RAMOS, V.; GRAÇA, A. B . S; NASCIMENTO, J. V. O conhecimento pedagógico do conteúdo: estrutura e implicações à formação em educação física. Revista Brasileira de Educação Física e Esporte, São Paulo, v.22, n. 2, p. 161 171, abr./jun., 2008.

O conhecimento pedagógico do conteúdo (PCK) tem sido estudado em diversas áreas de formação de professores, sendo pouco abordado ainda no campo da Educação Física no Brasil, mesmo no contexto das reformas educacionais de modo geral e mudanças curriculares na graduação em Educação Física. O PCK compreende ―um tipo de conhecimento importante na definição de um corpo de conhecimentos profissionais e auxilia na estruturação das práticas pedagógicas como componentes curriculares na formação de professores de Educação Física‖.


Uma das grandes questões nas pesquisas educacionais versa sobre os conhecimentos que o professor necessita dominar para poder ensinar o que muitos investigadores denominam ―conhecimento de base‖, que permite ao professor realizar um bom ensino ou para alcançar um estágio de competência no ensino. A expressão conhecimento de base‖ tem sua origem na Sociologia do Trabalho ao tratar formas de organização das profissões e de suas características essenciais que definem determinada profissão. No caso dos professores, com as reformas educacionais nos Estados Unidos da década de 1980, a profissionalização dos professores era uma das formas de elevar o status deste profissional na sociedade, justificada pela ideia de conhecimento de base e de responsabilidade profissional, bases para a realização de diagnósticos educacionais e de tomada de decisões sobre estratégias pedagógicas mais adequadas diante de determinadas situações-problema.


O conhecimento de base é o conhecimento útil na definição das formas de aprendizagem e ensino mais adequadas para diferentes problemas e indivíduos. Ramos cita Shulman que estabelece sete categorias de conhecimento de base para o ensino, contemplando: o conhecimento do conteúdo, o conhecimento pedagógico geral (que são os princípios ou estratégias de gestão e organização de classe, úteis para ensinar o conteúdo), o conhecimento curricular (referente ao conhecimento do professor para selecionar e organizar os programas, bem como os meios que dispõe para isso), o conhecimento pedagógico do conteúdo (que é uma amalgama ou combinação especial entre conteúdo e pedagogia, típico do professor), o conhecimento dos alunos e de suas características, o conhecimento dos contextos educacionais (ambiente de trabalho, região e características culturais da comunidade) e o conhecimento dos fins educacionais (valores sociais, propósitos e bases filosóficas e históricas).

Shulman destaca que o conhecimento pedagógico do conteúdo (PCK) é o que distingue entre o conhecimento do conteúdo de um especialista de uma determinada área e o conhecimento de um professor nesta mesma área: ―o professor possui um conhecimento especializado do conteúdo que deverá ensinar, tornando-o mais compreensível ao aluno‖ e, também, um conhecimento que é advindo da experiência, da prática docente.


Um problema a resolver é a natureza do PCK: conhecimento mais formal ou mais prático ou a combinação de ambos. Há uma controvérsia entre as correntes que investigam o PCK, versando sobre processos cognitivos de transformação da matéria‖ e os estudos na didática que priorizam o conteúdo e o seu papel no ensino‖. As duas abordagens se baseiam nas últimas concepções epistemológicas sobre o ensino, utilizam métodos qualitativos, se preocupam com a relação conteúdo/aluno e com a implementação do conteúdo de ensino.


No contexto das reformas educacionais, a Educação Física também se depara com a necessidade de superação do paradigma da quantidade da oferta em favor de um modelo que priorize a qualidade da formação‖ inicial na área. Nesse âmbito, o PCK representa um conhecimento típico do professor capaz de mediar a transformação de conhecimentos mais gerais, conceituais, disciplinares, em conhecimentos ou conteúdos programáticos mais compreensíveis aos futuros professores.


Este artigo é dividido em 3 partes:

1) definição do tipo de conhecimento e dos aspectos relevantes para a formação de professores.

2) conjunto de conhecimentos que estão na base da estrutura do PCK, estabelecendo relação com a área da Educação Física.

3) considerações do autor sobre as abordagens apresentadas.


O conhecimento pedagógico do conteúdo


A ideia do Conhecimento Pedagógico do Conteúdo (PCK) surgiu inicialmente a partir de estudos sobre o processo de pensamento dos médicos: a competência para o diagnóstico era um domínio mais específico do que geral e que alguns diagnosticavam melhor que outros. Tais ideias foram aplicadas a outras áreas e contribuíram com a implementação
das reformas no ensino de formação profissional, com a temática do conteúdo em contexto.


