PAVIS, Patrice. A análise dos espetáculos. São Paulo: Perspectiva, 2008.

PARTE I – AS CONCEPÇÕES DA ANÁLISE


1) O ESTADO DA PESQUISA

O termo “análise do espetáculo” não é um termo utilizado com felicidade. A palavra analisar é decompor, cortar, fatiar, o que dá uma ideia de “despedaçamento”, e não uma ideia de visão global do espetáculo ou da encenação. Porém, a análise do espetáculo passa pelo reconhecimento da encenação, que reúne, agrega vários fatores.


Não cabe à análise a preocupação de estabelecer um repertório de signos que constitui a representação e são observados na encenação. A análise se dá em uma apreensão global do que é apresentado.


A análise apresentada se fundamenta na experiência individual do espectador perante o fenômeno cênico. A divisão que se fundamenta um texto não é a dinâmica do espetáculo propriamente dito. Não podemos reduzir o ato teatral em unidades de texto. O espetáculo é visto de modo global. A teoria e a análise do espetáculo se dão de modo distanciado.

2) OS INSTRUMENTOS DE ANÁLISE

O método mais simples para analisar uma representação é através do comentário verbal. As imagens e emoções vivenciadas durante o espetáculo podem ser traduzidas através de uma descrição verbal.


A tomada de notas de um espectador ou de um crítico durante um espetáculo não se faz sempre necessário, porém se o quiserem realizar pode ser um instrumento de registro de sua visão ou comentário. As anotações podem ocorrer através da escrita ou do desenho. Questionários podem ser distribuídos aos espectadores para que o objeto teatral seja, de certa forma, dimensionado.


Elementos visuais podem acompanhar a encenação e são instrumentos de consulta anterior ou posterior ao espetáculo por parte do espectador, sendo eles os programas, anotações de encenação, material de divulgação, texto publicitário, fotografias, vídeos (DVD) e CD-ROM.


O ator é um arquivo vivo do teatro, levando com ele emoções, impressões e memórias. Esta arqueologia através do ator se torna uma maneira viva de contar diferentemente um mesmo espetáculo. O uso cotidiano das mídias nos traz uma nova impressão do espetáculo, e estas mídias podem ser incorporadas no espetáculo vivo. A informatização se faz presente na análise dos espetáculos.


PARTE II – OS COMPONENTES DA CENA


1) O ATOR

A análise do espetáculo deveria iniciar pela análise do trabalho do ator, uma vez que ele é o centro da encenação, porém é o elemento mais difícil de ser analisado pela sua complexidade. O ator é o elo vivo, é o coração do espetáculo. É ele que faz a intermediação entre o texto do autor, as diretivas do diretor e o espectador.
O ator acaba sendo também um espectador do espetáculo em um outro ângulo. Este ator precisa se fazer “presente” ou ter “presença cênica”, não deverá “perder” a sua personagem (manter sua atuação), manter uma boa
dicção do seu texto para que o mesmo seja compreendido, utilizar a gestualidade e gerir suas as emoções. Diversas categorias históricas ou estéticas se dão para identificar meios de atuação (naturalista, brechtiana, artaudiana etc.)


O trabalho do ator exige uma atuação corporal, onde operadores são fundamentais:

  • A extensão e diversificação do campo da visibilidade corporal;
  • A orientação ou a disposição das faces corporais;
  • As posturas;
  • As atitudes;
  • Os deslocamentos;
  • As mímicas;
  • A vocalidade;
  • Os efeitos do corpo;
  • A propriocepção do espectador.
    2) VOZ, MÚSICA, RITMO

A voz no trabalho do ator não pode ser desassociada do corpo, sendo a voz um prolongamento do mesmo. A análise da voz exige um conhecimento aprofundado do aparelho vocal. O aparelho vocal compreende:

Aparelho respiratório: é responsável pela inspiração e expiração;

Laringe: é o órgão que produz as variações de altura que se pode dividir em registros e modos de emissão;

Ressoadores: são constituídos pelas cavidades que o som laringiano deve atravessar para chegar ao ar livre, sendo eles

a faringe,

cavidade bucal,
nasofaringe

e fossas nasais.

Os ressoadores dependem da mandíbula, língua, músculo da faringe, laringe, velo palatal e lábios.


O que dá um colorido especial à voz do ator são as emoções que ele expressa, porém ao mesmo tempo deverá ter cuidado para que estados involuntários e inconscientes não sejam trazidos para o público. O ator deverá tomar cuidado com sua dicção, com a melodia produzida pelas frases e pelos ritmos das palavras produzidas. O ator deverá escutar sua própria voz para verificar a curva das frases enunciadas.


