SCHIAVON, L. M.; NISTA PICOLLO, Vilma L. Desafios da ginástica na escola. In: MOREIRA, E. C. (Org.). Educação Física escolar: desafios e propostas 2. Jundiaí: Fontoura, 2006, p.35 60.

Este texto trata do debate sobre a aplicação da ginástica no ambiente escolar e aponta as dificuldades encontradas no trabalho com a ginástica artística (GA) e a ginástica rítmica (GR) na escola. Mas apesar da existência de estudos que comprovem a enorme contribuição dessas práticas gímnicas no desenvolvimento da criança, ela praticamente não existe mais como conteúdo de ensino na escola brasileira.


As principais razões para essa realidade seriam a falta de materiais específicos, a deficiência de espaço adequado às práticas, e falhas na formação profissional. Mas a falta de conhecimento dos professores a respeito da ginástica e o mito criado em torno dela, como sendo uma atividade que exige diferentes habilidades, também são pontos relevantes a serem analisados.


A disciplina Ginástica Artística está presente na grande maioria dos cursos de graduação em Educação Física, mas apesar disso, parece não haver uma transferência do que foi aprendido para a sua efetivação na escola, inclusive é dado maior enfoque nos cursos de graduação para os aspectos relacionados ao treinamento dessas modalidades, ressaltando a técnica, o regulamento, o treinamento – o que estaria direcionado à atuação em clubes, com equipes competitivas e não à atuação nas escolas, onde os aspectos pedagógicos deveriam ter mais destaque.


Quando os profissionais de Educação Física, durante os cursos de especialização na área escolar se deparam com módulos que apresentam a ginástica como uma possibilidade na escola, geralmente percebem que o enfoque que era dado ressaltava sempre uma única concepção de Ginástica como desporto competitivo. Ou seja, os conteúdos que formam os professores estão sendo ensinados de forma diretiva e voltados apenas para a uma formação técnica, impedindo que o profissional visualize as possíveis adaptações dessa modalidade nos diferentes contextos que ultrapassem o Esporte competitivo.


Pode-se concluir também que a falta de criatividade, causada pela visão estrita sobre a Ginástica, adquirida nos cursos de graduação, é a principal razão para a falta de aplicação da Ginástica nas escolas, e não a falta de materiais ou outros recursos. As experiências de vida extracurriculares, e anteriores ao ingresso no curso, também são de grande valor e uma aproximação da realidade escolar poderia ser desenvolvida pelo ato de ensinar ginástica.


Outro elemento que desmotiva os professores a trabalhar a ginástica é a imagem do alto nível competitivo e difícil das modalidades gímnicas esportivizadas: […] a difusão da ginástica artística e da ginástica rítmica desportiva a partir de 1970 e 1980, ao mesmo tempo que favorece o número de praticantes, especialmente nos clubes, traz consigo a ideia, reforçada pela mídia, de que estas atividades são extremamente difíceis e que só podem ser praticadas por “super atletas” e orientadas por “super técnicos”. É a Ginástica esportivizada sendo vista tão somente como “Ginástica espetacular”.


Entretanto, nas diversas modalidades, há uma diferença substancial do esporte apresentado pela mídia como espetáculo e de uma prática vivenciada nos trabalhos de base. ―As competições de alto nível exigem de seus participantes um preparo especial, não só no aspecto físico, como nutricional e psicológico‖. Além da vontade, é preciso ter talento para tal esporte, de modo que o alto nível de exigência técnica determina que uma modalidade esportiva competitiva se destine às pessoas que apresentam facilidade na execução de certas habilidades e competência para executá-las.


Os esportes ensinados nas aulas de Educação Física Escolar, em geral, não exigem um desempenho de um esporte competitivo, mesmo porque não são todos os alunos que demonstram aptidão para as habilidades exibidas na prática profissional da modalidade. Nesse caso, é preciso oferecer a todos os alunos as oportunidades de executarem as propostas e atividades pedagógicas e o professor deve estar ciente das posições corporais exigidas por determinadas modalidades, que se distanciam das ações cotidianas, especialmente quando se trata de acrobacias e manejo de aparelhos. Porém, mesmo na escola, ao se trabalhar o nível competitivo das modalidades gímnicas há uma combinação complexa de habilidades e, assim como acontece em qualquer outra modalidade executada nesse nível, as exigências necessárias ao bom desempenho são muitas.


