STIGGER, M. P. Educação Física, esporte e diversidade.Campinas: Autores Associados, 2005.

APRESENTAÇÃO


Nas Ciências Sociais, o esporte não é tratado como um tema relevante. Porém com a relevância do esporte na atualidade como dinamizador social e da construção de sociabilidade, é estudado no contexto interdisciplinar.
Os focos dos estudos se voltam para grandes eventos esportivos, em especial o futebol, porém enaltecendo o fenômeno e desconsiderando o contexto social, político, econômico e cultural do esporte na sociedade capitalista e com uma ideologia dominante. Tais estudos, mesmo com suas limitações e restrições à análise de práticas esportivas veiculadas pela mídia, contribuem para o avanço do conhecimento científico.


O esporte, para o senso comum, está muito relacionado ao futebol, aos clubes, torcidas e a imaginário e construção de identidades ligadas a este esporte de massas, que possui grande visibilidade social. Outras modalidades esportivas são secundarizadas nas pesquisas, minimizando o enfoque da relação entre esporte e diversidade.


Stigger lança um olhar antropológico sobre o esporte e a prática da atividade física, buscando ―compreender a variedade de maneiras com que diferentes homens e mulheres vivem suas vidas…entender diversas formas pelas quais o esporte é vivenciado, ou seja, como essa prática social pode ser entendida na sua diversidade de usos e de expressões‖. (p. 2) Para isto, o autor apresenta os resultados de uma pesquisa conduzida em 2002, na qual estuda as práticas esportivas de fim de semana, debatendo a heterogeneidade do esporte no lazer.


As visões hegemônicas do esporte estão enraizadas na prática docente cotidiana, na relação professor/aluno, nas relações ensino/aprendizagem. E com isto, revela-se a importância da abordagem do esporte como fenômeno sociocultural.


INTRODUÇÃO
O QUE É O ESPORTE?


A definição de esporte é bastante controversa e variada, considerando que conceitos ou definições são limitadores da compreensão da realidade quando são prévia e rigidamente construídos para tratar de realidades socioculturais diversas, dinâmicas e multifacetadas.


Padiglione, em seu livro ―Diversidade e pluralidade no cenário desportivo‖ questiona os limites da definição de esporte como uma atividade lúdica baseada em regras de competição que exige habilidades físicas. Padiglione mostra que o esporte assumiu uma heterogeneidade tal que se torna impossível conceituá-lo em categorias rígidas ou distingui-lo dos jogos populares e outras competições tradicionais: ―um esporte, se bem estruturado por regras, valores e cenários simbólicos, pode sempre se manipulado de forma lúdica e consciente por parte de grupos sociais e realidades locais‖. (p. 6)


Reppold Filho é outro autor que buscou, sem sucesso, uma definição de esporte, em meio a muitas tentativas na bibliografia da área. A definição de esporte deve compreender uma condição de generalidade (quais atividades podem ser consideradas esporte) e uma condição de especificidade (exclusão das atividades não consideradas como esportivas). Entre tantas definições Reppold Filho não encontrou uma que satisfizesse ás condições de generalidade e especificidade.


Toledo, em seu estudo sobre a produção brasileira sobre o esporte e o futebol, destaca a diversidade do fenômeno esportivo e a dificuldade de uma definição macrossociológica do esporte, sem incorrer em simplificações: ―os esportes, se definidos unicamente como práticas corporais ‗modernas‘, portanto competitivas e tidas por muitos como ―instrumentos‖ de um ethos ‗ocidentalizante‘ de sociabilidade, acabam não dando conta dessa gama de práticas e representações que interagem ‗com‘ e ‗a partir‘ dos esportes [as quais], por sua vez, apontam para variados aspectos que não necessariamente convergem para um modelo conceitual hegemônico‖. (p. 7). Com base nisso, Toledo propõe a substituição da nomenclatura ―antropologia do esporte‖ para ―antropologia das práticas esportivas‖.


Stigger, com base nos autores elencados, não explicita uma definição de esporte, mas busca apresentar elementos que permitam uma compreensão do esporte enquanto ―fenômeno cultural historicamente localizado e portador de determinadas características‖.


Para isto, Stigger segue a seguinte lógica em seu livro: breve histórico do esporte, de seu desenvolvimento e difusão que permita a diferenciação do esporte de outras práticas sociais; aspectos das discussões sociológicas sobre o esporte, com uma reflexão sobre a diversidade cultural da prática esportiva e sua interpretação pelos profissionais da área. O autor nos conduz a reconhecer o esporte em sua forma global, com uma lógica e características padronizadas, distintivas de outras práticas sociais simultaneamente à sua heterogeneidade em relação aos contextos socioculturais, o que aponta para o conceito de diversidade cultural. Esses elementos apontados por Stigger permitem compreender o esporte como prática de lazer e conteúdo das aulas de educação física.


CAPÍTULO I
O QUE É O ESPORTE? ELEMENTOS PARA UMA COMPREENSÃO A PARTIR DE UMA ANÁLISE HISTÓRICA


Há divergências sobre as origens do esporte. Thomas apresenta 2 teses concorrentes: 1) continuidade: o que atualmente se denomina esporte tem origem nos primórdios da civilização; 2) invenção: o esporte surgiu na Inglaterra do século XVIII, pela transformação de passatempos populares em esporte ou atividades físico-competitivas, por meio de uma ruptura histórica.


1) História do Esporte: entre continuidade e ruptura
A tese da continuidade afirma que as atividades do denominado esporte moderno eram vinculadas ao desenvolvimento de outras atividades existentes antes da emergência dessa prática social. Guttmann analisa o que é moderno no esporte comparando ao que não é moderno nos esportes das épocas anteriores, pela referência a sete categorias de análise estabelecidas a priori. Para Guttmann, o esporte moderno difere dos esportes de outras épocas por incorporar amplamente as categorias distintivas (Quadro 1). Conforme o quadro abaixo, Guttmann aceita como esportes todas as práticas desde a época primitiva.

A proposta de Richard Mandell (1986), em sua obra Historia cultural del deporte, é compreender o esporte na vida das populações, acompanhando alguns aspectos históricos do esporte desde os “alvores da cultura” (p. I) até o “esporte na sociedade contemporânea” (p. 271).

Este autor concebe o esporte “toda atividade competitiva do corpo humano regida por uma série de regras estabelecidas para o alcance de objetivos […] diferenciados dos aspectos essenciais da vida” (MANDELL, 1986, p. XV), e desenvolve o seu trabalho alicerçando as conclusões nas características estruturais de cada momento histórico, político e econômico das sociedades em que o esporte está inserido. Com base nisso, Mandell afirma que havia vários esportes antes da fundação dos grandes impérios, citando exemplos de práticas esportivas realizadas em distintos momentos históricos e localizações geográficas.

Trilhando esse percurso, considera a Inglaterra do século XIX o berço do esporte moderno, o qual considera fruto das transformações da sociedade inglesa, marcada pelo processo de industrialização, pelo desenvolvimento tecnológico e por novos modos de organização, bem como por algumas características daí resultantes: a racionalização, a padronização e a precisão das medições. Conforme Mandell, essa nova concepção de esporte é difundida por todo o mundo, na medida em que a prosperidade da sociedade inglesa é considerada como modelo para as demais.

Como se constata nesta breve síntese das ideias de Guttmann e Mandell, mesmo com um esforço para fazer uma contextualização histórica de cada uma das atividades, aparentemente, as diferenças identificadas pelos autores tornam-se de menos importância São as semelhanças que, na perspectiva adotada, estabelecem um fio condutor que liga atividades distintas, situando-as sob a mesma denominação. Como um dado comum dos dois trabalhos, ambos os autores utilizam a palavra esporte para diversas manifestações anteriores àquilo que é praticado hoje, com essa denominação. Importa, então, questionar: quais são as semelhanças que colocam sob um mesmo título práticas tão distantes geográfica e historicamente? Como essas semelhanças sustentam as posições desses autores?

A primeira resposta – é a observação de que os autores denominam esporte as diversas práticas similares quanto à estrutura da atividade realizada; cabe, então, uma denominação única àquelas atividades que são similares porque vinculam-se a algum tipo de competição, em que indivíduos ou grupos se confrontam em busca de objetivos conflitantes, lançando mão de algum tipo de regra conhecida por todos e nas quais, ao final, um dos oponentes (ou grupo de oponentes) é o vencedor. Mediante as considerações de que essas práticas mantêm semelhança por esse tipo de afinidade, faz Mandell nomear igualmente práticas que são diferentes, mas que se enquadram na definição de esporte por ele desenvolvida, já referida anteriormente- é esta similaridade que permite a Guttmann usar a mesma designação para atividades tão distantes quanto ao tempo e à localização geográfica, e tão díspares, inclusive quando se leva em conta as categorias por ele mesmo estabelecidas. Alicerça as posições dos autores, também, o fato de essas práticas serem atividades que requerem esforço físico e que se assemelham pelos gestos e habilidades corporais necessários à sua realização.

Não é por acaso que se referem ao esporte como “competições físicas jogadas” (GUTTMANN, 1978, p. 14, grifo meu) ou como “atividade competitiva do corpo humano” (MANDELL, l 986, p. XV grifo meu), e que ambos enfatizam esse aspecto em vários momentos das suas obras. Além dessas aproximações, os dois autores dão enorme importância à relação mantida pelas atividades esportivas com os aspectos culturais das sociedades na qual se inserem. Ambos, por várias vezes, enfatizam que aquilo que consideram esporte são aquelas atividades que não se vinculam meramente a objetivos utilitários. Apesar disso, parece que os aspectos simbólicos e só compreensíveis por dentro de cada um dos universos culturais analisados adquirem menor importância quando colocados ao lado das semelhanças que podem ser visualizadas de fora desses mesmos contextos.

A maneira de estabelecer relações entre práticas culturais conduz a uma continuidade no vocabulário, conforme chama a atenção Chartier (1994) no prefácio da versão francesa de A Busca da Excitação (1992), publicação originalmente inglesa de Norbert Elias e Eric Dunning: A continuidade do vocabulário ou a semelhança dos gestos, efetivamente não devem confundir: entre os esportes modernos e os jogos tradicionais, as diferenças são mais fortes que as continuidades. A uma concepção universalista que reconhece a existência de “esportes” em todas as culturas, antigas ou contemporâneas, europeias ou exóticas, se opõe a constatação de uma descontinuidade que define o esporte a partir das características que o distinguem de outras formas de lazer e de afrontamento, sejam anteriores, sejam concorrentes [CHARTIER, 1994, p. 13].

Mais do que chamar a atenção para o problema da continuidade do vocabulário, Chartier indica outros aspectos que parecem oferecer elementos para que essa lógica se sustente, ou seja, a identificação de semelhança entre os gestos e a afinidade de estrutura que ele encontra entre o esporte e aquilo que chamou de outras formas de lazer e de afrontamento, cujo objetivo é a competição entre equipes rivais. Quando critica a ideia de que há uma continuidade entre essas práticas, o autor abaliza a interpretação sociológica de que há uma ruptura entre o esporte hoje praticado em todo o mundo e as atividades anteriores ao seu surgimento. Nas considerações de Chartier também há vários aspectos, que segundo ele, sustentam a tal distinção. Dentre outras:

 constituição de regras universais que passam a regular a atividade esportiva,

 a existência de todo um corpo de legisladores encarregados da criação e efetivação de regulamentos que permitem as trocas esportivas para além do âmbito local.

E o autor refere-se, ainda, ao fato de que o esporte moderno (não vinculado aos rituais festivos ou religiosos) possui uma autonomia em relação a outras dinâmicas sociais, o que lhe atribui espaço e tempo próprio de realização. Embora essa divergência de posições se apresente num contexto de concorrência interpretativa de solução complexa, um bom argumento a favor da tese da ruptura é o de Elias (1992a, PP. 191-192), que, levando em conta aspectos próximos aos referidos por Chartier, compara os termos esporte e indústria. o termo “esporte” é utilizado no presente de maneira bastante vaga, de forma a abranger confrontos de jogos de numerosos gêneros.

Como o termo indústria, é utilizado tanto num sentido lato como num sentido restrito. No sentido lato refere-se, também como o termo “indústria”, tanto a atividades específicas de sociedades tribais pré-Estado e de sociedades-Estado pré-industriais, como às atividades correspondentes dos Estados-nações industriais [idem, ibidem, grifo meu]. O autor adverte que o sentido restrito e bem mais preciso relativo à denominação de indústria não se verifica no caso do esporte. Segundo ele, o termo esporte continua sendo empregado, indiferentemente, tanto num sentido lato (como referência a jogos e exercícios físicos de todas as sociedades), quanto num sentido restrito (para designar práticas particulares de jogos originárias na Inglaterra e difundidas para todo o mundo com essa designação).

