O Marketing, a distribuição de coletes, a Bolsa e o seu bolso

Abro o Instagram e vejo um post oferecendo um colete para quem fizer uma TED do Itaú para a XP. Um momento! Será que li corretamente?
Tomo mais um café, esfrego os olhos e lá estão o colete e a oferta. Não é ilusão nem reflexo de uma noite mal dormida.

A oferta parece ser uma reação ao comercial do Itaú divulgado no dia anterior questionando os reais interesses do exército de consultores financeiros da XP. Não é de hoje que a integridade e a isenção de corretores (de qualquer tipo) é posta em cheque e questionada. Diz o comercial que o consultor financeiro ganha quando o cliente ganha, ganha quando o cliente perde. E é verdade!

Mais um café e a imagem do Dana White (presidente do UFC) me vem à mente. Aquele sujeito bonachão no meio de dois lutadores que fingem hostilidade na pesagem do dia anterior à luta. Eles quase se engalfinham, trocam insultos, o Dana ali espremido entre eles, fazendo força para evitar o embate, a tensão crescente a se refletir no aumento de pay-per-views para a luta no dia seguinte.

Após os gladiadores se acalmarem, o aperto de mãos e o sorriso largo do Dana White, sim, ele mesmo. O cara que vai lucrar independente de quem ganhe a luta, independente de quem saia ensanguentado.

Abro o jornal e mais opiniões de executivos do Itaú e da XP defendendo suas posições, mais bochicho, mais polêmica, mais marketing gratuito para as duas marcas.

Os times de marketing das duas instituições estão de parabéns pela campanha criada, tocando no arquétipo do pai e filho que se enfrentam, do filho que se rebela, desafia o pai quando se sente forte o suficiente para mudar o status quo. É quase como propaganda de jovem usando camisa de Che da marca Chanel.

Imaginar que uma instituição conservadora como o Itaú criaria uma polêmica com uma empresa em que detém significativa participação, seria no mínimo, ingenuidade. A realidade é que seu dinheiro no Itaú ou na XP fará a alegria dos mesmos investidores (o Itaú é dono de mais de 40% da XP), como faria a alegria do Dana White. Mas a questão da isenção e integridade dos consultores financeiros vale mais algumas linhas.

A tempestade perfeita se formou no mundo dos pequenos investidores na bolsa de valores : taxas reais baixas (como nunca estiveram) em renda fixa, plataformas digitais com baixo custo de transação democratizando o acesso e tempo de sobra para brincar de lobinho de Wall Street, fruto da pandemia.

A rápida e inusitada recuperação da bolsa serviu de combustível para esse sentimento tão humano chamado ganância e os consultores financeiros, que vivem do que caçam diariamente, foram ao trabalho, mostrando os retornos mágicos de quem teve coragem de arriscar quando outros tinham medo, estimulando a criação de um ciclo virtuoso, ajudando a inflar uma nova bolha.

Obviamente houve e há excessos, e o conflito de interesse apontado de forma bem humorada pelo comercial do Itaú é um problema crescente. Há profissionais que prometem resultados, não explicam a clientes crédulos a verdadeira relação de risco/retorno, incentivam compras de ações, fundos e operações estruturadas, que o cliente adquire sem entender por que.

Mais do que nunca é fundamental para o pequeno investidor ter educação financeira e poder identificar os verdadeiros Dana Whites em cada transação que autorize.

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