A ideia de que são modalidades impossíveis de serem aprendidas por qualquer criança vem ao encontro da falta ou do pouco conhecimento dos profissionais. Esse tipo de consideração feita pela mídia, ou por leigos ainda é aceitável, mas não para profissionais da área. Isso demonstra falta de conhecimento dos professores de Educação Física que trabalham em escolas, pois a GA e a GR desenvolvidas em aulas curriculares, ou mesmo como uma iniciação esportiva, deveriam ser diferentes da imagem de uma ginástica impossível e “espetacular”.


O processo de iniciação e a vivência dessas modalidades, quando desenvolvidas com um tratamento pedagógico adequado, vão enfatizar as movimentações básicas da criança, como os movimentos fundamentais locomotores, manipulativos e estabilizadores, o que é totalmente possível para crianças a partir de 2 anos de idade.


Em relação à Ginástica, observou-se que há um desconhecimento da efetividade que seus fundamentos básicos propiciam à formação do educando. Permanece ainda a ideia de que este esporte é de alto nível técnico, composto de elementos de difícil execução, com finalidades de competição ou de demonstração.


O principal motivo do desânimo ou da falta de visão sobre as oportunidades de aprimoramento motor que os elementos fundamentais das modalidades gímnicas podem proporcionar é o desconhecimento dos professores, que se portam como leigos e, muitas vezes, com uma visão elitista e deficiências crônicas em sua formação profissional:


Essa visão acaba por afastar o futuro profissional de oferecer esse conhecimento aos seus alunos das escolas, primeiramente por considerar de difícil execução os elementos que constituem esses esportes, pela forma com que foram desenvolvidas essas disciplinas em sua formação, e num segundo momento pela falta de aparelhos e condições que normalmente a maioria das escolas oferece. Estes fatores dificultam, senão impedem, o desenvolvimento da Ginástica na escola, pois o professor tem uma visão limitada e pouco criativa das possibilidades de adequação dos conhecimentos gímnicos numa perspectiva pedagógica e de vivência desses conhecimentos pelo aluno.


Atualmente, a disciplina Ginástica existe em formatos variados na grade curricular dos cursos de Educação Física, sendo que as modalidades de ginástica artística e ginástica rítmica “ocupam uma grande parte da carga horária destinada à área da Ginástica na formação dos professores”.
Mesmo quando os profissionais de educação física são preparados para a GR e GA, durante a graduação, na maioria das vezes observa-se que não há uma transferência do que foi aprendido para a sua efetivação na escola, devido à visão tecnicista dos próprios docentes: […] o maior enfoque dado nos Cursos de Graduação é para os aspectos relacionados ao treinamento dessas modalidades, ressaltando a técnica, o regulamento, o treinamento, o que estaria direcionado à atuação em clubes, junto a equipes competitivas e não à atuação na escola onde os aspectos pedagógicos deveriam ter mais destaque.


Quando os professores de Educação Física buscam um aperfeiçoamento em cursos de atualização na área escolar, e se deparam com módulos que apresentam a ginástica como uma possibilidade na escola, geralmente se reportam aos docentes de Ginástica de seus cursos de graduação de uma forma negativa, pois o enfoque que era dado ressaltava sempre uma única concepção de Ginástica como desporto competitivo. Isso distancia atualmente esses profissionais das modalidades gímnicas, fazendo com que os mesmos não desenvolvam na escola conteúdos gímnicos com seus alunos. Sobre essa questão apontada na formação de professores, na qual muitas vezes é ensinada como um aspecto apenas técnico:

Uma […] necessidade era encontrar um corpo teórico de conhecimentos fora dos métodos tradicionais de ensinar habilidades desportivas, pois estes já tinham procedimentos didático-pedagógicos comprovados pelo uso. Portanto, se utilizássemos os procedimentos tradicionais na preparação profissional só teríamos bons técnicos, mas nunca bons professores.
Isso significa que há uma certa ineficácia na formação profissional em relação à criação de alternativas pedagógicas para o desenvolvimento de uma Ginástica possível.