Mesmo que Elias considere que ainda não seja fácil encontrar formas e orientações tão singulares como as que se observa no caso da indústria, o autor corrobora a tese de que elas também são possíveis de serem encontradas no esporte.

Em ambos os casos e em determinado momento histórico, afirma Elias, ocorreu um número tão grande e tão significativo de transformações que foi suficiente para que possam ser identificados os processos de industrialização e de surgimento do esporte, ambos vistos como formas específicas e determináveis sociologicamente de, respectivamente, um novo tipo de estrutura e organização ao trabalho e uma nova espécie de prática de competição e de jogos.


2) História do esporte: uma tradição inventada

O que hoje denominamos de esporte será aqui tratado como uma ruptura com outras formas de passatempos desenvolvidos até o seu surgimento. O esporte moderno (ou apenas esporte) insere-se no que Hobsbawm (1984a) denomina uma “tradição inventada”, cujo pensamento é hoje quase consensual para aqueles que estudam o esporte numa perspectiva histórica e sociocultural. Apresentando a história do esporte por essa perspectiva, desenvolve-se este tópico utilizando as contribuições de autores que centraram a atenção no processo de ruptura citado anteriormente.

Ë com a ajuda de Elias e Dunning (1992), Hobsbawm (I984b) e Bourdieu (I983b) que se constitui o eixo central deste tópico, buscando-se esclarecer como se caracterizou e que fatores intervieram no processo de emergência do esporte moderno e na forma com que chegou até o momento atual. Dando ênfase a diferentes aspectos, cada um deles contribui de forma significativa para este esclarecimento, o que me faz com que se trate-os ora separadamente, ora articulando as suas ideias.

2.1. Precedentes da emergência do esporte moderno:

a civilização/esportivização dos passatempos populares Uma das obras mais densas e que fornece a maior quantidade de dados empíricos sobre a temática do esporte é A busca da excitação (1992), uma coletânea de artigos escritos por Norbert Elias e Eric Dunning, ora juntos, ora separadamente. No que diz respeito especificamente à história do esporte, alguns artigos dessa coletânea contribuem de forma especial para a sua compreensão:

“A gênese do desporto: um problema sociológico” (ELIAS, 1992a); “Ensaio sobre o desporto e a violência” (ELIAS, 1992b); “O futebol popular na Grã-Bretanha medieval e nos inícios dos tempos modernos” (ELIAS & Dunning, 1992c); e “A dinâmica do desporto moderno: notas sobre a luta pelos resultados e o significado social do desporto” (DUNNING, 1992).

Em todos estes trabalhos, os autores afirmam que muitos tipos de esportes, praticados atualmente e de maneira bastante similar por todo o mundo, tiveram sua origem na Inglaterra, e defendem que já no século XVIII começou um “processo de esportivização” (ELIAS, 1992b, p. 224) dos passatempos populares. Daí em diante, principalmente a partir da segunda metade do século XIX e na primeira metade do século XX, o termo esporte e outros a ele associados passaram a ser padronizados para expressar formas específicas de recreação, nas quais o esforço físico desempenha o principal papel.

Essa transformação, conforme os autores, relaciona-se ao desenvolvimento de uma forma distinta de comportamento que ocorria naquele período, naquela sociedade. Eles referem-se à necessidade de uma crescente regularidade de conduta e de sensibilidade da sociedade em geral, expressas também nos passatempos populares, tornando-os menos violentos e regulados por regras que controlam a violência e que possuem “o caráter de um impulso civilizador” (ELIAS, 1992b, p. 224).


Essa conclusão leva os autores a perguntarem:

o que se pode concluir do fato de um tipo de passatempo inglês (esporte) ter determinado padrão de um movimento de lazer mundial?

Se passatempos como esse (como parece evidente”) demonstraram ser necessidade de lazer identificável durante esse período em vários países, por que razão emergiram na Inglaterra?

Que condições da estrutura social inglesa justificam o seu desenvolvimento?

O que distingue os esportes de outros passatempos?

Eles vão buscar as respostas a essas questões estudando “a relação entre o desenvolvimento da estrutura de poder inglesa e o desenvolvimento dos passatempos com características de esportes” (Elias & Dunning, 1992, p. 49).

Os autores concluem, então, que o esporte moderno é o resultado do processo de civilização, cujo aspecto central é o aumento das sensibilidades em relação à violência. Esse processo de transição de passatempos a esportes, posteriormente exportado quase globalmente, ocorreu paralelamente à parlamentarização do Estado inglês, no qual a aversão à violência explícita e concreta se refletiu nos hábitos sociais dos indivíduos, sendo substituída pela violência simbólica.

Como exemplos das diferenças entre os jogos praticados na Idade Média e o esporte moderno, são particularmente esclarecedoras as descrições e interpretações minuciosas apresentadas sobre um jogo de bola medieval chamado futebol e a respeito da caça à raposa.

No capítulo intitulado “O futebol popular na Grã-Bretanha medieval e nos inícios dos tempos modernos”, Elias e Dunning (J992c) oferecem uma análise bastante consistente e capaz de permitir a identificação de vários aspectos que, de forma significativa, mostram diferenças entre aquele futebol e o que é praticado no mundo de hoje, com a denominação de esporte. Vale destaca o que também é feito pelos autores) que as referências encontradas não autorizam uma identificação segura com o futebol atual.

No entanto, a descrição e interpretação apresentadas garantem a afirmação de que era um jogo muito diferente e bastante mais violento que os esportes atuais Não é por acaso que as maiores evidências sobre esse jogo foram encontradas em fontes inglesas medievais (documentos oficiais), que tratavam de infrutíferas tentativas de proibição do Estado à prática de um jogo de bola chamado futebol. As repetidas proibições demonstram ainda que, mesmo que esses jogos fossem selvagens e turbulentos em relação aos atuais padrões, as pessoas gostavam deles.

O que faz com que Elias e Dunning concluam que a sua realização sistemática não pode ser considerada um comportamento de desvio:

mesmo que pudessem levar os praticantes à prisão, isso não impedia que esses jogos fossem o passatempo favorito das pessoas, uma forma de se divertirem com uma bola de futebol, quer se verificassem ou não ossos partidos e narizes ensanguentados, embora para as autoridades isso fosse considerado um comportamento antissocial [1992c, p. 260], Apesar de não haver registros minuciosos desses jogos, os autores apresentam uma descrição do burling, jogo praticado na Cornualha.


Características principais dos dois tipos, burling to goales e o burling to counrie , o primeiro era o mais regulamentado: praticado entre duas equipes (15, 20 ou 30 jogadores), era jogado num campo demarcado com duas metas (arbustos), para onde os jogadores tentavam levar uma bola (meta dos adversários).

O segundo também era realizado entre duas equipes (paróquias e até a população de cidades inteiras) lideradas por dois cavalheiros (desafiadores) que tinham como objetivo levar a bola para dentro da meta (residência dos desafiadores ou mesmo os muros da cidade), usando um sem número de estratégias, inclusive com a participação de homens a cavalo. Esses confrontos aconteciam de forma semi-institucionalizada e em certos dias do ano, constituindo-se um traço do modo de vida das sociedades medievais.

Nesse sentido, e sendo uma parte do ritual tradicional que pertencia ao cerimonial da Terça-feira Gorda, os dias de jogo eram esperados com ansiedade para, por meio da prática do futebol e à revelia dos poderes constituídos, serem resolvidas querelas entre grupos rivais. Assim, para Elias e Dunning, o futebol medieval era um escape para as constantes tensões entre facções locais, estando também inserido nos rituais oficiais e solenes, sem ser motivo de estranheza por parte da população. Nesses jogos não existiam regras muito precisas nem existiam autoridades externas para arbitrá-los. No entanto, isso não significa que não existiam regras.

Os autores consideram que o que existia era “um tipo muito primário de democracia — uma espécie de democracia aldeã” (ELIAS & Dunning, 1992c, p. 276), a qual tinha o papel de autorregular o jogo com uma diminuta participação de agentes externos. É importante destacar que aquela sociedade se caracterizava por uma tradição oral, em que as práticas populares eram transmitidas de geração em geração, a viva voz. Como as pessoas vinculadas aos jogos eram, na sua maioria, iletradas, não havia o costume de fixar, na forma escrita, as regras do futebol e de outros jogos populares, o que as tornava bastante imprecisas.

Uma evidência dessa imprecisão e da pouca diferenciação entre as diversas práticas esportivas populares é o fato de, em muitos documentos oficiais, não haver referência a jogar futebol, e sim a jogar com uma bola às futebol (uma bexiga cheia de ar, por vezes revestida de couro). Já a caça à raposa, um dos esportes considerados pioneiros na perspectiva de Elias e Dunning, era regida por códigos bastante elaborados, a que estavam submetidos tanto os caçadores como os cães. Diferente de outros países, na Inglaterra a caça à raposa tornou-se um passatempo altamente especializado, com organização e convenções próprias, que surpreendiam os estrangeiros. Esse novo passatempo diferenciava-se de outras maneiras de caçar raposas e mesmo da caça de outros animais.

O ponto central, destacado pelos autores, é que, naquele período, os gentlemen ingleses caçavam a raposa “por esporte” (ELIAS, I992b, p. 237), o que quer dizer com a introdução de uma específica forma regulamentada de caça (que se distinguia daí demais.) Esse exemplo empírico da caça à raposa, conforme brevemente descrito, leva Elias a dizer que “o esporte é, de fato, uma das maiores invenções sociais que os seres humanos realizaram sem o planejar” (idem, p. 243). Ele mostra como, pela delegação da tarefa de matar e pela submissão dos caçadores a um código elaborado e autoimposto de restrições, essa nova característica dos passatempos tipo jogos-esportes se transformou numa forma de valor que permitia usufruir o prazer da luta sem qualquer arrependimento.

Além de garantir o prazer do combate sem o risco de sofrer consequências da violência, a introdução de regras elaboradas (e muitas vezes reelaboradas) tornava a prática menos desigual e, portanto, mais excitante. A análise permite também identificar, diferentemente de outros exemplos de caça anteriormente praticadas, um deslocamento da ênfase colocada nas atividades que dão prazer.

Enquanto no passado e noutros países a ênfase estava colocada na morte e na subsequente ingestão do animal caçado, na versão inglesa o que mais interessava era a perseguição. No esforço de mostrar as características distintivas dos novos passatempos, Elias e Dunning afirmam que, na Idade Média, o termo esporte tinha um sentido muito menos específico. Só a partir do século XVIII é que se tornou um termo especializado, transformando-se numa forma de expressar um tipo específico de passatempo realizado por aristocratas e cavalheiros proprietários de terras.

Era com as características da caça à raposa que acontecia o bom esporte, ou seja, aquele vinculado a um ethos específico (característico de todos os esportes), o ethos das classes abastadas e sofisticadas da Inglaterra naquele período. Foram essas classes que transformaram em valor a tensão e a excitação dos confrontos simulados e regulamentados, para se constituírem como parte principal do seu prazer. A partir desses exemplos, podem ser identificadas algumas características que os autores atribuem à estrutura de todos os esportes modernos. São, portanto, atividades organizadas e que demandam:

 esforço físico,

 em que se confrontam, pelo menos, duas partes,

 são desenvolvidas de acordo com um conjunto de regras rigorosas, explícitas e diferenciadas, que se vinculam tanto a ideais de justiça e igualdade de oportunidades quanto ao controle da violência,

 são realizadas dentro de um padrão específico de dinâmica de grupo que, facilitando, e restringindo a tensão, visa a encontrar um nível de tensão agradável.

2.2. As public schools inglesas e a transformação de jogos populares em esportes

A transformação dos jogos populares em esporte, ocorrida nas public schools inglesas, é analisada por Bourdieu (I983b) em “Como é possível ser esportivo?”, em que o autor privilegia a análise da participação da instituição escolar do século XIX na invenção do esporte moderno.

Considerando que o esporte se trata de um campo no qual interagem determinados agentes dentro de um sistema, Bourdieu faz uma genealogia histórica da aparição do que ele identifica como uma realidade específica e diferente de qualquer outra, que não pode ser reduzida a um simples jogo ritual ou ao divertimento festivo.

Nesse sentido, assim como defendem Elias e Dunning, para Bourdieu é errôneo considerar os jogos das sociedades pré-capitalistas como práticas pré-esportivas. Bourdieu defende, então, ser importante a elaboração de uma história social do esporte, na qual se tentaria responder a partir de que conjunto de condições sociais se pode verdadeiramente falar de esporte “em oposição ao simples jogo” (BOURDIEU, 1983b, p. 138).

