmente inter-relacionada, caracteriza a múlti causalidade dos processos culturais, o que veio se provar como um conceito útil para o estudo das culturas sociais (Barnard 1973: 619).


3.3 A escola de Boas

A ponte entre a visão pluralista de Herder e a antropologia moderna está em Franz Boas, que foi educado na tradição alemã e que Herder era parte e que acomodou seu próprio trabalho às emergentes exigências empíricas da antropologia anglo-americana.
Boas não deixou uma teoria consistente de cultura, mas um conjunto de problemas que iria ocupar os antropólogos americanos por um bom tempo.
Se de um lado a cultura era vista por Boas como alternativa pluralista e relativista contra o racismo científico e evolucionismo etnocêntrico. Por outro lado, ele deixou uma tensão sem resolução entre a concepção de cultura como um conjunto de fragmentos históricos e a cultura como um todo integral expressando o caráter de um povo particular.


Nessa concepção pluralista das diferenças humanas, Boas foi herdeiro legítimo de Herder. Uma concepção que abarca a possibilidade da tolerância relativista, quanto pode dar margem à intolerância política da exclusão e purificação, quando põe ênfase na integridade interna (O caráter ou espírito de um povo).
O que caracterizou a escola de Boas foi a visão de cultura como diversidade o que repercutiu na obra de Benedict que enfatizou tanto a diversidade quanto a integração interna das culturas específicas. A sua proposta de concepção chama a atenção para o ethos, o tom moral, emocional e estético característico de uma cultura particular.


Em 1917, Kroeber havia introduzido a ideia da cultura como super orgânica, A cultura é acima de tudo, sui generis, não devendo ser reduzida a quaisquer outros fatores não culturais, tais como raciais, psicológicos etc.
Aqui a cultura não é um produto das ações humanas, ao contrário, é aquilo que produz ou conduz essas ações. Produzindo uma lógica própria independente dos pensamentos dos indivíduos específicos.
3.4 A antropologia britânica

Os antropólogos europeus estavam mais voltados para a antropologia social do que cultural. Assim, a preocupação da antropologia americana com a cultura não foi compartilhada com os europeus.
Para o inglês Radcliffe-Brown, que faz analogia entre a sociedade e os conceitos biológicos de organismo e vida acreditava que a antropologia é um ramo das ciências naturais. Logo, a cultura não passava de uma abstração vaga.


Já o termo Culturalista era o adjetivo quase pejorativo utilizado pela escola inglesa em oposição ao termo menos ambíguo e tangível, “estruturalista” que, antes dos anos 60, referia-se ao estudo das estruturas sociais. Suspeita-se ainda que a rejeição em relação ao termo cultura, por parte dos ingleses, está relacionada a uma inquietação britânica mais ampla no que diz respeito ao sentido humanista da cultura.
Malinowski, que diferente de Radcliffe, aceitava a existência de uma ciência da cultura, propôs uma teoria funcionalista da cultura. Essa teoria considerava a cultura como um aparato instrumental dirigido para um fim.
O termo funcionalismo utilizado por Malinowski designava a concepção de cultura como integrada, como parte de um sistema de elementos mutuamente interdependentes. Posteriormente o termo funcionalismo seria empregado a ideia de cultura como um aparato instrumental a serviço de necessidades biológicas e psicológicas.


Assim, Radcliffe fazia questão de distinguir sua teoria biológica da cultura de Malinowski. Este último denominava-se por arqui-funcionalista. Sendo que, ainda que de maneira distinta, entre os anos 1930 e 1959, imprimiram ambos os pensadores a mesma importância que os americanos conferiam aos processos culturais.


3.5 O estruturalismo de Lévi-Strauss

Na França a civilização prevaleceu sobre a cultura. Uma exceção pode ser encontrada na obra de Lévi-Strauss, cuja visão de cultura foi fortemente influenciada por Boas.
Lévi-Strauss trouxe para o campo da antropologia as contribuições conceituais do estruturalismo linguístico. Para o pensador os elementos universais na atividade do espírito humano podem ser compreendidos como partes irredutíveis e suspensas em relação ao tempo que perpassa por todas as formas de pensar dos seres humanos.


Em sua teoria, as oposições básicas entre masculino e feminino, natureza e cultura, servem para explicar porque as atividades tão diversas como agricultura e arte ajustam-se para formar uma única cultura integrada. A partir desse pensamento, a cultura pode ser entendida como um sistema simbólico que resulta da criação cumulativa da mente humana.
O trabalho de Lévi-Strauss está voltado para a descoberta das estruturas dos domínios culturais: mito, arte, parentesco e linguagem, bem como dos princípios da mente que geram essas elaborações culturais.


3.6 Áreas da antropologia cultural

Neste item estão apresentadas brevemente algumas das áreas e temas de estudos mais tradicionais e correntes na antropologia cultural.
Os traços da cultura
Há consenso entre os antropólogos de que a cultura está relacionada com ações, ideias e artefatos que os indivíduos numa dada tradição aprendem, compartilham e avaliam.
As ações, ideias e artefatos são englobados sob a rubrica do comportamento ou costumes. Sendo que, os costumes ou comportamentos são a delimitação dos elementos mínimos significantes que podem ser isolados no comportamento. Esses elementos são os traços de cultura, que estando associados em grupos de elementos são chamados de complexos.
Designa-se ainda como instituições os sistemas organizados de comportamento de grupo, as quais são definidas pelos cientistas sociais como grupos de atividades em funções específicas de necessidade e satisfação: Família, Educação, Economia, Política, Religião, entre outras.


