PALMA, A. At ividade física, processo saúde doença e condições sócio econômicas. Revista Paulista de Educação Física, São Paulo, v. 14, n. 1, p. 97 106, 2000.

RESUMO


Apesar da clareza, encontrada em diversos estudos, a respeito dos benefícios que a atividade física regular proporciona à saúde, pode ser questionável a interpretação que se faz destes achados. De um modo geral, a visão hegemônica aponta para um viés biológico e individualizado da doença. Por outro lado, já existem, em várias pesquisas, fortes evidências das relações entre condições sócio-econômicas e estado de saúde. Dentro destas evidências, encontram-se, também, as associações com a prática de atividade física regular. O objetivo deste estudo, então, foi organizar uma revisão da literatura sobre as condições sócio-econômicas, o processo saúde-doença e a prática da atividade física. O trabalho, assim, chega a conclusão de que a atividade física está bastante associada ao estado sócio-econômico e que os programas de intervenção em educação física, no campo da saúde pública, devem ser revistos.


INTRODUÇÃO


A atividade física regular é social e cientificamente reconhecida pelos seus efeitos saudáveis, auxiliando no combate ou prevenção de diversas doenças: cardiovasculares, obesidade, diabetes, osteoporose e outras. O sedentarismo é identificado como o principal fator de risco. A relação entre saúde e atividade física traz 2 inquietações:

1) visão estreita de saúde: ausência de doenças e

2) não identificação de grupos desprivilegiados. Para a OMS, a saúde é “um estado de completo bem-estar físico, mental e social e não apenas a ausência de doença ou enfermidade”.


Na visão reducionista de saúde:

a) as doenças decorrem de determinismos biológicos;

b) o foco é o indivíduo, culpabilizado pela doença; e,

c) a ausência de doenças é o indicador da saúde. Considerando o processo saúde-doença determinado biologicamente, caberia ao indivíduo alterar seus hábitos ou estilos de vida para ser/estar saudável.

Mas a situação é mais complexa, o que leva a uma outra definição de saúde expressa nas conclusões da VIII Conferência Nacional de Saúde: “saúde é o resultante das condições de alimentação, habitação, renda, meio ambiente, trabalho, transporte, emprego, lazer, liberdade, acesso e posse da terra e acesso aos serviços de saúde. É, assim, antes de tudo, o resultado das formas de organização social da produção, as quais podem gerar grandes desigualdades nos níveis de vida‖ (Minayo, 1992, p.10). Para Canguilhem (1995) a saúde é uma nova dimensão de vida, consistindo em limites de tolerância às infidelidades do meio social dinâmico: agir e reagir, de adoecer e se recuperar.


Gadamer (19977) relaciona a doença à história do indivíduo em sociedade, uma perturbação que o afasta de suas relações vitais habituais. A doença não existe sem a saúde e sem o coletivo. Dessa forma, passa a ter visibilidade a vulnerabilidade de certos grupos sociais, os quais, muitas vezes, não conseguem exercer seus direitos à saúde.


PROCESSO SAÚDE-DOENÇA E CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS


O processo saúde-doença tem sido estudado a partir da saúde coletiva, das causas não biológicas, reconhecendo que os fatores de risco individuais não são suficientes para explicar a morbidade e mortalidade.


Burnley (1998) estudou o efeito das desigualdades ocupacionais na incidência de doenças isquêmicas do coração (Austrália 1969 a 1994), mostrando que as taxas de mortalidade aumentaram entre os trabalhadores químicos e em áreas industrializadas e diminuíram entre os escriturários e nas regiões metropolitanas de serviços, nas cidades do interior e zona rural. Concluiu que, ―além das relações entre as classes sociais com a manutenção de estilos de vida, as diferenças sócio-econômicas denotam a distribuição desigual de recursos e riquezas.


Dressler, Balieiro & Dos Santos (1998) estudaram as diferenças sócio-ecônomicas-culturais a partir de modelos padrão de estilo de vida de grupos sociais: ―favela‖ (classe social mais baixa), ―conjunto habitacional‖ (classe baixa), ―tradicional‖ (classe média baixa) e ―alta classe média‖ em Ribeirão Preto. Verificou-se que a pressão arterial, depressão e percepção do estresse relacionam-se inversamente com a ocupação, com a educação e com o salário.