Em busca dessa resposta, apresenta os seus argumentos, sustentando-os em aspectos recolhidos das histórias do futebol e do rugby, modalidades esportivas que teriam sido inventadas nas public schools inglesas.

Na obra The people´s game: the history of football revisited (1994), Walvin oferece uma interessante descrição do que eram essas escolas, e apresenta importantes aspectos do desenvolvimento de diversas modalidades, dentre as quais o futebol.

Assim, no capítulo “As public schools e o futebol”, o autor descreve essas escolas como “instituições bizarras” (WALVIN, 1994, p. 32) ligadas às elites inglesas, para onde os jovens de famílias abastadas eram enviados para aprender a viver de acordo com valores sociais considerados importantes pelos seus pais. Em vez de ser dada atenção a um tipo de educação formal e intelectualizada, numa situação de bastante liberdade e sob o controle principal dos estudantes mais velhos, procurava-se o desenvolvimento de virtudes como: coragem, capacidade de resistir ao sofrimento, altruísmo, capacidade de trabalho em equipe, e lealdade.

Nesse contexto, as atividades recreativas tinham muita importância, pois era por meio delas (especialmente dos jogos realizados) que se pensava alcançar os objetivos. Não surpreendentemente, as escolas eram conhecidas pelas frequentes ocorrências de desordens, o que acontecia também nos jogos, que eram realizados de forma anárquica. A escola Rugby (daí o nome do esporte) tornou-se uma exceção a partir do momento em que o Dr. Thomas Arnold assumiu a direção.

Contrastando com o que acontecia até então, foi introduzido um sistema educacional rígido e escolarizado, que tinha como um dos seus fins o controle da violência. Então os jogos, especialmente o futebol, passaram a ser tolerados e tiveram sua prática reduzida e disciplinada, com o objetivo de ser instrumentos de controle sobre os estudantes. Porém, não se perdeu a intenção de formar o caráter dos jovens e desenvolver as virtudes já referidas; mas passaram também a ter reduzida a violência. Da busca pela disciplina resultaram as primeiras regras escritas (em 1840), o que permitiu encontros entre diferentes escolas.

Nesse processo, visto por Damo (l 998) como a primeira institucionalização da atividade esportiva, o esporte teria sido inicialmente praticado nas escolas com o objetivo de aproveitar o seu caráter canalizador das energias dos estudantes internos. Lopes (1995) interpreta a utilização do esporte nessas escolas como sendo inicialmente um instrumento de controle dos adolescentes, o que proporcionava, por um lado, o interesse dos estudantes no “combate mimético” (p. 155) e, por outro, a satisfação da exigência de disciplina por parte das autoridades escolares.

Mas, num segundo momento, o esporte praticado nas escolas vinculou-se a outros objetivos: era esse o local onde os alunos internos das elites burguesas aprendiam a viver – por meio de outras experiências, mas também pela vivência que o esporte proporcionava – segundo dimensões fundamentais do ethos dessas mesmas elites. E isso que posteriormente constituiria uma “filosofia política do esporte” (BORDIEU, 1983b, p. 140), que pressupõe:

 a ideia de atividade desinteressada – teoria do amadorismo,

 a concepção de uma prática capaz de desenvolver atitudes viris dos futuros líderes.


Essas seriam as dimensões básicas de uma nova aprendizagem, que estão inseridas na expressão díV play, maneira de jogar daqueles que não se deixam dominar pelo jogo e conseguem manter o autocontrole, marca de “uma moral aristocrática elaborada por aristocratas” (BOURDIEU, 1983b, p. 140). Foi, portanto, na instituição escolar que os antigos jogos populares foram separados das ocasiões sociais ordinárias a que estavam associados e desprovidos das funções sociais específicas ligadas a estas ocasiões. A isso Bourdieu denomina de processo de “autonomização do campo das práticas esportivas” (1983b, p. 140).

Nas escolas, acontece a transformação desses jogos, que, convertidos em exercícios corporais com fins em si mesmos, são submetidos a regras específicas e inseridos num calendário próprio. Além disso, Bourdieu vincula esse processo de autonomização do campo esportivo ao de racionalização dessas práticas, o que significa a possibilidade de torná-las mais previsíveis e evitar as diferenças e particularidades. Isso se expressaria na constituição de regulamentos específicos e de dirigentes especializados, dois fatores que caminhariam juntos e que seriam fundamentais na posterior difusão do esporte moderno.

Foi por intermédio de um corpo de dirigentes e de organismos específicos, assim como da adoção de regras universais que permitiam as trocas esportivas (inicialmente entre as escolas e posteriormente entre regiões etc.), que esse processo avançou. Sintetizando o que foi apresentado neste tópico e já encaminhando para o próximo, pode-se dizer que nas escolas frequentadas pela elite inglesa ocorreu, mais efetivamente, o processo de transformação de passatempos populares em esporte, iniciado em períodos anteriores.

2.3. Das public schools para o associativismo esportivo

A transformação dos passatempos populares em esporte, ocorrida nas escolas da elite inglesa, conforme apresentado anteriormente, foi o que Damo (1998) sugere ter sido a primeira das duas institucionalizações por que teria passado o esporte moderno, no seu processo de surgimento e desenvolvimento.

Para o autor, a segunda institucionalização teria acontecido logo a seguir, protagonizada pelos ex-alunos (os old boys) egressos dessas mesmas escolas, com a fundação de clubes e ligas esportivas. Como foi apresentado por Hobsbawm (1984b), essa segunda institucionalização do esporte ocorreu a partir de 1870, constituindo-se numa das tradições inventadas de um período de muita rapidez e amplitude de transformações, que exigia novas formas de coesão social e de estruturação das relações sociais.

Tanto por parte do Estado quanto de grupos sociais específicos, nesse período muitas tradições foram criadas para dar respostas às profundas transformações relacionadas com a Revolução Industrial que ocorria na Inglaterra e que era acompanhada por outros países europeus.

Nessa época, a Europa, de uma forma geral, e a Inglaterra – pelo seu protagonismo -, especialmente, passavam por um processo de democratização funcional, ou seja, uma transformação para o aumento do equilíbrio de poder entre grupos e facções sociais, ante a consolidação do Estado e o aumento das cadeias de interdependência entre esses grupos. Com a divisão e especialização no âmbito do trabalho, o poder de cada grupo aumentava, uma vez que dependiam uns dos outros e, por esse motivo, podiam controlar-se mutuamente (DUNNING, 1992).

Concretamente, isso significava a emergência dos estratos até então muito inferiores da sociedade (ascensão econômica e social da classe média e surgimento da classe proletária), fatos que geravam inúmeros conflitos e preocupações relativas à identidade e ao prestígio social. Ao mesmo tempo em que aumentava o número dos que reivindicavam o status das classes superiores, tornava-se mais difícil identificar os critérios de distinção social (HOBSBAWM, 1984b) entre essas classes.

Foi assim que se deu a busca do status social por parte da classe média emergente, a qual, pretendendo aproximar-se das classes altas e também distinguir-se das massas, se sustentou por meio de diversas estratégias, dentre as quais se destacam a educação escolar e os esportes amadores. Isso, porque a educação fornecia uma forma de estabelecer padrões comuns de comportamento e valores, assim como a construção de redes interligadas do que era o produto de instituições comparáveis: os seus alunos.

Isso foi fundamental no processo de institucionalização do esporte, na medida em que os ex-alunos do âmbito escolar e universitário tiveram um papel importante quando da formação dos primeiros clubes e ligas esportivas na Inglaterra.

Constituindo-se um mecanismo de encontro de pessoas socialmente equivalentes, por um lado essas associações ofereciam condições de formar uma elite dominante baseada nos valores de um novo e específico padrão burguês de lazer e de estilo de vida, por outro elas representavam uma forma mais espontânea de delimitar linhas de classe que isolassem as massas.

Essa interpretação, baseada em Hobsbawm (I984b), é encontrada também em Bourdieu (I983b), que afirma que o esporte, na sua origem, além de representar uma afirmação ideológica dos valores das classes altas inglesas, oferecia “lucros de distinção” (p. 143) para essas mesmas classes. Um dos refúgios distintivos das classes superiores inglesas, no contexto do esporte, foi a defesa do amadorismo (visto como critério de esporte dessa camada social) contra o profissionalismo (considerado o esporte das classes baixas, que necessitavam compensar o que deixavam de ganhar quando a ele se dedicavam).

A crise entre amadorismo e profissionalismo, ocorrida em vários esportes, é uma das chaves para a compreensão do processo de democratização dessa prática, inicialmente reservada a amadores, mas posteriormente democratizada e transformada em espetáculo de massa.

2.4. Democratização e espetacularização de uma prática de elite, reservada a amadores

Se a democratização funcional levou a classe média inglesa a investir na prática do esporte e do associativismo esportivo, vendo-os como possibilidades de identificação enquanto classe social, para as classes populares o acesso a essa mesma prática representou a “‘apropriação’ do processo de civilização por parte dos grupos sociais situados de forma subordinada no espaço social” (LOPES, 1995, p. 154).

Dessa forma, tendo também as classes populares acesso a uma prática até então circunscrita às elites e existindo uma prática generalizada do esporte, o quadro esportivo modificou-se significativamente,


Na perspectiva que Dunning (1992) desenvolve a partir da teoria da democratização funcional, a estrutura moderna de interdependências sociais conduziu à “procura de um esporte inter- regional e representativo” (p. 320), ocorrido nas sociedades industriais, o qual é responsável pelo aumento da seriedade no esporte e as com sequentes democratização, espetacularização e profissionalização.

Pode ser encontrado aí um aspecto importante da gênese do profissionalismo no esporte, visto que, interessadas nos resultados esportivos, algumas instituições passaram a compensar os seus atletas pelo que deixavam de ganhar no tempo dedicado à preparação para as competições esportivas, agora de caráter representativo. No entanto, a emergência do profissionalismo não aconteceu linearmente apenas como resultado (sem conflitos) de uma evolução natural.

E isso que mostram Dunning e Sheard (1989) no artigo intitulado “A separação dos dois rugbys”, no qual apresentam o conflito entre amadorismo e profissionalismo e as suas relações com o desenvolvimento de dois esportes importantes da época (o rugby e o futebol), uma análise também útil para a compreensão do processo de democratização dos esportes. Ao identificar que o futebol é uma prática quase universal, enquanto o rugby é praticado em poucos países, os autores sugerem que, pelo fato de aceitar a profissionalização da modalidade, os organizadores do futebol contribuíram para a sua democratização.

Isso na medida em que ofereceram a possibilidade e motivação para grupos inferiores na escala social praticarem esse esporte, vendo-o como possibilidade de ascensão social. Assim, no caso do futebol, o resultado da oposição entre amadorismo e profissionalismo solucionou-se a favor da profissionalização e da democratização do esporte.

Articulados com esses, outros fatores favoreceram a difusão dos esportes em geral. Por exemplo, relacionadas com a já referida democratização funcionai estão as conquistas dos trabalhadores referentes à jornada de trabalho, uma das explicações que Walvin (1994) apresenta para justificar a ascensão do futebol entre as classes trabalhadoras inglesas. Para o autor, o desenvolvimento dos esportes em geral e do futebol particularmente está bastante ligado à conquista do que alguns autores denominam de semana inglesa, ou seja, a semana de trabalho de cinco dias e meio, com liberação da jornada dos sábados à tarde.

E evidente que esse último ponto não desqualifica outras interpretações, que identificam os interesses político-ideológicos e mesmo de controle da classe trabalhadora, por parte dos patrões, como fatores que contribuíram para a difusão e o desenvolvimento do esporte vinculado às fábricas. Na mesma direção encaminha-se o pensamento de Bourdieu (I983b), que se refere ao fato de ter o esporte ter passado a ser objeto de lutas de todas as instituições que tinham o interesse em conquistar politicamente as massas.

O autor destaca a busca dos patrões paternalistas em “assegurar um envolvimento contínuo e total da população operária” (p. 146), oferecendo-lhes, além de hospitais e escolas, o acesso a estabelecimentos e práticas esportivas. Da mesma forma, Bourdieu (1983b) chama a atenção para a transformação do esporte num dos “objetos de luta política” (p. 147), ocorrida com o apoio do Estado e vinculada à aparente neutralidade das instituições esportivas e de seus dirigentes.

Nesse caso, ligada ao sentimento de identidade coletiva, a concorrência (rivalidade) entre diferentes grupos sociais (países, cidades, regiões organizações etc.) é um fator importante no “desenvolvimento de uma necessidade social […] socialmente constituída” (idem., ibidem.) das práticas esportivas. Soma-se a esses aspectos, vinculado à aceitação do esporte por parte de amplas parcelas das populações, o evidente surgimento de um mercado esportivo.