Ramos utiliza a explicação de Shulman sobre o ―paradigma perdido‖, afirmando que é recente a separação entre conhecimento do conteúdo e pedagógico. Na Idade Média o professor ou doutor era aquele que dominava seu ofício e sabia ensinar. Shulman destaca 3 categorias de conhecimento sobre o conteúdo:

1) conhecimento da matéria: relativa à quantidade e organização do conhecimento por si mesmo pelo professor;

2)conhecimento curricular: programas específicos sobre determinado tema, de acordo com os níveis dos alunos e

3) pedagógico : transformação da matéria tornando-a compreensível ao aluno. o conhecimento pedagógico do conteúdo é o conhecimento
sobre como ensinar um conteúdo ou tópico a um grupo específico de estudantes em um específico contexto.


Ao utilizar o PCK, o professor mobiliza uma série de recursos úteis, tais como representações, analogias, ilustrações, exemplos, explicações e demonstrações que tornam mais fácil a aprendizagem de certo tópico pelos alunos, de modo a combinar conteúdo e pedagogia. Um professor expert é aquele que conduz um processo de aprendizagem de forma natural, trazendo a complexidade de forma fácil para que o aluno
aprenda, selecionando os conteúdos mais adequados considerando o contexto do aluno e suas dificuldades de aprendizagem, tornando, enfim, o ensino mais efetivo.


A proposta do PCK tem como principal resultado uma renovação nas possibilidades do professor quanto ao aperfeiçoamento de sua capacidade de pensar o ensino e criar novasformas de obter, selecionar e organizar os conteúdos. Isto leva a considerar 2 modelos de conhecimento do professor: integrativo e transformativo (Figura 1).


No modelo integrativo, inexiste o PCK e o conhecimento do professor depende do contexto de utilização do conteúdo e da forma de ensino, havendo uma integração ou sobreposição dos 3 componentes do conhecimento pedagógico do conteúdo: matéria, pedagogia e contexto.

Figura 1: Modelos de conhecimento do professor


No modelo transformativo o PCK é a síntese de todos os conhecimentos necessários para a efetividade do ensino: é a transformação da matéria, do conhecimento pedagógico e do contexto numa forma específica de conhecimento‖.


Ramos explica melhor: ―Enquanto no modelo integrativo para o ensino, os elementos (conhecimento da matéria, pedagógico e contextual) são evidenciados e tomam uma forma específica à medida que a prática de aula exige (a decomposição destes componentes pode ser realizada através de um processo simples), a descoberta destes componentes no modelo transformativo torna-se um processo mais complicado, o conhecimento elaborado é mais potente do que suas partes constituintes‖.


Mesmo que o modelo transformativo seja mais positivo em seus resultados, alguns autores acreditam que o modelo integrativo é mais útil na formação de professores, para que estes entendam a base da construção do PCK.
A estrutura do conhecimento pedagógico do conteúdo e a educação física
Na figura 2 é apresentada uma organização do conhecimento pedagógico do conteúdo em seus elementos de conhecimento da matéria, conhecimento pedagógico geral e conhecimento do contexto.

A fundamentação de tal estrutura encontra-se na Psicologia Cognitiva que considera que o conhecimento é organizado por estruturas cognitivas abstratas ou redes de conhecimentos, em 3 formas: declarativa (semântico), processual (memórias de episódios) e condicional.


Aplicando ao campo da educação física, surgem alguns exemplos.


1) conhecimento declarativo, de conteúdo ou da matéria: conhecimentos disciplinares, formais, informativos, como aqueles elaborados pela Biomecânica, Fisiologia, Teorias de Aprendizagem Motora ou Desenvolvimento Humano, Teoria do Treino Desportivo

2) conhecimento processual: conhecimento pedagógico do conteúdo, possibilitando a adaptação do conhecimento declarativo ao nível de compreensão e desenvolvimento dos alunos. Combina o conhecimento declarativo com o entendimento pedagógico que o professor possui dos alunos dentro de um contexto específico e real de aula.


Na estrutura do conhecimento pedagógico do conteúdo, o primeiro elemento é o conhecimento dos propósitos para o ensino ou dos fins educativos, tendo em sua base os valores pessoais atribuídos pelo professor à sua prática de ensino. Os propósitos têm valor avaliativo e influenciam a decisão sobre o que é útil e essencial no processo ensino-aprendizagem, ou seja, têm impacto sobre os demais componentes do PCK (Figura 2). Já o conhecimento curricular do conteúdo inclui ―o conhecimento dos recursos disponíveis para estruturar uma determinada matéria para o ensino, assim como o ajustamento da matéria, tanto horizontal quanto verticalmente nos programas‖, determinando a sequência dos conteúdos e os níveis de complexidade das atividades/tarefas

Na área da Educação Física, o conhecimento curricular do conteúdo é fundamental no ensino dos jogos desportivos coletivos, em uma perspectiva interacional. Alguns modelos de ensino de jogos coletivos mais comuns incluem: ensino para compreensão, desenvolvimento do conteúdo dos jogos, educação desportiva e competência nos jogos de invasão.
Alguns pesquisadores apontam a demanda de formar jogadores inteligentes, com capacidade de decisão e de adaptação às diversas situações de jogo. Desse modo, são utilizadas técnicas de ensino não diretivas, estimulando a descoberta e a criatividade e um papel mais ativo dos jogadores em seu processo formativo.