Vivências extracurriculares e experiências de vida anteriores ao ingresso no curso devem também ser valorizadas. Creio que atividades fora da sala de aula, formais ou informais, e principalmente programas de extensão à comunidade que a imediata dialética teoria-prática, devam ser fortemente estimulados pelas instituições de ensino superior. (I3ETTI, 1992, p. 248).


Uma aproximação da realidade escolar poderia ser desenvolvida pelo ato de ensinar GA e GR às crianças da comunidade em geral, por meio de projetos de extensão, nos quais o objetivo maior é aprender como ensinar, possibilitando a busca de adaptações dessas modalidades para as escolas.
2.1 As reais dificuldades do desenvolvimento das aulas de ginástica
O professor que pensa certo deixa transparecer aos educandos que uma das bonitezas de nossa maneira de estar no mundo e com o mundo, como seres históricos, é a capacidade de, intervindo no mundo, conhecer o mundo. (FREIRE)


Em uma pesquisa sobre dificuldades dos professores em aulas de ginástica, os professores colocaram como objetivos ideais para superação:

Aprender a forma mais adequada de trabalhar com a Ginástica e apresentar aos alunos atividades diferenciadas daquelas com que eles estão acostumados;

Enriquecimento teórico e prático relacionado a esse conteúdo;

Adquirir condições de ensinar o básico da Ginástica, mesmo sem ter tido vivências anteriores no esporte;

Adquirir conhecimento maior da Ginástica e de subsídios para a aplicação.

O diagnóstico mostrou que muitos professores sabem como iniciar o ensino dos movimentos básicos, principalmente os rolamentos, mas não conseguem elaborar procedimentos que possam facilitar o aprendizado dos elementos fundamentais da Ginástica. Há dificuldade em refletir sobre diferentes formas de ensinar, até mesmo, os movimentos básicos, sendo que as propostas de ensino estão sempre voltadas para a técnica do exercício, isto é, corrigem detalhes técnicos do movimento logo num primeiro momento da execução dos alunos, impedindo uma vivência maior. Com isso, rapidamente esgotam o conteúdo gímnico, pois não conhecem outras possibilidades de trabalhar com o mesmo conteúdo, deixando de oferecer muitas dicas de aprofundamento.


Outro problema encontrado nessa prática, relacionado ao conteúdo, foi a dificuldade em estabelecer uma hierarquia na aprendizagem dos elementos, oferecendo conteúdos inadequados quanto aos graus de dificuldade em relação às faixas etárias. Desse modo, demonstraram um desconhecimento sobre o nível de complexidade dos movimentos gímnicos, gerando como consequência a desmotivação de seus alunos.


Para se desenvolver um conteúdo gímnico é preciso conhecer todas as suas possibilidades de aplicação, e a partir disso, conseguir adaptá-lo para diferentes objetivos e locais:

[…] os conteúdos tradicionalmente inseridos nos currículos escolares são aqueles nomeados […], esportes, danças, ginásticas, lutas, jogos e brincadeiras. Exige-se, contudo, um outro trato pedagógico sobre eles, capaz de produzir uma cultura escolar de movimento que supere a simples prática dos conteúdos e os perceba como conhecimento gerado a partir de manifestações humanas contextualizadas e que, como tal, podem ser vivenciados, apropriados e reinventados subjetiva e coletivamente pelos autores/atores sociais da escola‖.


Muitos professores não oferecem uma visão crítica da cultura esportiva na Educação Física e, sim, refletem o esporte que vemos na nossa sociedade como “produto cultural” da mesma:

[…] o esporte gera uma redução da complexidade • de movimento, que é copiada irrefletidamente pelas aulas de Educação Física escolar. Durante a formação profissional, os acadêmicos copiam cegamente a concepção do esporte. Essa ideologia determina a realidade do movimento, sem, no entanto, refletir sobre as consequências sociais ..que estão ligadas a esse processo. Constitui-se um círculo vicioso entre professores, acadêmicos e concepção de esporte nas escolas‖.