Este passa a desenvolver um sem número de produtos e serviços destinados a um público consumidor, que vão desde a venda do próprio espetáculo esportivo — com os seus desdobramentos e expressões na televisão, nos jornais, nas revistas etc. – até a produção de materiais para a prática do esporte em preços acessíveis a todos os estratos sociais.

Resultado do que foi apresentado anteriormente, é a atual e evidente difusão do esporte por todo o mundo, tanto na sua expressão como um produto a ser consumido via meios de comunicação de massa (o espetáculo esportivo), quanto na forma de uma prática acessível a inúmeras pessoas. Isso permite afirmar que ele é um fenômeno sociocultural com enorme visibilidade no mundo contemporâneo, sendo identificável nos mais variados cenários, tanto a partir de um rápido olhar para o cotidiano, quanto visualizando-se num contexto social mais ampliado.

2.5. Esporte no contexto da globalização cultural: localismo globalizado e globalismo localizado

A partir do que vem sendo apresentado, não é difícil inserir o esporte no contexto da globalização cultural. Essa temática tem sido alvo de muita discussão na sociologia contemporânea, e é para Giddens, um processo de “intensificação das relações sociais de escala mundial, relações que ligam comunidades distantes de tal maneira que as ocorrências locais são moldadas por acontecimentos que se dão a muitos quilômetros de distância, e vice-versa” (1996, p. 45).

Sobre esse tema, Santos (1995a, 1995b, 1997) oferece uma síntese bastante interessante e instrutiva, que permite tanto compreender aspectos desse processo, quanto relacioná-lo com o desenvolvimento do esporte moderno. Para o autor, o processo de globalização está relacionado com a espantosa intensificação dos fluxos transnacionais de mercadorias, capital, mão de obra, pessoas, ideias e informação que parece ter dado origem às convergências, isomorfismos e hibridizações nas diferentes culturas nacionais, em aspectos tão diversos como a a rqu i te t ura, a moda, os hábitos alimentares ou os consumos culturais de grande escala [Santos, 1995b, pp. 15-16].

Processo este que – apesar de ser hierárquico e desigual no que concerne à capacidade de diferentes estados e grupos sociais imporem os seus valores culturais, ao contrário de ser linear e evidente – é irregular e contraditório. Estando no campo cultural situado na intersecção entre o universal e o particular, é um processo dialético em que surgem simultaneamente novas formas de globalização, assim como diferentes expressões de localização.

Dessa forma, a globalização deveria ser sempre considerada no plural e, na verdade, como um conjunto de arenas e de lutas entre fronteiras culturais, nas quais participam quatro modos de produção de globalização: dois de cima para baixo (globalização hegemônica), e dois de baixo para cima (globalização contra-hegemônica)


A globalização hegemônica – especialmente importante no processo de difusão do esporte moderno – é um conjunto de processos hierárquicos em que determinadas culturas ou sistemas culturais se estabelecem frente aos outros e se colocam como detentores do estatuto de universalidade, o que acontece por dois modos de produção de hegemonia: o localismo globalizado e o globalismo localizado.

Segundo Santos (1995a, 1995b, 1997), o localismo globalizado, é um processo em que determinadas práticas e modos de vida oriundos de contextos culturais locais específicos impõem-se e difundem-se por todo o planeta. De acordo com a análise histórica desenvolvida anteriormente, pode-se dizer que o surgimento do esporte na Inglaterra e a sua posterior difusão para o resto do mundo é bom exemplo de localismo globalizado.

Mas o esporte poderia ser também visto como um globalismo localizado, o segundo modo de globalização hegemônica, de acordo com Santos: um processo pelo qual determinadas manifestações culturais, uma vez globalizadas, se localizariam em outros contextos, transformando as práticas culturais dos locais em que ocorrem.

No caso do esporte isso também ocorreria, visto que a sua lógica, uma vez globalizada, passou a interferir e a transformar determinadas manifestações culturais locais, outrora não esportivas, em práticas esportivizadas. Se, como advoga Santos (I995b, p. 30), “o sistema mundial, e especialmente o que nele se designa por globalização, é uma rede de globalismos localizados e localismos globalizados”, pode-se concluir que o processo de difusão do esporte para todo o mundo é resultado de uma articulação entre essas duas formas de globalização hegemônica.

Nessa perspectiva, são elas as responsáveis pelo processo de desenvolvimento capaz de difundir uma prática com características padronizadas e de constituir, nesse universo, uma realidade sociocultural específica. Mas que características são essas? Que elementos são esses que, juntos, caracterizam e identificam o esporte como uma realidade específica e diferente de qualquer outra? Que características são essas que determinam a sua lógica específica e que fazem parte desse padrão de movimento de dimensão mundial?


CAPÍTULO II


ESPORTE E DIVERSIDADE: ELEMENTOS PARA UMA COMPREENSÃO A PARTIR DE UMA DISCUSSÃO SOCIOLÓGICA

1) Esporte: entre a ênfase na homogeneidade e a diversidade cultural Buscando oferecer elementos para que o leitor se aproxime de aspectos da discussão contemporânea sobre o tema, apresenta-se a análise de diferentes interpretações sociológicas sobre o esporte, referentes à compreensão desse fenômeno sociocultural.

A primeira das abordagens situa o esporte numa visão institucional, que o tem como um elemento da cultura que responde e reproduz as determinações da estrutura social mais ampla, e que se reproduz ainda noutras formas de manifestação dessa mesma prática.

Na segunda abordagem, apresenta-se uma postura diferenciada, que, ao identificar o conflito como um aspecto importante da realidade social e ao investigar o esporte como um processo de longa duração, abre possibilidades para uma interpretação a partir das suas diversidades. Contrapondo-se à primeira abordagem e numa perspectiva bastante próxima da segunda, uma terceira visão tem como argumento básico a existência da diversidade cultural no contexto do esporte, e propõe que este também seja visto como um elemento da cultura que, de forma distintiva, faz parte dos estilos de vida de indivíduos e de grupos particulares.

2) Uma Visão Institucional e Homogênea do Fenômeno Esportivo Numa obra bastante densa e escrita em 1968, Michel Bouet propõe-se a encontrar a Signification âu sport, vendo-o como um conflito social total que tem tudo o que compõe uma instituição, na perspectiva do que o termo assume na sociologia: elementos materiais e produtos culturais (piscinas, pistas, competições, eventos),- grupos específicos (equipes, clubes, federações); agentes de autoridade e hierarquias/ papéis (atletas, dirigentes, árbitros); símbolos coletivos (bandeiras, cores),- comportamentos determinados (ritos, gestos, regras),- e um conjunto de representações e ideias (a ideia de performance, a imagem do campeão, o espírito desportivo).

Nessa perspectiva, o autor considera que o esporte deve ser visto como um fenômeno humano que constitui um conjunto sociocultural a ser analisado de forma completa e relacionado com um sistema de normas, valores e representações que encontra a sua orientação em aspectos mais amplos da sociedade. Bouet propõe-se ainda a explicar as funções do esporte, concluindo dessa análise que ele não é um fenômeno homogêneo, mas que se expressa numa grande pluralidade, relacionada com fatores diferenciais (sexo, idade, profissão, meio socioeconômico e realidade de cada país).

A partir disso, apresenta diversas funções e papéis que o esporte desempenharia (função de espetáculo, função comercial, função de lazer, papel educativo, papel de adaptação e preparação para o trabalho etc.), os quais identifica como aspectos extrínsecos a essa atividade. Preocupado em compreender os aspectos extrínsecos e as contradições a eles relacionadas, critica o esporte de forma veemente, pois conclui que a competição domina quase toda a sua significação no momento atual.

Contrariando a ideia de pluralidade por ele mesmo referida, enfatiza a ideia de homogeneidade, uma vez que relaciona fortemente o significado do esporte ao que considera ser a conjuntura hipercompetitiva e burocrática da sociedade moderna, vinculada, especialmente, à ideia de produtividade, concorrência e técnica. Como contraponto aos aspectos negativos apontados, Bouet conclui tomando uma posição de como deveria ser o esporte, ou seja, defendendo o “esporte cultura” (idem, p. 640), que se expressaria principalmente no lazer e que traria prioritariamente consigo novas significações intrínsecas, ao invés da dominação das significações extrínsecas, as quais são por ele tão criticadas.


Apresentando uma visão crítica do esporte moderno, sustentada em análises que têm como base uma linha de pensamento freudo-marxista, Jean-Marie Brohm (1976 e 1978) o considera “um fenômeno social cada vez mais avassalante” (1978, p. 17) que condensa as características típicas das categorias e estruturas da sociedade capitalista industrial: o princípio do rendimento, a competição, a alienação, a ideologia política, a objetivação/racionalização da produtividade, a hierarquia social e o princípio burocrático.

Nesse sentido, o esporte seria a perversão do jogo, porque introduz sistematicamente o rendimento corporal impondo a competição entre pessoas e grupos; serviria, também, como reprodutor das relações sociais capitalistas, pois, da mesma forma que a competência econômica é racionalizada, a competência esportiva se sustentaria numa forma lúdica alienada.

Apoiando-se em Freud, Brohm ainda de fende que, nesse contexto, o indivíduo passa a sofrer de uma “necessidade neurótica de comparação” (l 978, p. 20), a qual é transposta para as demais esferas da vida humana, incluindo a do lazer. Concluindo um dos seus textos, Brohm apresenta um chamamento aos militantes marxistas, para convencê-los da impossibilidade de reformar o esporte. Propõe também uma discussão profunda acerca de uma cultura do corpo que não seja repressiva, que não seja baseada no princípio do rendimento e da realidade alienada, mas sim num princípio de prazer lúdico.

Analisando o esporte do Do ritual ao record e dando especial atenção ao esporte moderno, Allen Guttmann (1978) visa a desenvolver uma interpretação do fenômeno por meio da comparação das suas manifestações, observadas durante um percurso por vários períodos históricos.

Estabelecendo relações entre os conceitos de brincadeira, jogo, competição e esporte, o autor demonstra diferenças entre o esporte moderno e os seus antecedentes, por ele denominados esportes primitivos, esporte antigo e esporte medieval. Definindo os esportes como “competições físicas jogadas” (GUTTMANN, 1978, p. 14) e propondo-se a compreender o que é o esporte moderno por meio da identificação do que não é moderno nos esportes de épocas anteriores, Guttmann sustenta-se em sete características por ele estabelecidas, pelas quais compara os esportes praticados em diferentes contextos históricos (esporte primitivo, esporte grego, esporte romano, esporte medieval). Com base nessa análise, considera que o esporte moderno se diferencia dos demais pelas seguintes características:

• secularismo – o esporte moderno é uma prática secular.

• igualdade – no esporte moderno, todos os indivíduos (independentemente de classe social, idade, sexo etc.) têm o direito de competir e em igualdade de condições;

• especialização – o esporte moderno é marcado por uma lógica em que a especialização de papéis e o profissionalismo são inevitáveis,;

• racionalização – o esporte moderno é vinculado a uma racionalidade que estabelece relações entre meios e fins;

• organização burocrática – o esporte moderno é realizado dentro de um sistema de organização (com hierarquia, funções etc.) de competições unificadas e universais, que permitem disputas em diversos níveis (local, nacional e internacional);

• quantificação — o esporte moderno, coerente com o modus vivendi da sociedade moderna, caracteriza-se por transformar todas as façanhas atléticas em algo que possa ser quantificado e medido (número de pontos ou golos, medidas de tempo e distância), sobre o que inúmeros exemplos poderiam ser citados;

• recorde – no esporte moderno aparece o recorde, uma combinação do impulso para a quantificação com o desejo de vitória, ligado à ideia de comparação e progresso.

Guttmann apresenta um quadro em que compara os diversos esportes analisados, diferenciando-os pela presença ou não das sete características estabelecidas. Especificamente sobre o esporte moderno, considera-o um reflexo da Revolução Industrial e do movimento da Reforma Protestante, transformações sociais que seriam responsáveis pelo surgimento da racionalidade do esporte em detrimento da espontaneidade do jogo.

Apresentado sob o título La culture sportive e considerando que o esporte precisa ser compreendido como uma realidade específica, Donald Guay (1993) propõe-se a encontrar aspectos que permitam demarcar o fenômeno esportivo enquanto tal e circunscrevê-lo como objeto de observação empírica. Sintetizando o que foi apresentado neste tópico, inicialmente se pode depreender que, nestes estudos, são desenvolvidas análises acerca do esporte, numa tradição que tende a abordá-lo dando especial atenção à estrutura social, política e econômica na qual está inserido.

