SALLES, Cecília Almeida. Gesto inacabado: processo de criação artística. São Paulo: Annablume, 2007.

Estética do movimento criador
A criação pode ser observada como contínua metamorfose, sendo um percurso feito de formas incertas. O que também podemos refletir é sobre o conceito de obra acabada, uma vez que a realidade da mobilidade é presente. Estamos diante assim, sob o ponto de vista do artista, de uma estética em criação. O artista, no ato criador, levanta hipóteses e as testa permanentemente. Como consequência desta movimentação, vemos em vários momentos, diversas possibilidades de visão de uma mesma obra. O artista ao criar faz um movimento feito de sensações, ações e pensamentos, onde o inconsciente e o consciente fazem intervenções no processo. Como resultado final da criação temos uma nova realidade, que será avaliada pelo artista e posteriormente pelos receptores.


Trajeto com tendência
O artista geralmente é movido para vencer um desafio, sendo assim, vai em busca da resolução e da satisfação da sua necessidade. Este desejo o move para a ação. A tendência não mostra a solução para esse problema, mas mostra o rumo que o artista poderá seguir, e o processo vivido explica essa tendência. Vale ressaltar que esta tendência é maleável. O rumo e a vagueza, nas quais o artista é fiel, movem o ato criador e geram o trabalho. O processo criador pode ser caracterizado como um percurso que possui um objetivo a ser atingido. O artista tem a necessidade de produzir obras para o mundo e nunca está totalmente satisfeito, ele precisa renovar a sua criação ao realizar novas obras.


A arte é uma insatisfação do artista, e ele a combate produzindo mais e mais obras. É uma busca incessante que nunca se completa ou se chega a um fim. A necessidade nunca está plenamente satisfeita. O artista tenta expressar uma profunda verdade, porém nunca consegue o êxito total.
O acaso está presente no processo criativo, aliado com a tendência. O artista precisa aceitar a intervenção do acaso. O artista presencia este acaso e é o agente e testemunha do ato criador. Em meio a um turbilhão processual, o artista dialoga com a obra em criação. O receptor também faz parte do processo de criação.


Recompensa material
Trata-se do trabalho indispensável de dar aos olhos o conhecimento das formas. A recompensa material seria o trabalho de manipulação de fontes e materiais. O pensamento passa a ser ação. O ato criador se dá em procurar por possíveis formas que concretizem o projeto do artista. O pensamento e a ação andam em conjunto, um não existe sem o outro.
A sensibilidade e as sensações permeiam o trabalho de criação. Isto é variante e mutável. Uma imagem, por exemplo, pode afetar a sensibilidade e trazer sensações marcando profundamente o artista. O ato criativo caminha em direção a um efeito estético e sendo o artista o primeiro receptor da obra, ele é o primeiro a ser atingido por ela.


O artista se utiliza da matéria para produzir sua obra. A matéria é tudo aquilo que o artista recorre para a concretização de uma obra, e ele escolhe, manipula, transforma de acordo com sua necessidade. Ou seja, a matéria é tudo aquilo do que a obra é feita, o que dá corpo à obra. Para o ator, uma de suas matérias é seu próprio corpo, assim como para o bailarino. Há casos em que a matéria é modificada no processo criativo e ganha mais artisticidade. Esta situação é verificada principalmente em obras de artes plásticas, onde objetos têm seu significado ampliado e ganham uma natureza artística.


A relação entre forma e conteúdo não pode ser uma dicotomia. Não serão encontrados nenhum elemento separado do todo e menos ainda no conteúdo da obra, se tiver isolado do todo. Forma e conteúdo se fundem em uma obra.


Ao produzir uma obra, o artista depara-se com tensões psicológicas que acabam fazendo parte de suas obras. O artista enfrenta angústias, necessita de paciência, aparenta estar em desequilíbrio, porém, muitos precisam produzir para encontrar seu equilíbrio pessoal. O prazer está também presente no desenvolvimento artístico, sendo que o ato criador oferece muitos e diferentes encantamentos. A obra de arte se desenvolve em um ambiente emocionalmente tensivo.


Abordagens para o movimento criador
Ação transformadora
Através de dois momentos transformadores que são a percepção e a seleção de recursos artísticos, o artista pode criar uma ordem seletiva e realizar fusões verificando que seus movimentos estão atados a outros.
A percepção no ato criador pode ser uma forma de exploração do mundo pelo artista. A imaginação passa a servir como um instrumento de criação da realidade. Esta percepção pode ser seletiva, uma vez que selecionamos aquilo que é significativo e considerado relevante.
Os recursos ou procedimentos criativos são os meios encontrados pelo artista para concretizar a obra. Há uma singularidade encontrada em cada artista para a concretização de suas obras.


Movimento tradutório
O artista, em alguns casos, recorre a outras linguagens para auxiliarem o seu percurso criador. Este recurso pode se dar através de códigos pessoais, rabiscos, desenhos, músicas ligadas à obra etc. Pode ser que algum dia essas formas de registro possíveis sejam traduzidas por ele mesmo ou por outra pessoa.


Processo de conhecimento
A criação é o conhecimento obtido por meio da ação. Os artistas utilizam diversos meios para armazenar informações, sendo que esses meios agem como auxiliares no percurso de produção da obra e nutrem o artista e a obra em criação.


Construção de verdades artísticas
O foco é a verdade artística em criação. Trata-se da verdade buscada pelo artista, ao longo de seu trajeto em direção à obra. Esta verdade está sob a ótica da sua construção.


Percurso de experimentações
As experimentações são recursos de investigação artística. Ao realizar uma obra, o artista levanta hipóteses e as investiga. O ato criador mostra as experimentações do artista. Podemos encontrar rascunhos, croquis, esboços, como formas de testes diversificadas.

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