Os Parâmetros Curriculares Nacionais abordam as questões de conteúdos escolares, compreendendo-os de maneira mais abrangente do que uma simples transmissão de conhecimento:

É importante deixar claro que, na escolha dos conteúdos a serem trabalhados, é preciso considerá-los numa perspectiva mais ampla, que leve em conta o papel, não somente dos conteúdos de natureza conceitual que têm sido tradicionalmente predominantes, mas também dos de natureza procedimental e atitudinal‖.


É preciso desenvolver políticas de valorização dos professores, visando à melhoria das condições de trabalho e salário, assim como é igualmente importante investir na sua qualificação, capacitando-os para que possam oferecer um ensino de qualidade, ou seja, um ensino mais relevante e significativo para o aluno. Para isso, é necessário criar mecanismos de formação inicial e continuada que correspondam às expectativas da sociedade em relação ao processo de aprendizagem, estabelecendo metas a curto e longo prazos, com objetivos claros, que permitam avaliar, inclusive, os investimentos. (BRASIL, 1998, p. 38).


O papel da Educação Física Escolar não é oferecer técnicas apuradas ou treinamento de modalidades esportivas, por isso os conteúdos esportivos devem ser explorados como ricas experiências de movimentos. Não se deve focalizar, no ambiente escolar, apenas os gestos técnicos, mas priorizar movimentos que não estão próximos da perfeição técnica dessas modalidades competitivas, mas que fazem parte do processo de aprendizagem do conteúdo como meio de compreensão do mesmo. Isto gera oportunidades atendendo aos diferentes níveis de capacidades motoras dos alunos. O mesmo assunto é abordado por Pires e Neves (2002, p. 71): ….. …


Efetivamente, por centrarem-se na perspectiva da reprodução mecânica de alternativas bem sucedidas de solução para o aprendizado de aspectos técnicos do esporte, as concepções hegemônicas de ensino não priorizam o desenvolvimento de situações didáticas que possibilitem a compreensão das inter-relações sociais que se constroem em sua decorrência, assim como desconsideram a importância da razão argumentativa para a produção de entendimentos consensualmente validados pelo diálogo esclarecido.


É preciso clarear que ensinar gestos esportivos é apenas um aspecto do conteúdo, pois uma aprendizagem vai além do “saber fazer” movimentos técnicos. Muito mais do que ensinar a fazer, o professor deve ser mediador do conhecimento, um agente pedagógico dos temas a serem compreendidos na aula de Educação Física.


Na maioria das vezes, a preocupação dos professores é com os conteúdos procedimentais, esquecendo-se da necessidade de se ensinar “conceitos” para que o aluno compreenda o que está fazendo. Isso se refletia ao indagarmos algumas crianças, das escolas que estavam participando da pesquisa, que não sabiam que o que estavam aprendendo era Ginástica, desconheciam o nome dos exercícios e dos elementos específicos. A compreensão dos alunos sobre o conteúdo da aula depende dos conceitos transmitidos sobre a modalidade que se está ensinando, o que em geral não são transmitidos.


Os conteúdos procedimentais compreendem, também, os processos pelos quais os alunos devem passar para atingirem a técnica perfeita de um gesto esportivo. Ou seja, ensinar procedimento é mais do que ensinar a execução de uma habilidade dentro de uma modalidade de esporte. Ao ensinar o rolar, por exemplo, é possível oferecer um amplo conhecimento sobre as diferentes possibilidades de rolar, formas que a criança pode descobrir a partir da compreensão do significado de rolar. Então, é preciso permitir que a criança explore as diferentes maneiras de rolar o seu corpo a partir das dicas que vão sendo propostas, ultrapassando as formas características de algumas modalidades, como: rolamento de frente e rolamento de costas com suas devidas posturas.


Em outro momento da aula, o professor pode oferecer os gestos técnicos dos rolamentos, facilitando o aprendizado, caso a criança ainda não o tenha descoberto. O que o professor não deve fazer é corrigir, num primeiro momento, detalhes técnicos importantes para rolar de forma perfeita, e nem ensinar todas as possibilidades do rolar que são características da Ginástica.