Mheen, Smith, Hart & Gunning- Schepers (1998) na Grã-Bretanha, mostraram que há uma crescente desigualdade, entre as classes sociais, nas taxas de mortalidade para doenças cardiovasculares, respiratórias, infecciosas e causas externas ou acidentes, sendo determinantes as características da comunidade em que as pessoas vivem, ao invés dos atributos individuais que indicam as condições sócio-econômicas.


Rosengren, Orth-Gomér & Wilhelmsen (1998) a partir dos dados de saúde dos trabalhadores suecos, identificaram que a mortalidade é três vezes maior nos trabalhadores não qualificados do que nos gerentes e altos funcionários. As baixas classes ocupacionais associaram-se com a alta prevalência do fumo, baixa integração social, baixo nível de atividades em casa e fora de casa, baixo suporte emocional, bem como, uma baixa capacidade de percepção da própria saúde.


Na literatura há, portanto, vários estudos que associam as desigualdades sociais aos valores de morbimortalidade. Lynch, Smith, Kaplan & House (2000) mostram que essa relação resulta das políticas e condições sociais que se exercem sobre o coletivo de pessoas, produto do processo histórico-político-econômico, o qual reflete a combinação de exposições negativas, perda de recursos, dificuldade de acesso aos serviços, deficiências de informação, entre outros e depende das das características político-sociais específicas do lugar.


ATIVIDADE FÍSICA E CONDIÇÕES SÓCIO-ECONÔMICAS


Divulga-se que a atividade física regular é importante para à saúde. Nos Estados Unidos, os níveis de atividade física encontraram um platô, enquanto as taxas de obesidade ainda aumentam (Pate, Pratt, Blair, Haskell et alii, 1995). Assim como as condições sócio-econômicas têm uma forte associação com a morbimortalidade e com a prevalência de fatores de riscos para algumas doenças, acredita-se que isto é, também, representativo
para o caso da prática de atividades físicas. As condições sócio-econômicas, também, relacionam-se inversamente com a prática de exercícios físicos.
Um trabalho sobre as representações sociais da relação trabalho/lazer, das trabalhadoras domésticas-diaristas residentes no município de Queimados que trabalhavam na cidade do Rio de Janeiro, foi realizado por Ludmila Mourão (1999).


Devido à baixa escolaridade, segunda jornada de trabalho, tempo de deslocamento para o trabalho elevado, intensidade do trabalho de diarista, no tempo livre dormem ou assistem TV, com uma grande dificuldade de acesso ao lazer. A pesquisa sobre padrões de vida dos brasileiros, do IBGE (1999), mostra que os homens praticam mais atividade física do que as mulheres. Do total de homens, 26% realizam atividade física semanalmente. Para as mulheres os valores correspondem a 12,7%.


Luc Boltanski (1989), ao estudar as relações entre as classes sociais e o corpo, na França, mostra que a prática de atividade física declina conforme decresce a classe social. Outros estudos observaram que os rendimentos e o nível educacional associavam-se inversamente à inatividade física nas mulheres (Diez-Roux et alii (1999). Adams-Campbell, Rosenberg, Washburn, Rao, Kim & Palmer (2000), observaram que a atividade física vigorosa aumentava de acordo com o nível educacional, mas não a atividade física moderada e a caminhada. Contudo, as três formas relacionavam-se à participação de atividade física intensa durante o ensino médio. Os autores sugerem, então, que o hábito de praticar exercício físico é reflexo da prática de educação física na escola.


Ford, Merritt, Heath, Powell, Washburn, Kriska & Haile (1991) constataram que homens com menor status sócio-econômico gastavam mais tempo e energia durante as caminhadas para o trabalho e serviços domésticos, enquanto aqueles de maior status sócio-econômico despendiam mais tempo e energia nas atividades físicas realizadas durante o lazer. Para as mulheres estas diferenças foram ainda mais marcantes.


Mensink, Loose & Oomen (1997) estudaram a associação da atividade física com outros fatores de estilo de vida saudável, na Alemanha. Os autores definiram, a partir do nível educacional, ocupação e rendimentos da vizinhança, um índice que refletia o status sócio-econômico dos indivíduos. Três grupos foram determinados: ―baixo‖, ―médio‖ e ―alto‖ status sócio-econômico. Os autores verificaram que os homens e as mulheres empregados são mais ativos do que os sujeitos desempregados.