Assim visualizado, o esporte é identificado como elemento da cultura que encontra orientação numa dimensão mais ampla da sociedade, a qual é um fator determinante das suas características. Dessa maneira, o esporte desempenharia uma ou várias funções na sociedade e seria um elemento de reprodução da realidade.

Dentre os autores apresentados, Bouet e Brohm são os mais enfáticos em relação a essas considerações, sendo também os mais contundentes nas críticas ao esporte moderno. Dessa interpretação deriva um segundo ponto a ser considerado, que é o fato de que esses autores visualizam o esporte de uma perspectiva institucional.

Em síntese, o esporte é uma instituição, uma vez que é visto como um sistema de práticas competitivas situadas dentro de uma mesma lógica e coerência internas, a qual – materializada nos seus regulamentos, nas suas normas, nas modalidades, nos seus valores e em outros componentes – se relaciona com formas de organizações que lhe são exteriores.

Essa orientação encaminha para mais um aspecto comum desses trabalhos, nomeadamente a origem das suas análises, as quais têm referências fundamentais nas observações e reflexões relacionadas com as competições esportivas de grande evidência social. Mesmo quando sustentados em dados empíricos, levam em consideração apenas aqueles que são relacionados com o esporte hegemônica e institucionalmente difundido na sociedade pelos agentes sociais dominantes.

Assim, conforme reconhece Mandell em diversos momentos do seu texto, quase nada é
apresentado sobre o significado que as práticas esportivas têm (ou tinham) para as pessoas comuns no seu cotidiano. Isso os leva a destacar determinadas características (Guttmann) básicas ou mesmo essenciais (Bouet), que constituiriam a lógica do esporte moderno (Brohm), ou da cultura esportiva (Guay).

Mesmo utilizando palavras e expressões diferenciadas, esses autores estão em acordo, ao enfatizarem que o esporte é fruto de um processo de racionalização da vida moderna que transformou os passatempos e jogos desenvolvidos até então, em práticas vinculadas: à ideia de competitividade e afrontamento, ao espírito esportivo, às regras e normas universalizadas, aos gestos estandardizados e especializados, à busca de resultados mensuráveis e comparáveis, à meritocracia (expressa na figura do campeão), à produtividade e performance corporal no sentido do progresso, cuja expressão máxima é o recorde esportivo. Ao articularem todas essas ideias e características, são, em grande medida, unânimes ao criticarem o esporte moderno, por considerá-lo excessivamente competitivo, ideologicamente reprodutor dos valores dominantes e fator de alienação.

Como decorrência desse olhar, pautado num universo já determinado de referências e num caminho metodológico que visa a encontrar características comuns a todos os esportes, uma visão homogeneizada prevalece sobre o fenômeno esportivo, o qual é identificado com uma forma monolítica que dá prioridade às regularidades e continuidades, sem levar em conta as possíveis descontinuidades na realidade das suas práticas concretas. Essas regularidades passam a dar sustentação a algo semelhante a leis sociais para o esporte, como se todas as práticas esportivas tivessem os mesmos objetivos, sentidos e motivações, independentemente dos seus protagonistas.

Vale a pena destacar que Bouet faz um esforço para identificar heterogeneidades, mas não avança mais do que estabelecer classificações relacionadas com a idade, com o sexo etc., dentro das quais enquadra cada uma das diferentes manifestações que encontra, caracterizando assim outro tipo de homogeneização – nesse caso, no âmbito interno. Também Guay, ao descrever práticas esportivas no lazer, aproxima-se da aceitação das diversidades culturais nesse campo, mas não as admite, considerando-as fora do universo esportivo. Consequência desses aspectos é a transposição das características apontadas pelos autores (que passam a funcionar como determinantes) para todas as demais formas e manifestações do esporte, inclusive no âmbito do lazer.

Esse direcionamento conduz à desconsideração das diferentes possibilidades de manifestação do esporte e ao obscurecimento de uma heterogeneidade possivelmente existente na relação que o esporte possa vir a ter com os seus praticantes concretos, o que se expressa nas práticas cotidianas. 3) Esporte num Processo Histórico de Longa Duração Numa perspectiva diferenciada das anteriores, Norbert Elias e Eric Dunning desenvolvem suas análises acerca do esporte na obra A busca da excitação (1992), uma coletânea de artigos escritos pelos dois autores, já referida no capítulo I.


Identificando o esporte como um elemento estratégico para conhecer a sociedade, os autores propõem-se a compreender o seu significado social, analisando-o empiricamente num processo de longa duração, cujo ponto de partida é uma abordagem multidisciplinar, ou seja, uma articulação entre aspectos sociológicos, psicológicos e históricos. Ao mesmo tempo em que nesses trabalhos se busca o conhecimento sobre o esporte, o desenvolvimento contribui para aprofundar a teoria do processo histórico de longa duração, denominado por Elias processo de civilização, assim como para sustentar a teoria multidisciplinar das emoções, ambas já utilizadas em estudos anteriores.

Ao estudar “a relação entre o desenvolvimento da estrutura de poder inglesa e o desenvolvimento dos passatempos com características de esportes” (ELIAS & Dunning, 1992, p. 49), os autores concluem que o esporte moderno é o resultado do processo de civilização ocorrido na Inglaterra do século XVIII, que tem como aspecto central o aumento das sensibilidades em relação à violência. Esse processo de transição de passatempos a esportes – posteriormente exportado quase globalmente – ocorreu paralelamente à parlamentarização do Estado inglês, no qual a aversão à violência explícita e concreta se refletiu nos hábitos sociais dos indivíduos, sendo substituída pela violência simbólica: da mesma forma que a arte da guerra era substituída pela retórica e negociação, os passatempos recebiam regulamentações que visavam a controlar a violência.

Violência esta que, além de ser controlada pelo poder de Estado (o único que poderia utilizá-la), passou a ser controlada de forma autocoercitiva, uma vez que os indivíduos aprendiam a dominar as suas próprias emoções. E é com a ajuda da teoria multidisciplinar das emoções que Elias e Dunning se propõem a contribuir para uma teoria mais geral dos esportes. Incluindo o esporte nas atividades de lazer atuais, reconhecem-no como uma atividade que proporciona tensões controladas e agradáveis, necessárias para a manutenção da saúde mental.

Essa afirmação contraria muitas outras interpretações que identificam o esporte como uma prática que tem o objetivo de libertação das tensões, para pensá-lo como produtor de tensões de um tipo particular (uma agradável tensão-excitação), que é uma peça fundamental de satisfação no fazer: “sua função não é simplesmente, como muitas vezes se pensa, uma libertação das tensões, mas a renovação dessa medida de tensão, que é um ingrediente essencial para a saúde mental” (ELIAS & Dunning, 1992a, pp. 137-138).

Essa forma diferenciada e não negativa de pensar a tensão é fundamental quando Elias e Dunning se propõem a estudar “a dinâmica dos grupos esportivos: uma referência especial ao futebol”. Considerando que o jogo se concretiza nas relações de interdependência entre os participantes, os autores defendem que ele será prejudicado se essas relações forem demasiadamente rígidas ou excessivamente flexíveis. É nesse sentido que os autores consideram que seja adequado abandonar “o sentido negativo do conceito convencional de tensão e substituí-lo por outro que permita uma tensão ótima normal” (ELIAS & DUNNING, 1992a, p. 137). A análise de Elias e Dunning traz consigo alguns aspectos que, de uma forma especial, devem ser apontados para a discussão que está aqui sendo desenvolvida, tendo em vista as diferenças de abordagem, se comparada com os autores anteriormente apresentados.

Um primeiro ponto a ressaltar é a preocupação dos autores em compreender o esporte, e não em explicar.


Elias e Dunning, ao analisarem na perspectiva de processo, enfatizam uma relação de conflito na construção dos modos de vida na sociedade e dos significados sociais do esporte. Criticando o que acreditam ser uma posição bastante difundida na sociologia contemporânea, que presume “que as normas de todas as sociedades são monolíticas e todas formando um só bloco”, consideram que “não se pode determinar as inter-relações funcionais de lazer e de não lazer sem integrar neste modelo teórico a pluralidade de códigos interdependentes adequados a cada uma delas” (ELIAS & DUNNING, 1992b, p. 153, grifo meu).

Apesar de, na obra de Elias e Dunning, o esporte ser analisado numa perspectiva institucional, as suas posições deixam espaço para um olhar em direção à heterogeneidade dos sentidos atribuídos às práticas esportivas. Mesmo não sendo a preocupação dos autores demonstrar as diversidades, com a ajuda dos conceitos de configuração e de democratização funcional deixam em aberto a possibilidade de convivência de mais do que uma significação social que, vinculada às escolhas dos praticantes, se concretizaria para os esportes em geral, assim como para um esporte específico.

4) Em Busca da Heterogeneidade do Esporte Diferenciando-se dos trabalhos que foram apresentados inicialmente, a análise desenvolvida por Elias e Dunning aponta para um outro olhar, por meio do qual o esporte pode ser visto na sua heterogeneidade.

Esse pensamento vai ao encontro de Christian Pociello (1981), que propõe uma abordagem sociocultural das práticas esportivas que se concretizaria numa mudança de perspectiva pela “substituição de uma abordagem global, unitária e unificante do esporte, por uma concepção mais diversificada das práticas esportivas” (p, 10, grifos do original). Mesmo reconhecendo a importância de considerar os determinantes socioculturais externos que participam na construção das representações sociais no âmbito do esporte, Pociello direciona a sua proposta de análise para as necessidades e os prazeres individuais, vendo-os como “mecanismos distintivos […] que convidam a situar os esportes num sistema de práticas constitutivas dos estilos devida” (1981, p. 13). É nessa perspectiva que Bourdieu (1990) defende que para que se possa analisar um esporte específico é necessário compreendê-lo como parte de um sistema de práticas esportivas, em que cada elemento recebe um valor distintivo.

Na sua proposta de análise e com a ajuda do conceito de habitus, o autor considera que o elemento determinante do sistema esportivo é o sistema de preferências de cada grupo social, que é estabelecido pela relação entre o espaço das práticas esportivas existentes e o espaço das posições sociais e das escolhas dos praticantes. Nesse sentido, no uso que cada grupo atribui a um esporte, propõe objetivamente a sua interpretação desse esporte, que pode ser diferente do sentido dominante, ou seja, aquele que é estabelecido pelos usuários dominantes (numérica ou socialmente).


É nesse caminho que Bento (s.d.) desenvolve uma análise prospectiva sobre as “Novas motivações, modelos e concepções para a prática esportiva” para o século XXI. Identificando uma sociedade em mudanças, considera que o esporte é difícil de ser conceituado de uma forma inequívoca e que deve ser analisado como “um fenômeno antropológico que representa, promove e disponibiliza formas muito distintas, mas todas especificamente sócio-culturais e historicamente dadas, de lidar com a corporeidade” (p. 127). Na sua argumentação, o autor afirma que “o esporte existe no plural” (p. 126), ante a pluralidade de clientela, de modelos, de cenários, de modalidades e disciplinas, e de sentidos e significados. Em relação especificamente aos sentidos e significados, afirma que o esporte perdeu seu sentido inequívoco. O sentido do esporte é variado e multidimensional.

Nele podemos encontrar os valores da corporeidade, da condição física, da saúde, do ter e do ser, do rendimento, do esforço de procura, do empenhamento, da persistência, da ação e da realização, do enfrentar dificuldades, barreiras e resistências, da tensão, do dramatismo e da aventura. E é um espaço de expressão, de estética, de relaxação e entretenimento, de configuração e criação de vivências, de sensações, de impressões e experiências, de comunicação, de cooperação e interação [BENTO, s.d-, p. 129]. Bento ainda conclui o tópico em que discorre sobre a pluralidade dos sentidos e significados do esporte defendendo que “um sentido do esporte em si mesmo não existe, decorre das valorações que ligam as pessoas ao esporte” (s.d., p. 129).

A possibilidade de “Diversidade e pluralidade no cenário esportivo” (1995) é também defendida pelo antropólogo italiano Vicenzo Padiglione. Numa abordagem antropológica, desafia aqueles que propõem uma imagem homogênea do esporte, que o apresentam como um fenômeno previsível com princípios já identificados. “um esporte, se bem estruturado por regras, valores e cenários simbólicos, pode sempre ser manipulado de forma lúdica e consciente por parte de grupos sociais e realidades locais” (PADIGLIONE, 1995, p. 32).