Os conteúdos conceituais podem ser trabalhados simultaneamente com os conteúdos procedimentais, pois assim o aluno pode compreender o conceito do tema proposto durante o próprio desenvolvimento das aulas. Dessa forma, terá possibilidades de criar diferentes ações sobre o tema. Quando os conceitos não são compreendidos por parte dos alunos, e partem para a realização dos movimentos, provavelmente suas descobertas ficam limitadas. Sabemos que um aluno pode atingir a compreensão de um determinado movimento, por meio de suas próprias ações corporais, isto é, ao realizar o movimento. Algumas crianças apresentam mais facilidade para entender como fazer a partir do momento em que começa a executar. Mas esta não deve ser a única maneira de se ensinar porque também não é a única forma de aprender.


Se um professor pretende ensinar o “Rolar”, seguindo o mesmo exemplo anterior, ele pode iniciar o tema perguntando às crianças “sobre as coisas que rolam”. E, pelos elementos identificados pelos alunos, de acordo com o conhecimento que trazem, o conceito de rolar começa a ser definido. Só, então, as crianças podem experimentar como seu corpo pode rolar, a partir do próprio corpo, ou ainda de algum material a ser usado na aula (arcos, maças, bastão e outros).


No final da aula, o professor faz uma avaliação da aula com as crianças e pode pedir que façam desenhos sobre objetos que rolam, ou também podem falar sobre outras “coisas” que rolam, enfim, fatos do cotidiano e que levem as crianças a um processo de reflexão. Dessa forma, o conceito vai sendo formado, nascido a partir de um conhecimento anterior da criança e vivenciá-lo na aula de Educação Física através do tema “Ginástica”, facilitando a compreensão conceituai do tema. No caso de uma sala de Educação Infantil, talvez a formação do conceito fosse iniciada a partir das vivências corporais das crianças para que então pensassem em objetos que também fazem a mesma ação que o corpo delas. São processos de compreensão de conteúdos conceituais e procedimentais, e a exploração dos mesmos numa ação conjunta.


Os conteúdos atitudinais também são pouco lembrados pelos professores que, muitas vezes, nem percebem as atitudes que estão sendo ensinadas em suas próprias atuações. Com temas da Ginástica no contexto escolar, conforme o método utilizado, é possível desenvolver atitudes cooperativas e de respeito aos diferentes alunos. Cada criança tem a liberdade de criar movimentos de acordo com seus conhecimentos anteriores e com as suas possibilidades, não devendo haver comparação entre os alunos por parte do professor.


O professor deve oferecer às crianças diferentes níveis de complexidade de execução nas propostas de atividades, nas quais até mesmo a criança menos habilidosa, ou com menos experiências anteriores sobre o conteúdo gímnico, possa se sentir capaz de executá-las. Por outro lado, um aluno mais habilidoso deve se sentir desafiado a tentar algo com um nível de complexidade maior. Assim, todas as crianças são respeitadas, evitando-se comparações entre elas, gerando atitudes de respeito e cooperação, atitudes educativas entre os alunos e também na relação professor/aluno.


A partir do curso que foi oferecido, muitos professores, de todos aqueles que se dispuseram a participar do estudo, resolveram aplicar a Ginástica em seus conteúdos curriculares nas escolas em que aluavam. Mesmo com todos os problemas relacionados à formação insuficiente dos profissionais, foi possível observar o desenvolvimento das Ginásticas sendo ensinado para muitas crianças.


Foram feitas observações, de nossa parte, da dinâmica desenvolvida nas aulas, bem como dos acontecimentos em relação às dificuldades que ali emergiam. Todos esses dados foram coletados, analisados e interpretados à luz do que nos aponta a teoria.


Esse estudo permitiu perceber que a baixa frequência de conteúdos da GA e da GR nas escolas deve-se, não apenas à falta de condições físicas para seu desenvolvimento, pois, exatamente conforme já foi deflagrado por pesquisas anteriores, muitas vezes, o professor possui material de ginástica na escola, tem espaço adequado para aplicá-la e, mesmo assim, não desenvolve esse tema em suas aulas de Educação Física, por não conhecer essas modalidades. Além disso, mostrou que o que impede os professores de desenvolverem essas modalidades esportivas em seus conteúdos é o medo de machucar as crianças por não saberem a forma correta de segurar nas acrobacias, por não terem vivenciado esses fundamentos em suas trajetórias acadêmicas. Observamos, também, que a referência de ginástica que a maioria dos professores têm é de uma modalidade competitiva, vista nos grandes torneios.