A música no espetáculo se dá por qualquer evento sonoro, sendo ele vocal, instrumental e ruidoso, ou seja, tudo que pode ser audível pela plateia. A música influencia a percepção global do espetáculo, ela propicia um “clima” diferenciado ao espetáculo e tal atmosfera criada gera um verdadeiro cenário acústico.


O ritmo é um elemento sonoro e temporal. O ritmo se dá em relação à encenação e em partes significantes. O ritmo do espetáculo une os diversos materiais da representação e pode ser compreendido como “musicalidade do espetáculo”.


3) ESPAÇO, TEMPO, AÇÃO

O tempo manifesta-se de maneira visível no espaço.
O espaço situa-se onde a ação acontece e se desenrola com uma certa duração.
A ação concretiza-se em lugar e momentos dados.
Na ação teatral ambos estão interligados formando um triângulo com ângulos fundamentais.


4) OUTROS ELEMENTOS MATERIAIS DE REPRESENTAÇÃO

São elementos materiais que são significantes para o espetáculo.
O figurino vai além da simples roupa que o ator utiliza, ou do uso de máscaras, perucas, postiços, joias, acessórios e maquiagem. O figurino faz parte da primeira impressão e o primeiro contato do espectador com o ator.
As grandes funções do figurino são:

A caracterização;

A localização dramatúrgica para as circunstâncias da ação;

A identificação ou o disfarce do personagem;

A localização do gestus global do espetáculo, ou seja, da relação da representação, e dos figurinos em particular, como universo social.
A maquiagem atua como máscara, figurino ou acessório e é o que está mais perto do corpo do ator agindo como uma “membrana fina”. Dá expressão ao rosto através de seus traços e pode ser utilizada no corpo também.


O objeto é tudo aquilo que está em cena e constitui por natureza, no palco, um material flexível, manipulável. Podem ser:

Elementos naturais: água, fogo, terra;

Formas não figurativas: cubos, cones etc.;

Materialidade legível: objetos brechtianos;

Objeto encontrado e reciclado no espetáculo;

Objeto concreto criado para o espetáculo;

Objeto ao mesmo tempo mostrado e nomeado;

Objeto nomeado no texto pronunciado;

Objeto assinalado pela didascália;

Objeto fantasiado pela personagem;

Objeto sublimado, semiotizado, posto em memória.


A iluminação se faz como elemento chave na representação, pois ela existe visualmente e tem também a função de colorir e relacionar os elementos visuais (espaço, cenografia, figurino, ator e maquiagem), conferindo a eles uma certa atmosfera.
O tato, o olfato e o paladar podem ser estimulados no ator e no público de acordo com as propostas cênicas. Um aroma pode ser colocado na encenação, uma proposta de toque a algum objeto ou ainda pratos podem ser degustados.


5) O TEXTO IMPOSTADO

O texto é pronunciado, enunciado, “impostado” em cena: texto produzido, lançado e emitido em todos os sentidos possíveis e em todos os sentidos.
O texto impostado já está presente, colorido por uma voz, versão concreta e vocal de um texto pronunciado que o espectador ou auditor não tem que ativar com sua própria voz, como faz o leitor do texto escrito.
O texto impostado já está integrado a uma encenação. As características de impostação variam de acordo com a proposta de encenação.


PARTE III – AS CONDIÇÕES DA RECEPÇÃO


1) A abordagem psicológica e psicanalítica

Toda obra possui uma aura que proporciona sensações, sentimentos e emoções, tanto no espectador quanto no próprio ator. O processo de criação, a relação entre o artista e sua criação e a análise da obra envolvem interferências de fatores psíquicos e psicológicos.
O consciente e o inconsciente se fazem presente interferindo na obra e na sua compreensão de certa forma.

2) A abordagem sociológica do espectador

As peças e obras teatrais permeiam o campo sociológico. O teatro possui uma função social de levar códigos e provocar reflexões na plateia. Além disso, os atores encaram o ato teatral como sua profissão.
Dentro de cada obra há discussões históricas e ideológicas que são provocadas e oferecidas ao público. Valores e questões políticas, por exemplo, podem ser trazidos e são fatores de análise.


3) A abordagem antropológica e a análise intercultural

As relações culturais presentes no espetáculo podem expressar elementos da diversidade cultural que temos em nossa sociedade. Principalmente no teatro ocidental o sincretismo está presente, tomando contato com uma certa “mestiçagem cultural”, mostrando assim uma complexidade que o mundo possui.


CONCLUSÃO
A análise dos espetáculos necessita de uma revolução, pois mudanças ocorreram nos modos de representação e oferecem um novo olhar. É necessária uma quebra de paradigmas, o que proporcionará novas leituras para o espetáculo teatral e também outras formas de análise.

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