O autor conclui seu texto evidenciando a perspectiva antropológica e relativizando a rigidez definidora dos esportes ocidentais, considerando esta a responsável pela ideia de que eles são pouco comparáveis com os jogos populares e outras competições tradicionais. Esses autores, ao questionarem a homogeneidade das práticas esportivas (e mesmo não identificando empiricamente as heterogeneidades), chamam atenção para as possibilidades de diferentes significados que lhes podem ser atribuídos pelos praticantes.

A partir das últimas argumentações vale ressaltar que, para esses autores, em que pese a origem, o desenvolvimento, a existência atual e os aspectos que caracterizam o esporte, ele não responde necessária e mecanicamente às normas sociais que porventura sejam dominantes em cada contexto. Num palco de contradições sociais, os diferentes protagonistas participam com uma posição ativa, capaz de criar e recriar as suas práticas culturais, na perspectiva do efeito de apropriação apontado por Bourdieu. Quando utiliza o termo efeito de apropriação, Bourdieu está chamando a atenção, entre outros aspectos, para o elemento gosto, enquanto aspecto de fundamental importância no momento das escolhas culturais. Assim, o esporte, junto com outras práticas culturais, se manifestaria segundo aspectos distintivos dos seus praticantes, constituindo uma das expressões dos diferentes estilos de vida.

5) As Dimensões Sociais do Esporte A partir das considerações que vêm sendo apresentadas é possível dizer que, embora devamos reconhecer que o esporte é um fenômeno cultural difundido globalmente na forma das competições esportivas oficiais — por meio das quais traz consigo significações hegemonicamente colocadas, especialmente, pelos meios de comunicação de massa — ele deveria também ser considerado a partir das suas expressões particulares, quando, inserido em distintos contextos socioculturais, adquire outras significações.

Essa constatação parece ser verdadeira, uma vez que tanto na linguagem cotidiana quanto no que tange aos estudos socioculturais sobre o esporte, diferentes expressões são utilizadas quando se tenta referir sobre particularidades vinculadas a essa prática social. Esporte educacional, esporte de lazer, esporte escolar, esporte de rendimento, esporte de competição, esporte de fim de semana, esporte espetáculo são algumas entre outras formas adjetivadas de expressar a heterogeneidade cultural existente nesse universo.

Assim, parece fácil concordar com Bracht (1997, pp. 11-12) quando afirma que o conceito de esporte parece estar precisando “dar conta de atividades, que pelo seu grau de diferenciação, estão a exigir adjetivações”. Com bastante repercussão no contexto brasileiro, um esforço para fazer uma distinção entre diferentes formas de praticar o esporte foi realizado por Tubino (l 992) na obra Dimensões sociais do esporte. Reconhecendo o esporte como um dos fenômenos mais destacados do século XX, o autor acredita que essa prática atingiu uma grande relevância social nas últimas décadas e, fruto dessa relevância, passou a ser motivo de reconceituação.

Advoga Tubino que, se anteriormente o esporte era analisado apenas pela perspectiva do rendimento inerente à alta competição, hoje ele é visto, também, por outras perspectivas: o esporte inserido no contexto educacional e o esporte realizado no âmbito do lazer. Nesse sentido, aponta o autor, o esporte deveria ser considerado a partir das suas diferentes dimensões sociais:

• o “esporte-educação”, que seria desvinculado do princípio do rendimento e voltado para um compromisso educativo, seria aquele realizado no contexto escolar,

• o “esporte-participação”, referenciado com o princípio do prazer lúdico e relacionado intimamente com o lazer e o tempo livre, que teria como finalidade o bem-estar dos seus praticantes,

• e o “esporte-performance” ou “de rendimento”, que, praticado pelos talentos esportivos, traz consigo os propósitos do êxito esportivo, da vitória sobre os adversários e “é exercido sob regras preestabelecidas pelos organismos internacionais de cada modalidade” (Tubino, 1992, p. 36).

Essa classificação teve grande difusão no mundo esportivo e no universo da educação física brasileira chegando a ser inclusive, incorporada à Lei Zicol Poderia ser dito que o esforço de Tubino veio a preencher uma lacuna, já que, até então, não havia uma formulação efetivamente reconhecida pela comunidade da área, por meio da qual se pudesse dizer sobre o que se falava, quando alguém tivesse a intenção de se referir ao esporte, em alguma das suas particularidades.

Mesmo que talvez não tivesse sido a intenção do autor”, ao que parece, a categorização por ele desenvolvida passou a funcionar como se fosse a realidade. Mas, ao que parece, a grande difusão das categorias oferecidas por Tubino não tiveram apenas um tipo de repercussão: por um lado, as “dimensões sociais do esporte” ajudaram a saber do que se estava falando, auxiliando a tornar os diálogos mais claros em muitas situações, mas por outro, as imagens oferecidas por cada uma das expressões por ele utilizadas também podem ter produzido um efeito inverso, ou seja, podem ter funcionado como uma simplificação.

Dessa forma, elas também podem ter contribuído para obscurecer a compreensão do esporte em relação à diversidade que porventura ocorra no interior de cada uma das referidas categorizações. Mais recentemente – referindo-se ao futebol, mas considerando a possibilidade de, com adaptações, alargar as suas considerações para o esporte como um todo -, Damo (2003) identifica, na bibliografia da área, a quase completa ausência de trabalhos que busquem dar conta da diversidade dessa modalidade esportiva. Apoiando-se num levantamento realizado por Toledo (2001) e, a partir daí, chamando a atenção para o fato de que a grande maioria das publicações brasileiras sobre o assunto referem-se apenas ao futebol profissional, critica a concentração do interesse acadêmico e defende a ideia de que “há futebol fora das narrativas hegemônicas” (DAMO, 2003, p. 132). Preocupado em ampliar os horizontes analíticos desse campo de estudos, o autor propõe um aumento do leque de categorias.


CAPÍTULO III


ESPORTE E DIVERSIDADE: UMA PRÁTICA DE LAZER
ELEMENTOS PARA UMA COMPREENSÃO A PARTIR DE UMA INVESTIGAÇÃO ETNOGRÁFICA

1) Sobre a Adoção das Regras Para vários autores da sociologia do esporte, um dos aspectos que diferencia o esporte moderno das atividades tipo esporte realizadas anteriormente ao seu surgimento é a criação de regras padronizadas e adotadas em diferentes contextos geográficos, inclusive em escala planetária.


É dessa forma que, nos contextos estudados, os jogos aconteciam a partir de regras conhecidas e compartilhadas por todos, inspiradas no esporte desenvolvido na sua versão oficial. Sendo adaptações de regras e ainda que modifiquem substancialmente a maneira como aqueles esportes são praticados na sua versão institucionalizada, vistas de fora não eram muito distantes das práticas realizadas na sua constituição formal. Por outro lado, um olhar de dentro permitiu identificar vários pontos que diferenciam os universos estudados entre si, mostrando, também, diferenças na sua relação com o esporte, como ele é praticado/difundido nas federações esportivas.

Conforme evidenciado no contato com os protagonistas, isso era uma escolha dos dois grupos, que estava relacionada tanto com o interesse em desenvolver um jogo prazeroso e interessante emocionalmente, quanto com o direito de participação de todos. O destaque à palavra escolha, foi para chamar a atenção para uma evidente intencionalidade dos grupos, uma vez que se afastaram das normas oficiais dos esportes que praticavam e adequaram as atividades a outros critérios, dentre os quais seus gostos. Em cada um desses contextos, uma vez estabelecidas e reconhecidas por todos os participantes, as adaptações às regras passaram a ser adotadas como orientadoras das atividades desenvolvidas.

Contudo, de maneira diferente dos esportes oficiais de origem, as atividades eram praticadas sem que houvesse árbitros externos. Assim, nos três grupos investigados, cada um e todos os participantes eram responsáveis pela condução das partidas.

Nesse sentido, a ideia de participação anteriormente relacionada com o acesso à prática esportiva (facilitado pela flexibilização das regras) ampliava-se ao ser identificado que, nos três grupos, também o poder de decisão era distribuído entre todos os jogadores /árbitros na condução das partidas.

As estratégias dos três grupos portugueses diferenciavam-se dos Veteranos do Ararigbóia (STICCER, 1997), grupo que, no lazer, praticava o futebol com a adoção das regras oficiais, desenvolvendo a arbitragem dos jogos com a participação de um árbitro “de fora”, que conduzia as partidas. Esse mesmo grupo, sem fazer adaptações no espaço de jogo, reduzia a participação da atividade ao número de pessoas estabelecido pelas normas oficiais.

Comparando os grupos portugueses com o brasileiro, os primeiros utilizavam as regras com um sentido de facilitar a participação e desenvolviam a arbitragem dos jogos de maneira que o poder de decisão era exercido de forma direta, enquanto no segundo isso ocorria de forma delegada.

Com base nas análises desenvolvidas, é possível concordar com autores que consideram que, nos esportes oficiais, as regras funcionam como artefatos culturais ligados a uma racionalidade específica da modernidade, vinculada ao interesse de adequar meios aos fins, na perspectiva de que seja assegurada a previsibilidade e a calculabilidade no decorrer das competições esportivas; regras estas que acabam por ser constrangedoras, seletivas e autocráticas.

Em contrapartida, o que é identificado nas regras adotadas pelos praticantes do esporte no lazer conduz a outros aspectos: nos grupos estudados a modificação das regras conduzia para uma perspectiva hedonista, participativa e democrática.


2) Um Jogo “É Bom e tem interesse” quando “é duro, renhido, disputado” De acordo com o que foi identificado nas observações realizadas, os três grupos estudados praticavam o esporte fundamentalmente entre si, ou seja, não desenvolviam os jogos com equipes adversárias.

Essa especificidade comum a todos levava-os a realizar as partidas no âmbito interno, confrontando duas equipes formadas de acordo com os indivíduos que estivessem presentes em cada dia de jogo. Além dessa característica, outro aspecto que os aproximava era a afirmação unânime dos informantes de que gostavam de praticar o esporte entre equipes equilibradas, o que explicitavam ao declarar que um jogo “é bom e tem interesse” quando “é duro, renhido, disputado”.

Apesar das diferenças relativas à formalidade com que os procedimentos eram adotados, ambos os grupos procuravam obter o equilíbrio distribuindo equitativamente, nas equipes, jogadores com qualidades esportivas equivalentes.

Ao que parecia, os integrantes visavam a obter um nível ótimo de tensão-excitação, o que fazia com que os jogos acontecessem dentro de uma tensão agradável, o que era identificado nas palavras de Joaquim, participante que afirmou ser importante haver um “temperinho” nos jogos:

Na conta final os resultados não contam, mas quando se vive o desporto, o aspecto competitivo acho que é fundamental […]. Se não tiver este temperinho, o desporto faz-se por se fazer […]. Se não […] deixa de ser um jogo, […] bate-se uma bolinha, mas não há aquela motivação […].

O que se identifica nas ideias desse informante pode ser compreendido pela análise configuracional, por meio da qual Elias e Dunning (1992c) estudaram a dinâmica dos jogos esportivos. Pensar os jogos de cada um dos grupos por esse prisma significa não apenas analisá-los como um só grupo, mas também identificá-los como dois subgrupos interdependentes em tensão.

Isso pode ajudar a compreender os procedimentos dos praticantes investigados, os quais buscavam desenvolver o esporte conforme o seu gosto, criando as condições para que se realizasse um padrão de jogo com um equilíbrio de tensão entre as equipes.

Mesmo que nem todos os grupos estudados desenvolvessem estratégias para realizar jogos com equipes equivalentes, todos atribuíam um grande valor ao componente emocional das atividades, o que se concretizava quando o equilíbrio era atingido.


E nesse sentido que no esporte praticado pelos grupos estudados os indivíduos estavam em oposição na competição esportiva, mas não eram adversários numa situação de isolamento e/ou numa forma de conflito negativo: eles estavam na condição de companheiros adversários, já que complementavam-se e formavam um tipo de sociabilidade fundada numa relação de cooperação pela oposição.

3) Sobre resultados, competitividade e divertimento nos esportes Dessa maneira realizadas, as competições desenvolvidas aconteciam de forma que o resultado esportivo recebia um valor secundário entre os participantes. Um dos aspectos que permitiu chegar a essas conclusões, foi que vários participantes, ao tentarem descrever o esporte que praticavam nos respectivos contextos, fizeram comparações com aquele que é praticado nas competições oficiais, mesmo amadoras.

Para vários dos informantes, a busca do resultado é parte fundamental dos universos esportivos oficiais, pois lá “há sempre alguma coisa em jogo”, aspecto que os diferencia do seu esporte, no qual o que acontece é a prática do “jogo pelo jogo”. Essas interpretações permitem discordar de Guay (1993), que coloca em dúvida a existência do esporte desinteressado. Guay vai mais longe nas suas posições relativas à importância do resultado na construção do conceito de esporte, ao considerar que sem o que está em jogo a competição perde o significado e a razão de ser.