Em 1995, Bennett observou, como resultados de seu estudo na Austrália, que todas as formas de exercício no lazer estavam fortemente associadas com o nível de educacional, de tal modo que, os indivíduos com elevada escolaridade tinham maior participação nestas atividades do que os de menor escolaridade. Por outro lado, o grupo formado por homens idosos de baixo nível educacional apresentou maiores taxas de sedentarismo.


Em um estudo sobre a prevalência de atividade física no lazer, Crespo, Keteyian, Heath & Sempos (1996) utilizaram-se dos dados do terceiro survey nacional sobre saúde e nutrição, nos Estados Unidos e chegaram a conclusão de que 22% dos americanos continuam inativos e 34% fazem atividade física de forma irregular durante o tempo de lazer. Estas taxas variaram, no entanto, em dependência aos grupos étnicos ou sexuais. Assim, os maiores valores de sedentarismo foram encontrados em mulheres, idosos, negros e latinos, ou seja, naqueles que, historicamente, parecem ter maior vulnerabilidade social.


COMENTÁRIOS


O rompimento com o enfoque hegemônico se dá pela construção de uma outra concepção de saúde: um direito à cidadania.


Os diversos estudos mostram que o status socioeconômico é um fator que influencia a prevalência de diversos problemas de saúde, em especial as doenças cardiovasculares, a obesidade e o sedentarismo.


O nível educacional, de renda e ocupação, associados às desigualdades sociais constituem fatores facilitadores da prevalência ou que dificultam o acesso aos serviços e informações de saúde.


Todas as variáveis utilizadas para mensurar o status sócio-econômico podem não representar fidedignamente as diferenças ou semelhanças entre os indivíduos. A época e o lugar da pesquisa favorecem a uma não homogeneização dentro de um grupo ou comunidade determinada.

Mesmo com condições econômicas semelhantes, dois grupos podem ter hábitos de saúde e participação em programas de atividade física diferenciados. Nas comparações entre comunidades rurais e urbanas isto parece estar bastante evidente. Porém, mesmo em grupos urbanos localizados em regiões bem distintas, como por exemplo uma favela de Copacabana e uma comunidade do bairro de Santa Cruz, ambos no Rio de Janeiro, têm, decerto, possibilidades distintas para prática de atividade física e higiene‖.


Mesmo com tais dificuldades, os indicadores das condições socioeconômicas são amplamente utilizados e aceitos pela comunidade científica e refletem as diferentes orientações teóricas e suas exigências na condução da pesquisa.

A visão weberiana percebe a estratificação organizada ao redor de três aspectos (vantagem econômica, status e poder). O viés marxista baseia-se nas interpretações dos conflitos e oposições dos interesses das classes sociais, em função da propriedade dos meios de produção (Kaplan & Keil, 1993). Deste modo, os indicadores podem ser aceitos ou rejeitados, de acordo com a orientação teórica compartilhada.


Palma ressalta que a maioria dos estudos desta revisão de literatura foi produzida em países industrializados, onde as diferenças entre ricos e pobres são da ordem de 6,70 vezes, enquanto no Brasil, tais diferenças estão em torno de 32,11 vezes. Portanto as consequências das desigualdades sociais à saúde são ainda maiores no Brasil (PNUD, 1998).


O impacto dos fatores macroeconômicos na saúde pública é alvo de discussão para Kaplan & Lynch 1999) que estudam a influência dos aspectos sociais e econômicos sobre o estado de saúde da sociedade, bem como, sobre a prevenção primária das doenças. ―O enredo de globalização da economia, que provoca alta competitividade, desemprego, insegurança no trabalho, desigualdades sociais, baixa coesão social, etc., poderia estar provocando uma elevada pressão sobre os trabalhadores e, por isso, favorecendo o aumento do estresse, da pressão arterial e das doenças cardiovasculares. Por outro lado, o trabalhador estaria com seu tempo diminuído para cuidar de si próprio, além do maciço programa de marketing desenvolvido para vender cigarros, alimentos do tipo fast food e/ou refrigerantes, os quais, notadamente, favorecem uma pior condição de saúde.


Palma conclui afirmando a necessidade de entender como os fatores socioeconômicos podem ter algum impacto sobre as condições de saúde da sociedade. E aponta o desafio de ―repensar os ―modos de olhar‖ a saúde e permitir àquele que mais precisa, realizar seu direito à prática de atividade física e saúde‖.

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