Muitos professores manifestaram a importância da Universidade propor diferentes cursos de atualização, enfatizando o prazer que lhes deu ter participado dessa pesquisa:


Quantas ‘sementes’, a partir de agora, com toda elucidação dos conteúdos abordados, vão germinar. Basta regar e ter a certeza que a florada será grande. Com a explanação, várias dúvidas foram tiradas e, com certeza, nossos trabalhos futuros serão bem mais direcionados e pautados.

Pessoalmente conheci novos autores e novas propostas de trabalho. Foi muito bom também por trazer novos modos de se trabalhar, de autores recentes ou de novas metodologias baseadas em autores mais antigos; Eu achei uma pena a Ginástica Rítmica ser apenas um dia, pois eu não tive nenhuma noção na .faculdade e tenho algum material na escola (maças e bolas), porém eu estarei em contato para tentar passar alguma coisa para meus alunos. Por favor, não me abandonem! (grifo nosso) Em face dessas colocações, sentimos necessidade de disseminar esse conhecimento que foi transmitido e amplamente discutido no curso, apresentando sugestões para a implantação da GA e da GR nas aulas de Educação Física como diretrizes de ação pedagógica, sugerindo alternativas em relação a três tópicos no conteúdo dessas modalidades: conteúdos desenvolvidos em cada aula, objetivos propostos para os conteúdos de cada aula e educativos para o aprendizado dos exercícios.


2.2 Ginastica Artística


Na GA essa divisão em ações é pautada nas doze ações motoras básicas dessa modalidade pensadas por Leguet (1987, p. 13):

Cada ação básica apontada por esse autor possibilita uma infinidade de outras ações, trabalhadas de forma isolada ou combinada, explorando ou direcionando cada ação nos diferentes aparelhos dessa nodalidade, dependendo da faixa etária e dos conhecimentos anteriores dos alunos.


2.3 Ginástica Rítmica


A GR é baseada nas ações que aparelhos dessa modalidade possibilitam e foram sistematizadas, conforme apresentação abaixo, por Foleclo (1995, p. 26-30):

Arco: rotar, rolar, lançar, arrastar (ação complementar), movimentar em oito, prensar (ação complementar), circundar, passar sobre, balancear, passar por dentro, quicar (ação complementar).

Bola: lançar, quicar. rolar, equilibrar, prensar (ação complementar), movimentos em oito, circundar.

Corda: saltar, quicar (ação complementar), saltitar, arrastar (ação complementar), movimentar em oito, pegadas e solturas, envolver o corpo (ação complementar), dobrar (ação complementar), circundar, balancear, formar figuras (ação complementar), lançar, girar,

Fita: espiral, impulsos, escapadas, envolver no corpo (ação complementar), dobrar (ação complementar), segurar a ponta da fita (ação complementar), lançar, movimentar em oito, circundar, serpentina,

Maças: molinetes, rotar, lançar, circundar, bater, pequenos círculos, rolar (ação complementar), balancear.


Algumas ações de manejo da GR são comuns a todos os aparelhos específicos da modalidade como, por exemplo: circundar, balancear, movimentos em oito e lançar, ou seja, todos os aparelhos podem ser circundados, balanceados, movimentados em forma de oito e lançados, podendo dizer que essas, então, seriam as ações mais básicas de manejo da GR, pois podem ser encontradas em manejos de quaisquer dos cinco aparelhos: Arco, Bola, Fita, Coreia e Maça3.


Todas essas ações podem ser ensinadas de maneira lúdica, desenvolvidas por meio de muitas brincadeiras com a intenção de conquistar os alunos à prática.


2.4 Ações básicas da Ginástica Artística e Ginástica Rítmica numa mesma aula


Algumas ações básicas podem ser encontradas nas duas modalidades gímnicas apresentadas nesse texto, e por esta razão podem acontecer numa mesma aula, como por exemplo: Rolar (ou girar sobre si mesmo), tanto o corpo pode rolar em diferentes materiais e locais e de diferentes formas e posicionamentos como pode-se rolar algum material como o Arco, a Maça, a Bola, ou ainda rolar o corpo e rolar o aparelho ao mesmo tempo.