No caso dos grupos estudados, muitos foram os depoimentos opostos a essas ideias, mostrando que, mesmo nas derrotas, vários dos participantes encontravam sentido ao praticar o esporte. Isso porque, para a ampla maioria dos integrantes dos três grupos investigados, o esporte estava associado fundamentalmente à ideia de divertimento.

A contraposição dos dados da investigação com as ideias de Guay (1993) é compreensível, ao serem analisados outros dos seus conceitos acerca do esporte. O autor considera que o divertimento é um dos componentes do esporte, mas que esse aspecto não pode sobrepor-se aos demais, dentre os quais o resultado, o que faria com que uma atividade assim desenvolvida deixasse de ser esporte para ser uma “paródia do esporte” (GUAY, 1993, p. 49).

Para esse autor, no esporte para todos, “acessível a todos e a todas, sem árbitro, sem vencedores nem vencidos, mas unicamente por prazer de jogar […] os jogadores não praticam mais o esporte, mas fazem a simulação, eles não estão mais no universo esportivo” (idem, p. 49). Contrariamente a essas ideias encaminha-se o pensamento de Claeys (1985), que considera que o esporte para todos trouxe mudanças para os padrões de participação nos esportes da Europa. Para esse autor, isso está relacionado com um processo de democratização cultural, que envolveu o maior acesso das populações a esses bens culturais, assim como a formação de uma cultura popular nessa área. Também diversamente de Guay é conduzido o pensamento de Dunning (1992), ao interpretar a dinâmica do esporte moderno desenvolvendo uma análise sobre ela e a luta pelos resultados.

Não tentando caracterizar o esporte rigidamente, o autor apresenta elementos que oferecem outra interpretação às atividades desenvolvidas pelos grupos investigados. Nessa outra ótica, os três grupos estudados neste trabalho, desenvolveriam o esporte a partir de um “ethos amador” (DUNNING, 1992, p. 312), cujo componente principal é a prática do esporte por divertimento, sendo atividades que têm um fim em si mesmas e cujo acento tônico estaria no prazer; constituiriam assim, “formas de participação nos esportes ‘dirigidos para si próprio’ ou ‘egocêntricos'” (idem, ibidem).

Dunning contrapõe essa maneira específica de praticar o esporte àquela em que o ethos é profissional e cuja orientação está vinculada aos resultados: “formas de participação ‘dirigidas para os outros”‘ (idem, p. 317), tanto adversários, como espectadores. Contrariamente às anteriores, essas práticas estão vinculadas ao que está em jogo, quer sejam interesses materiais, quer sejam satisfações relacionadas com a identidade e com o prestígio. Numa outra linguagem, mas num sentido semelhante aos anteriores, estão as ideias de Loret (1996).

Ao estudar formas alternativas de esporte, esse autor caracteriza o “esporte de utilidade pública” (LORET, 1996, p. 174) como aquele vinculado ao discurso tradicional do esporte organizado, o qual encontra nos resultados obtidos a forma fundamental de reconhecimento social e estatal; esse tipo de esporte seria, para ele, uma prática heterônoma, pois seria voltada para os outros.

Diversamente desse tipo de esporte e vinculado apenas ao prazer da atividade, Loret descreve o que denomina de “esporte de utilidade lúdica”: uma prática do tipo “‘selvagem’ [que] não possuí […] nenhum valor de troca [e] […] exalta somente um valor de uso limitado no tempo” (ídem, pp. 212-271, grifos meus),- essa maneira de praticar o esporte seria assim autônoma, ou seja, voltada para si própria. Essa última descrição está bastante adequada à realidade dos grupos que foram estudados, nos quais os participantes não negavam que se esforçavam para vencer as partidas, mas – sem que tivesse nenhuma repercussão posterior – isso ficava confinado ao período em que estavam desenvolvendo os jogos.

4) Rendimento, sucesso, comparação e acesso Quando o objetivo é caracterizar o esporte numa perspectiva sociológica, são bastante utilizadas na bibliografia da área, entre outras, as categorias relacionadas com as ideias de rendimento, de performance e de produtividade.

Explicitadas também na forma de outras expressões nos trabalhos de vários autores, essas ideias aparecem formando um conjunto que identifica o esporte como um fenômeno cultural de fortes vínculos com a lógica da sociedade industrial, e, por essa razão, se desenvolveria em relação direta com essas características, as quais são identificadas no processo social global dessa mesma sociedade.

Nesse sentido, falar em rendimento, performance ou produtividade significa relacionar o debate em torno do esporte com o contexto das discussões vinculadas ao mundo do trabalho, especificamente ao trabalho industrial. E isso que está presente nas ideias de Rigauer (l 98 l), para quem o rendimento esportivo seria representado pela semelhança com o rendimento no mundo da indústria, já que, em ambos, o sucesso é reconhecido pela capacidade de os grupos e indivíduos ultrapassarem níveis de produtividade cada vez maiores.

Pensando assim, no esporte os indivíduos e grupos seriam vítimas de uma pressão normativa relacionada ao progresso, para alcançar objetivos estabelecidos no exterior, que, simbolicamente e por comparação, seriam indicadores da sua posição na hierarquia social.

A repercussão disso seria a lógica seletiva e excludente que, tendo como referência o rendimento demonstrado, colocaria os menos habilitados numa posição inferior na escala social ou os excluiria das atividades. Identificado dessa maneira, o esporte moderno está ligado a uma ideia de progresso comparável, o que significa que, a cada aperfeiçoamento, pode e deve haver outro para superá-lo'”.

Apesar de, na análise, Rigauer ter analisado o esporte de alta competição, o autor generaliza suas ideias e amplia sua interpretação para outras manifestações esportivas. Nesse sentido, afirma que “toda a asserção sobre o fenômeno do esporte de alto nível é relevante para os esportes em geral, pois os esportes de alto nível são hoje a força condutora de todo o sistema dos esportes” (RIGAUER, 1981, p. 79) e que “o esporte recreativo […] acaba por ser uma versão em miniatura do esporte de alto nível” (idem, p. 107). Contrariando as formulações teóricas generalizadoras de Rigauer, os grupos estudados mostraram-se predominantemente desvinculados do rendimento, da performance e da produtividade.

Isso foi concluído tanto a partir da ausência de referências aos resultados esportivos nos depoimentos dos participantes quanto pela presença de outros interesses declarados em seu lugar. No mesmo caminho, encontraram-se as declarações sobre o que consideravam ser as características de um bom companheiro de grupo e de um bom companheiro de equipe, e ainda a respeito do que era valorizado para o acesso de um candidato à participação nas atividades de cada grupo.

Sobre esses aspectos, nenhum dos informantes dos três grupos se referiu espontaneamente à ideia de performance como uma característica desejável para alguém ser integrado no seu grupo. Além disso, todos os que se referiram ao rendimento esportivo de outro jogador fizeram-no apenas após insistência na temática,- quando houve referências à ideia de performance, essa foi sempre colocada num plano inferior em relação a outros atributos esperados dos seus colegas.


Todos esses argumentos levam a acreditar que a participação naqueles contextos não estava vinculada a um “capital esportivo” (MARIVOET, 1998, p. 31) dos candidatos, no sentido de um saber-fazer que lhe permitiria, com base no rendimento manifestado na comparação com os outros, aceder aos coletivos estudados.

Na forma como as atividades eram desenvolvidas nos grupos referidos, a comparação dos rendimentos dos participantes era apenas uma maneira de encontrar o equilíbrio dos jogos, o que estava relacionado com as satisfações emocionais dos participantes, já analisadas anteriormente.

A partir das análises feitas anteriormente, é difícil aceitar as formulações de Rigauer que, a partir de interpretações acerca do esporte de alta competição, alargam a sua análise e concluem que a busca do rendimento esportivo cada vez maior é uma categoria que acaba por ser característica central em todos os tipos de práticas relacionadas com o esporte. Da mesma forma, esses dados e interpretações são de difícil conciliação com as considerações de Bouet (1968), quando defende que, “sem intenção de performance, não se faz mais que jogar ou que ‘fazer exercício’. Fica-se à margem do esporte e mesmo longe dele” (p. 37).

Em vez de buscar uma caracterização universal para o esporte, talvez seja melhor considerar posições como a de Bessy (1995) que, após analisar a Maratona de Médoc, conclui que ela se constitui “uma nova maneira de fazer esporte” (p. 133), que se inscreve num tipo específico de festa contemporânea diversa da festa ritualizada e da festa espetáculo.

O autor desenvolve essas considerações entendendo que, apesar de externamente apresentar semelhanças com as provas de corrida tradicionais, essa competição tradicional está associada, tanto para os organizadores quanto para os participantes, a objetivos relacionados com a ideia de festa e não com os resultados esportivos.

Conforme interpreta o autor, o evento – que já existe desde 1985 e que tem crescido em número de participantes — realiza-se em oposição à competição atlética tradicional, favorecendo a união, dentro de um clima de fraternidade. Identifica-se, nesses ambientes, um esporte que não está vinculado “à produção de algo, mas ao próprio encontro dos sujeitos”, quando “o sentido da prática do esporte não está no ‘fazer para’, mas no ‘fazer em'” (BRANDÃO, 1994, p. 29, grifo do autor) ou, ainda, no fazer com. Entre outros que talvez pudessem ser citados, os exemplos apresentados nas páginas anteriores buscaram mostrar diferentes formas de praticar o esporte, assim como sentidos diversos atribuídos a essa prática social.

Nesses casos particulares, chama a atenção o fato de que, diferente da forma como é praticado na sua versão oficial, naqueles contextos alguns aspectos considerados intrínsecos ao esporte foram relativizados. Se a análise permitiu diferenciar as práticas estudadas da forma como são praticadas no âmbito das federações esportivas, ela também possibilitou identificar diferentes formas de apropriação do esporte no interior do universo do lazer.

Nesse sentido, categorias como competição, rendimento, divertimento, busca do resultado, seriedade, espontaneidade, o que está em jogo, entre outras que, em diversas publicações, aparecem de forma incompatível uma com a outra ou como dicotomias radicais, foram aqui tratadas não como elementos que tentam caracterizar e demarcar algo que pudesse ser chamado de esporte de lazer ou qualquer outra denominação. Articuladas de diversas formas, o esforço foi para considerar essas ideias noções capazes de ajudar a desvelar aqueles universos particulares e oferecer elementos para a compreensão da diversidade dessa prática sócia! no contexto do lazer.

Mas além do universo do lazer, essa discussão também se insere no contexto das aulas de educação física, nas quais, historicamente, o esporte tem sido um conteúdo privilegiado e motivo de discussões acadêmicas.

CAPÍTULO IV

ESPORTE E DIVERSIDADE: CONTEÚDO DA EDUCAÇÃO FÍSICA ELEMENTOS PARA UMA COMPREENSÃO A PARTIR DE DISCUSSÕES NO CONTEXTO BRASILEIRO

A produção acadêmica acerca do esporte na educação física brasileira – mesmo sem que tenham sido necessariamente utilizados os pensamentos de todos os autores referidos na discussão sociológica do segundo capítulo deste livro —, o que tem prevalecido é uma visão homogênea e homogeneizadora dessa prática social. Isso se expressa em vários trabalhos publicados já na década de 1980, quando, vinculadas ao processo de abertura política que ocorria no Brasil na época, surgiram várias análises críticas sobre o esporte, sustentadas em referências das ciências sociais que eram inseridas nas discussões da área.

Apesar das diferenças de abordagem desses trabalhos, analisando-os como um conjunto, identificam-se alguns pontos em comum: o primeiro deles, apesar de algumas colocações relativizadoras, é uma posição que tende a identificar o esporte numa visão única, homogênea e homogeneizadora, que teria como modelo o esporte de rendimento, – o segundo é a crítica feita a esse modelo, principalmente quanto às suas possibilidades educacionais, – o terceiro é uma vontade de transformar o esporte, adequando-o ao que os autores consideram ser os objetivos educacionais da escola; o quarto é uma dúvida/incerteza sobre as possibilidades dessa transformação, expressa na ênfase que é sempre dada aos aspectos por eles criticados acerca do esporte.

Enfim, identifica-se um pensamento ambíguo sobre o esporte e sobre as suas possibilidades educacionais no contexto escolar: ora o esporte de rendimento é visto com enorme força de hegemonia cultural, ora ele é visto como passível de ser transformado, tanto no contexto do lazer, como no da escola.