A importância dos modelos curriculares consiste na oferta de uma estruturação que ―[…] permite conjugar o conhecimento dos conteúdos com uma perspectiva pedagógica de propósitos e processos de ensino e aprendizagem, papéis do professor e alunos, características das tarefas e das relações sociais na aula‖.


Na situação concreta de aula, o conhecimento curricular do conteúdo pode ser identificado quando o professor, deliberadamente, altera os conteúdos (ex. regras de jogo) para ressaltar a aprendizagem de uma habilidade particular ou para introduzir uma nova tática no jogo.


O conhecimento das estratégias refere-se às formas de ensinar: demonstrações, explicações, analogias, metáforas, exemplos, tarefas de aprendizagem ou exercícios.

O professor deve saber quando utilizar determinada metodologia e conteúdo, na situação real de aula, de quando utilizar um conhecimento declarativo e processual, caracterizando, portanto, um conhecimento condicional. O conhecimento das estratégias é central na tomada de decisões para ensinar ―determinado conteúdo, para certas crianças e no tempo certo‖.


O conhecimento dos alunos: ao ensinar algum tópico, o professor deve saber o que os seus alunos já aprenderam sobre o tema, antecipando eventuais dúvidas. Ter consciência que os problemas educativos são incertos, singulares, instáveis, complexos e envolvem conflitos de valores pessoais e culturais, de modo que não é possível a determinação de uma teoria científica única que identifique com exatidão a forma de abordar as situações de aula detectadas‖, e de que o ensino não é um processo de transferência mecânica, linear, da teoria para a prática. Os eventos na sala de aula possuem um contexto ecológico e histórico e de confronto de interesses entre os alunos e são marcados pela multidimensionalidade, simultaneidade, imediaticidade, imprevisibilidade e exposição pública.


A questão central colocada por Ramos é a ―capacidade do professor para refletir a respeito das fontes de conhecimentos que tem a sua disposição, verificando por exemplo, pontos comuns entre um conjunto de teorias, de modo que possa fundamentar-se para atender as contingências da aprendizagem‖. Nas relações entre Pedagogia e Educação Física, adota-se com frequência a perspectiva construtivista, que possui alguns elementos essenciais: o indivíduo para aprender deve estar ativamente engajado na construção do seu próprio conhecimento; o conhecimento ou conteúdo que está sendo ensinado deve ser ligado ao conhecimento prévio do aluno obtido através da experiência, a fim de ter algum significado para o aluno‖.


O significado atribuído ao conhecimento tem conotação social, cultural e é limitado temporalmente. Já o conhecimento dos alunos, integrante do PCK, exige do professor uma nova postura de identificar como cada aluno aprende em contextos singulares. Para isto, o professor deve articular seus conhecimentos adquiridos ao longo de sua trajetória e vivências pessoais e profissionais, acadêmicas e teóricas.


Considerações finais


Em suma, o PCK é a combinação de conhecimentos formais ou proposicionais que o professor domina, mas que só se constitui à medida que uma situação real de ensino se realiza. Na situação de sala de aula, o PCK repercute diretamente na aprendizagem, considerando elementos contextuais e o próprio aluno e reduzindo a distância entre teoria e prática, entre pesquisa, prática profissional e ensino.


Duas linhas de pesquisa têm sido desenvolvidas em relação ao PCK:

1) estudos sobre a formação e a prática de professores competentes.

2) elaboração e reorganização do PCK durante a formação inicial em Educação Física. O

s resultados comuns dessas linhas de pesquisa é ressaltar a experiência pessoal do professor e a forma particular como este interpreta e utiliza esta experiência. Outro resultado é a mudança curricular da graduação em Educação Física de modo a propiciar a abordagem do PCK e das experiências pedagógicas, objetivando desenvolver o conhecimento processual.


Ramos conclui:

Considerando que planejar e realizar situações de ensino apropriadas significa ficar atento às formas de representação da matéria (como metáforas, analogias, exemplos, demonstrações e iniciativas potencialmente esclarecedoras), o conhecimento pedagógico que o futuro professor necessita saber para ensinar não pode estar restrito as aulas de disciplinas curriculares, como a didática, pedagogia ou metodologia do ensino, como ocorre frequentemente nos currículos dos cursos de formação inicial em Educação Física.

De outro modo, todas as ações do professor formador devem pressupor uma transformação pedagógica do conteúdo, de modo que conteúdo e pedagogia estejam presentes em todas as situações cotidianas de ensino de cada professor, em cada disciplina curricular.

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