A cultura como fenômeno histórico
É apenas na dimensão histórica que a cultura pode ser de fato estudada. Isso, com vistas à origem de seus elementos através das inovações e de sua difusão.
Os elementos culturais têm uma história cronológica. Isso envolve questões tais como origem, crescimento e diferenciação culturais através da história.
A cultura como fenômeno regional
Os elementos culturais apresentam uma distribuição geográfica o que define certos costumes, artes, religiões, etc. como pertencentes às regiões em que eles existem. Sendo que, determinado hábito social de uma região pode ser absorvido por outras regiões.


Os padrões culturais
A cultura tende a ser padronizada. O que se dá pela repetição de comportamentos similares aprovados pelo grupo, de modo que a cultura adquira uma estrutura reconhecível. Quando os indivíduos ajustam seu comportamento de acordo com o padrão aprovado, a cultura permanece estável.


As funções dos elementos culturais
Para entender os elementos da cultura, tanto a forma quanto a função devem ser exploradas.


As configurações da cultura
A cultura tende a ser integrada e apresenta configurações (premissas, valores e objetivos) mais ou menos consistentes que lhe conferem unidade. A maior preocupação da antropologia contemporânea são os estudos sobre os fatores integrados da cultura.


Estabilidade e mudança na cultura
Os comportamentos individuais variam, inovações ocorrem, mesmo as configurações básicas da cultura podem mudar. O ritmo das mudanças culturais varia muito, dependendo das possibilidades que se apresentam para que o crescimento e o desenvolvimento possam se realizar. Para se processar a mudança enfrenta-se a resistência da estabilidade.
Há que se considerar que a estabilidade é um princípio necessário como garantia de coesão para a sobrevivência da cultura. É um princípio ligado à adaptação.


Os sistemas culturais
As condições de diversidade e dinamicidade tornam qualquer cultura um fenômeno sempre complexo. Por isso, é possível identificar padrões não muito bem definidos e consistentes com variações internas múltiplas nas culturas.
Por esse motivo, alguns antropólogos buscam distinguir conjuntos de subpadrões dentro de uma cultura chamando-os de subculturas.
Há ainda a utilização de um termo mais geral para se referir a qualquer corpo significante e organizado de comportamento cultural: sistemas culturais.


A aculturação
Quando dois grupos culturais são postos em contato, eles absorvem elementos culturais um do outro. Quando isso acontece com alguma continuidade, o processo de transferência é chamado de aculturação.


A continuidade da cultura
As tradições culturais se acumulam sem quebras de continuidade. Elementos culturais, uma vez inventados, passam de um indivíduo para o outro através do aprendizado. Eles são compartilhados de uma geração a outra.
O continuum cultural se estende da origem da existência humana até o presente. As culturas se cruzam e recruzam, fundem-se e dividem-se.


A simbolicidade da cultura
A produção material e imaterial humana possui significado. Sem o conhecimento de seus significados, esses elementos culturais são incompreensíveis. Tais elementos culturais só têm significado porque são
signos, sob esse ponto de vista as culturas costumam ser chamadas de sistemas de símbolos. Para entendê-los nada mais apropriado que a semiótica.

  1. DA SEMIÓTICA AOS ESTUDOS CULTURAIS

A partir dos anos 1960 e 1970, surgia uma nova tendência na antropologia cultural. Tal tendência concebia a cultura como símbolos e significados o que atrairia nos anos 1980 aos antropólogos ingleses.
A ênfase na coextensividade da cultura e os símbolos e significados foi grandemente devida às discussões que vieram à tona a partir de estudos sobre os primatas não humanos levados a efeito nos anos 1960. Tais estudos conduziram ao questionamento da noção dos antropólogos evolucionistas de que a cultura é um fenômeno confinado ao reino humano. Outros evolucionistas colocaram o advento da cultura simbólica, muito mais do que a cultura material e sua transmissão, o avanço significativo da espécie humana.


A ênfase da antropologia no caráter simbólico da cultura encontrou forte complementaridade na semiótica da cultura nos anos 1970.
De acordo com a definição de Cassirer, apud Nöth, (2000), a cultura é um sistema “simbólico de formas”. Assim, a semiótica é uma ciência da cultura, pois ela é a ciência universal dos signos e símbolos.


A semiótica da cultura não é um campo homogêneo. Muitas correntes se desenvolveram: semiótica cultural evolucionária, desenvolvida pela Escola de Bochum; em contraponto à tradicional antropologia cultural; a corrente da semiótica cultural antropológica, tal como aparece nas obras de Kelkar (1984), Singer (1991), junto com a etnossemiótica, por exemplo, de MacCannel (1979), Voigt (1992) etc.
O empenho para a ampliação da pesquisa linguística, teórico textual e literária através de seu contexto cultural mais amplo encontra-se em Roland Barthes e, especialmente, Umberto Eco.


Já o dialogismo bakhtiniano é, sobretudo, uma teoria da cultura. Outro campo importante para a contemporaneidade são os chamados “cultural studies”.
Os estudos culturais foram introduzidos na Inglaterra. Em 1963, sob influência do pensamento de R. Williams estabeleceu-se o Centro de Estudos Culturais Contemporâneos em Birmingham sob a direção de Richard Hoggart. No início foram influenciados pela concepção marxista de cultura como ideologia. Nos anos 1990, os estudos culturais foram incorporados ao sistema universitário britânico.


A penetração dos estudos culturais nos Estados Unidos dá-se a partir dos anos 1980 e continua até hoje. Os estudos culturais foram se estabelecendo em vários países da Europa, assim como Austrália e Canadá.

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