Em alguma medida, acredito que ambiguidade semelhante a essa foi também identificada por Vago (1996), quando dialogou com Bracht acerca do esporte na escola e o esporte da escola. Analisando os trabalhos deste autor, Vago identifica que “Bracht inicialmente escreve que o esporte e a Educação Física ‘condicionam-se mutuamente'”, mas que, num outro momento, “o autor afirma taxativamente que a educação física ‘assume os códigos de uma outra instituição’ mais poderosa: a instituição esportiva” (1996, p. 8, grifos do autor).

Apesar de que essa hesitação poderia ter encontrado solução em mais de uma possibilidade, sua repercussão no pensamento de grande parte da comunidade da educação física brasileira parecia apontar, preponderantemente, para uma visão homogênea sobre o esporte.

Talvez isso pudesse ser sintetizado afirmando-se que, se por um lado naquele período havia alguns movimentos (inclusive desses próprios autores) de propostas motivadas por um “otimismo prático” voltado para a diversidade cultural do esporte, expresso pela possibilidade da sua transformação no contexto escolar, o que prevalecia no pensamento da comunidade em questão, era um “pessimismo teórico” (KUNZ, 1994, p. 6), que enfatizava a ideia da existência de uma homogeneidade do esporte, representado pela forte hegemonia cultural do esporte de rendimento e pela quase impossibilidade da sua transformação no contexto escolar.

Porém, levando-se em consideração os resultados da investigação referida no capítulo anterior, vale perguntar:

se é possível identificar uma diversidade cultural do esporte no âmbito do lazer, vinculando-o a sentidos diferentes da sua expressão hegemônica, por que não seria possível fazer o mesmo no contexto educacional escolar?

Se, no contexto do lazer, é possível encontrar práticas que se contrapõem à hegemonia cultural do esporte de rendimento, por que na escola isso não poderia acontecer?

1) Esporte, Cultura Escolar e Cultura Escolar de Educação Física Tentando responder a essas perguntas, um ponto de partida para pensar o papel da escola em relação ao esporte é reconhecer a sua evidência social e, por essa razão, considerar que a instituição escolar não pode ficar (e não tem ficado) alheia a esse importante fenômeno sociocultural. Isso não é difícil identificar na realidade brasileira, na qual – tendo se constituído uma prática hegemônica no contexto da cultura do movimento – o esporte passou a ter grande influência na educação física, a ponto de talvez ser o seu maior conteúdo de ensino. Isso leva a considerar que, entre os muitos espaços onde o esporte é praticado na sociedade em que vivemos, a escola é aquele que tem um papel especial: transmitir essa prática social para as gerações futuras, com ajuda dos professores de educação física.

Assim, a educação física vem constituindo-se uma prática pedagógica que, na esfera escolar, tem praticado o papel de tematizar – entre outros conteúdos da denominada cultura corporal – essa forma particular de atividade física. Com essas preocupações e com maior ou menor influência dos pensamentos dos autores referidos anteriormente, no seio da comunidade da educação física brasileira – e especialmente na década de 1990 – foram geradas inúmeras discussões e publicações relacionadas ao tratamento/tematização do esporte no contexto escolar. Muitos autores demonstraram preocupação com o fato de que a reprodução da lógica do esporte de rendimento na escola, além de oferecer uma visão limitada e limitadora dessa prática social e de trazer consigo a afirmação de aspectos ideológicos da sociedade capitalista, seria uma forma de encaminhar os indivíduos para uma participação passiva no campo esportivo.

Pela lógica seletiva identificada por esses autores, muitos indivíduos, sendo incapazes de responder às exigências que lhes fossem impostas, seriam excluídos ou se autoexcluiriam da prática esportiva, constituindo-se meros consumidores do esporte,- eles o conheceriam principalmente por intermédio da indústria cultural, que lhes apresentaria um único modelo para essa atividade, pronto e acabado.

Alguns estudos confirmam essa ideia, ao identificarem que muitos professores têm tratado o esporte com a mesma lógica com que é praticado no contexto das competições esportivas federadas; conscientes ou não, essa perspectiva visualizava a escola como mera transmissora dos valores culturais da sociedade na qual está inserida. Outros autores preocupavam-se em analisar criticamente o esporte oficial e identificar as suas contradições, mas não conseguiam ir além da denúncia.

Mesmo criticando vários aspectos do esporte hegemonicamente difundido na sociedade, esses profissionais demonstravam dificuldades em admitir a possibilidade de lhe ser dado um tratamento pedagógico no contexto escolar. Com base nisso, alguns discursos chegaram ao exagero de propor a retirada do esporte das aulas de educação física. Outros ainda visualizam a escola como produtora de cultura e desenvolveram esforços para encontrar soluções, no contexto escolar, de como transformar o esporte em uma prática acessível a todos, assim como retirar-lhe os componentes responsáveis pela suposta lógica reprodutora, excludente e limitadora.

A preocupação destes era de encontrar ações pedagógicas capazes de, a partir de práticas alternativas, produzir um conhecimento significativo sobre o esporte, que fosse além da prática vista como um fim em si mesma e da mera reprodução da expressão dominante. Parece-me que as teorizações de Vago (1999) inserem-se nessa última perspectiva, pois esse autor considera que o trabalho interno da construção de uma disciplina escolar vincula-se a uma ruptura com a ideia da transmissão de conhecimento instituído, pronto e acabado, como se este fosse impenetrável à ação dos profissionais da escola. Não aceitando os agentes escolares como meros consumidores de saberes impostos do exterior dessa instituição, Vago aponta para uma escola produtora de saberes, constituintes da cultura escolar.


Essa cultura se desenvolveria pelo processo de escolarização dos conhecimentos que circulam na sociedade, o que não ocorreria pela negação destes últimos, mas pela tensão permanente com eles, numa perspectiva tanto de complementaridade quanto de contradição. Na sequência desse raciocínio, o mesmo autor defende que a educação física é uma disciplina que busca a construção de uma “cultura escolar de educação física” (VACO, 1999, p. 22), que – dentro da sua especificidade em relação ao tratamento pedagógico de jogos, brincadeiras, esportes, danças e outros elementos da denominada por muitos de cultura corporal – se constituiria para organizar a intervenção e os conhecimentos no contexto particular da escola; a partir daí, a escola, com os seus saberes, interviria nas práticas culturais da sociedade, tanto concorrendo quanto identificando-se com elas.

Dessa forma, em vez de aceitar passivamente as práticas corporais desenvolvidas na sociedade, a educação física poderia produzir significações específicas para essas inúmeras práticas, adequando-as ao contexto escolar. Não se trataria portanto de uma contradição no sentido da negação das práticas corporais exteriores à escola, mas de desenvolver, na escola, um conhecimento a partir do diálogo entre esses diferentes contextos culturais.

Aceitar as proposições de Vago significa identificar a sociedade na perspectiva de um universo onde convivem indivíduos e instituições em relações de interação e de conflitos. Nessa perspectiva, a escola seria um, entre outros universos culturais que, disputando e interagindo sobre formas de estar no mundo, faria parte da construção da história cultural de uma sociedade. Especificamente em relação ao esporte, as ideias de Vago parecem se associar ao pensamento do segundo grupo de estudiosos da prática esportiva social, os quais referi no segundo capítulo deste livro.

Da mesma forma que eles, Vago identifica as relações de conflito como parte do processo de construção da sociedade, assim como – a partir disso – abre espaços para que se possa pensar na diversidade do esporte, quando realizado no contexto escolar. Sobre esse último aspecto, em outro texto Vago (1996) visualiza pelo menos dois esportes: o esporte na escola, que seria representado pela reprodução do esporte de rendimento no contexto escolar, – o esporte da escola, que se apresentaria como o resultado de um processo de escolarização dessa prática.

2) Esporte e Diversidade: um breve exemplo de prática docente Com certeza, muitas pistas para responder às perguntas feitas no início do tópico anterior poderão ser encontradas em vários trabalhos já desenvolvidos no âmbito da educação física brasileira. Os trabalhos de Bracht e Kunz são provavelmente, alguns dos mais expressivos no contexto dessa comunidade mas, possivelmente, outras experiências anônimas devem ter sido desenvolvidas nas escolas brasileiras por professores de educação física preocupados com essas questões. Porém, vou apresentar o exemplo de
trabalho de um autor que me é próximo, com quem já conversei muitas vezes sobre esses assuntos, o qual me parece ser útil para oferecer maior concretude a essa discussão.

Num esforço para encontrar alternativas para o ensino do esporte no contexto escolar, Molina Neto (l 995) desenvolveu uma atividade com estudantes universitários, que talvez pudesse ter sido, com adaptações, realizada na escola. Sendo professor cie futebol na Escola de Educação Física da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (EsEF-UFRCS) e identificando estratégias de reprodução sistemáticas no ensino de futebol em algumas escolas de educação física, criticou esse modelo por considerá-lo limitado: para o autor, essa forma de ensino do futebol era excludente, reforçava a ideia de que futebol é jogo para homens, sustentava-se na desigualdade e encaminhava para fortes possibilidades de reprodução do modelo hegemônico. Como uma forma de enfrentar esse modelo, propôs uma “alternativa simples às propostas tradicionais de ensino da educação física”, o que fez por intermédio do que denominou “intervenção otimizadora” (MOLlNA NETO, 1995, p. 31).

Após sistematizar o conhecimento que todos os alunos tinham sobre o tema e, com eles, buscar relacionar o modelo tradicional de futebol com alternativas existentes e realizadas por diferentes grupos de pessoas, desenvolveu uma problematização, que foi desencadeada pela realização de um jogo de futebol na sua forma tradicional. Esse jogo criou diversas situações de conflito entre os participantes, as quais levaram o professor e os estudantes a tentarem, juntos, responder à pergunta:

como os alunos e alunas poderiam jogar futebol juntos e de forma agradável, tendo as mesmas oportunidades de uma aprendizagem significativa desse conteúdo de ensino?

A busca das respostas se deu da seguinte forma: iniciou-se um processo de discussão, no qual foram destacados vários aspectos a serem desenvolvidos, ocasião em que o professor adotou a posição de mediador e estimulador das reflexões.

A partir disso foram construídas coletivamente regras capazes de garantir a participação de todos nos jogos, assim como foram encontradas formas de aprendizagem e exercícios mais adequados ao grupo de alunos.

O grupo também estabeleceu critérios e a responsabilidade de cada um no processo de formação das equipes e ainda debateu temas globais relacionados ao esporte em geral, e ao futebol, particularmente. Tudo isso contribuiu para que, no momento da realização do jogo, já houvesse regras acordadas e também uma relativa segurança quanto às habilidades básicas de cada um para praticar o jogo.

Ao final do trabalho, o professor Molina identificou uma mudança de comportamento em relação às possibilidades educacionais do ensino do futebol e das expectativas que os alunos tinham da disciplina. Além do efetivo aprendizado das habilidades técnicas e das regras do futebol, ele considerou que houve uma forte coesão no grupo, que aumentou do nível de participação nas aulas, que se elevou o espírito crítico em relação ao trabalho realizado, assim como identificou o alargamento da competência linguística em relação ao futebol.

Desenvolvendo as aulas dessa perspectiva alternativa, parece que o professor adotou uma prática docente que, tendo o futebol oficial como ponto de partida, propiciou diversas situações que contribuíram para a construção de uma aprendizagem ampliada sobre a modalidade: sem negar o futebol que é praticado na sua versão oficial (foram estudadas e praticadas as suas regras e técnicas), o professor foi além dele, identificando outras formas de praticar esse esporte, bem como outros aspectos relacionados.

Assim, ao intervir com situações de conflito, o professor buscou “imagens desestabilizadoras” (SANTOS, 1996, p. 30) da cultura hegemônica do esporte de várias maneiras: não se satisfez apenas com o paradigma técnico-biológico que sustenta em grande medida a cultura do esporte de rendimento, – colocou num mesmo plano pessoas diferentes em relação ao tradicional produzir algo num jogo de futebol; não se satisfez com a ideia de que saber esporte reduz-se a uma competência prática, mas foi além dela, para buscar a compreensão de outros aspectos relacionados; rompeu com o modelo cultural dominante que encaminha para a ideia de que futebol é para homem, – tratou com menos centralidade a competição e a busca do resultado esportivo, características centrais do esporte de rendimento.

Na forma como o trabalho foi desenvolvido, parece não ter havido contradição (no sentido de negação) no elo entre o futebol, como é hegemonicamente conhecido, e o futebol da escola. Reconhecendo a inegável presença do futebol como prática social que mobiliza grande parte da sociedade, tanto de dentro quanto de fora da escola, o professor assumiu o pape) de tematizar essa atividade, oferecendo condições para que fosse identificada uma diversidade cultural nesse contexto.

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