A união das duas modalidades, expressadas numa mesma ação motora básica, auxilia na compreensão da ação contemplada nessa aula, pois os alunos, além de vivenciarem os movimentos com seus corpos, podem transferir esse conhecimento para outros contextos e/ ou materiais, como o manejo de aparelhos, facilitando a compreensão do conceito da ação.
Os conteúdos podem ser organizados de maneira que, nas séries iniciais, sejam exploradas as ações de forma isolada, com diferentes materiais e locais, e, a cada novo ciclo ou série, possa ser aumentado o nível de complexidade das ações, combinando umas com as outras.


2.5 A definição dos objetivos de cada aula


É importante no planejamento que os objetivos das aulas estejam claros e que sejam possíveis de serem atingidos, pois, muitas vezes, objetivos são colocados de forma generalizada, distanciando-se do cotidiano das aulas. Eles servem para auxiliar o professor na mediação, na condução da aula, pois utilizando métodos mais abertos, o professor sabe aonde quer chegar, mas o caminho trilhado no decorrer da aula eleve levá-lo a atingir as metas traçadas.


Se o objetivo de uma aula é ensinar o aluno a “Saltar com impulsão e aterrissagem nos dois pés” significa que, ao término da aula, ele deve “ser capaz de executar os saltos básicos da GA e da GR que iniciam sua impulsão com os pés unidos e aterrissam da mesma forma”. Portanto, desde a distribuição dos materiais disponíveis no ambiente proposto para a aula, como os processos escolhidos para o seu desenvolvimento, devem visar à estimulação da aprendizagem de saltar. Posteriormente, pode-se direcionar a aprendizagem dos saltos determinados.


Ao final da aula, há o momento da tomada de consciência sobre o que foi aprendido, isto é, quando os alunos refletem sobre o que foi feito e a forma como foi desenvolvido o trabalho. Nesse momento, o professor pode verificar se os objetivos de ensinar a execução dessa ação foram alcançados pelo grupo, analisando até que ponto houve compreensão do ato de saltar. Caso não tenha sido alcançado, o objetivo pode ser retomado em outras aulas, de formas diferentes daquelas que foram trabalhadas.


2.6 Educativos para o aprendizado dos exercícios


Os professores sempre se demonstram interessados em aprender exercícios educativos, que são atividades que visam a facilitar o aprendizado, por parte de seus alunos, de determinados movimentos permitindo aulas mais dinâmicas.


Os educativos servem como processo do aprendizado de movimentos em diferentes modalidades esportivas. Na GA e na GR eles podem ser infinitos, pois além dos tradicionais, conhecidos por vários professores, que são utilizados em diferentes locais da mesma maneira e para o mesmo fim, existe a possibilidade dos profissionais criarem os seus próprios educativos específicos para cada objetivo. Para isso, é preciso analisar o exercício que se quer ensinar, compreendê-lo e saber quais as dificuldades das crianças para executar o movimento proposto. Os educativos são criados para:
dividir o exercício em partes e facilitar o aprendizado dele, ensinando cada parte do movimento de forma separada.

Por exemplo, para ensinar o rolamento de costas, é possível dividi-lo em algumas partes: primeiramente, adota-se uma posição do corpo que facilita o rolar que é a posição grupada (“bolinha”) e, a partir dela, criar adaptações do balançar nessa posição para frente e para trás. Depois, o mesmo movimento, mas quando for para trás vou colocar a palma da mão toda no chão com os dedos voltados para os pés, embaixo do ombro com os cotovelos apontados para o teto. Até esse momento, foram ensinadas as posições de rolar e como deve ser feito o apoio das mãos no momento do rolamento. Em seguida, a criança sai da posição agachada e rola para trás com dois colegas ajudando-a a virar;


utilização do espaço com materiais que facilitem a ação proposta – “ação facilitadora”. Utilizando-se do exemplo anterior – o rolamento de costas ou para trás – ao analisar o exercício é possível observar que o ideal é provocar a elevação do quadril da criança, abaixando seu tronco, deslocando seu centro de gravidade e favorecendo a ação do rolar. A improvisação de um plano inclinado, no espaço em que se aplica a ginástica, apoiando uma madeira até mesmo num degrau de uma arquibancada, colocando um “colchonete fino” sobre a madeira, pode trazer facilitações na execução do rolar. Ou ainda, utilizar o gramado da escola ou da vizinhança, escolhendo um barranco para aproveitar o desnível do solo. Também é possível criar o declive com gavetas de um plinto, apoiando um dos lados da gaveta superior nas outras gavetas e outro no chão, ou ainda construir um plano inclinado dos colchões disponíveis na escola. Além do plano inclinado, o mesmo objetivo é alcançado se a criança subir em um plano mais alto (arquibancada, tampa do plinto etc) e colocar as mãos no colchão colocado ao nível do solo.

utilização do espaço com materiais que dificultem a ação — “ação dificultadora”. Essa atividade serve para que o aluno se esforce mais do que o exercício exige, levando-o ao reconhecimento do esforço necessário para conseguir executar o movimento ou, ainda, para aperfeiçoar sua execução.

O professor precisa detectar qual é a dificuldade do aluno para executar o exercício corretamente, analisando o movimento em suas partes, verificando a fase de sua possível falha. Tanto o espaço como os materiais disponíveis podem ser instrumentos de ação pedagógica para um aperfeiçoamento dos elementos gímnicos.


2.7 Organização das aulas
As tabelas em anexo apresentam uma proposta de sistematização d o trabalho com aulas de Ginástica em escolas, em 4 aspectos que facilitam o trabalho organizativo do professor:


Tabela 1: finalidade de organizar o TEMA, os MATERIAIS, os OBJETIVOS e os DIRECIONAMENTOS de cada aula, facilitando seu desenvolvimento de modo detalhado. Os tópicos auxiliam o professor na definição dos conteúdos que ele precisa desenvolver com seus alunos, a seleção de materiais ele tem à disposição dos alunos e as sugestões de atividades, de acordo com o objetivo da aula. Serve tanto para GA como para GR;

Tabelas 2 e 3: contém sugestões de organização para as aulas de GA e GR, respectivamente, com as ações motoras a serem desenvolvidas durante o decorrer das aulas. Ao professor cabe escolher o tema e, a partir disso, elaborar o direcionamento do conteúdo escolhido. Por essa tabela o profissional pode visualizar as ações que foram trabalhadas nas aulas anteriores e saber se tem se concentrado sempre nos mesmos temas com os mesmos direcionamentos. Pode também auxiliar na elaboração do plano do próximo ano, descrevendo o que já foi trabalhado nos anos anteriores, além de sugerir combinações de ações ou de níveis de complexidade maior;

A quarta sugestão de organização das aulas é um modelo de plano de aula que leva o professor a pensar em cada item proposto para facilitar a aplicação das aulas de GA e GR.


Sugestão de tabela para organização das aulas

Através do estudo dos desafios da ginástica na escola, conclui-se que, mais do que solucionar os problemas de estrutura física das escolas, o maior problema apontado pelos professores se refere à capacitação e ao intercâmbio de conhecimentos. O professor, quando sabe o conteúdo e como ensiná-lo, tem um potencial e papel de transformar suas ideias numa prática possível, especialmente criando outras alternativas para problemas estruturais da escola. O desempenho é ruim quando o professor dispõe de recursos materiais e uma boa infra-estrutura, mas não conhece os conteúdos a serem desenvolvidos.


A capacitação de mais e melhores profissionais é estratégica, compreendendo a construção de conhecimentos técnicos, relacionados aos conteúdos dos diferentes temas da Educação Física escolar, e também das possibilidades de transformação do conhecimento para a escola. Schiavon conclui com a proposta de uma Ginástica possível‖ para a escola, de acordo com os princípios de Russell: Ela não precisa ser uma atividade perigosa, complicada, frustrante, dolorosa e assustadora que, de preferência, você evitaria de imediato. Ao contrário, ela pode ser facilmente transformada em segura, descomplicada e recompensadora por tudo e, ainda, […] conservar o elemento que causa “emoção” – aquela estimulação cinestésica que imediatamente leva os alunos a quererem mais!

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