PAES, R. R. A pedagogia do esporte e os jogos coletivos. In: ROSE JÚNIOR, D. Esporte e atividade física na infância e na adolescência: uma abordagem multidisciplinar. Porto Alegre: Artmed, 2009.

O autor se propõe a debater uma pedagogia dos esportes coletivos, compreendendo o esporte em sentido amplo, partindo do reconhecimento social da prática esportiva e de sua disseminação na sociedade, criando uma “cultura do esporte” e, cada vez mais, fazendo parte do cotidiano da população. Nesse contexto, eventos esportivos mundiais passam a ocupar um lugar de destaque, impactando os espectadores em um contexto global. Uma primeira consideração é que o esporte deve ser entendido como fenômeno sociocultural, portanto passível de transformações ao longo da história. O basquetebol, enquanto modalidade esportiva passou por diversas mudanças desde que surgiu em 1891, tendo como alvo “cestos de colher pêssegos”. A cada conversão, o juiz paralisava o jogo para, com uma escada, retirar a bola. Com o passar do tempo, foi introduzida uma cesta fechada, mas com uma corda para abrir seu fundo e liberar a bola. Um século depois, o aro retrátil com suporte em tabelas de vidro ou fibra de vidro, associada com estruturas hidráulicas. Para o futuro, novas mudanças podem ser introduzidas, salientando a característica histórica dos esportes.

Do mesmo modo, a pedagogia do esporte e os procedimentos didático-pedagógicos também são dinâmicos, com diversos significados e intenções, não se limitando à relação ensino-aprendizagem esportivos, mas ao ensino-vivência-aprendizagem socioesportiva. Assim, para além de seu caráter profissional, abre-se uma perspectiva de alternativa para todos os cidadãos. “O desporto viu-se investido de um crédito extremamente valorizador da sua relevância social, cultural e humana. E, assim, atingiu uma expansão sem par em outros domínios, com índices de crescimento impressionantes, a ponto de este século ser rotulado por muita gente como o estranho século do desporto. O desporto tem sido instrumentalizado para as mais diversas funções e finalidades, numa relação de osmose com o tecido social e com a evolução da civilização e da cultura. Isto é, temos estado a assistir a uma crescente desportivização da sociedade e da vida e a uma desportificação do desporto”.


Atualmente, o esporte tem o status de patrimônio cultural da humanidade, com algumas funções específicas: “conteúdo da educação física no âmbito da escola, conteúdo do lazer, adaptado para portadores de necessidades especiais e no âmbito profissional”. Outro aspecto a ressaltar é o papel do esporte em relação à melhoria da qualidade de vida da população, o que precisa ser fundamentado pedagogicamente para evitar equívocos sobre as expectativas atribuídas ao fenômeno esporte. Por exemplo, pode-se cobrar uma performance atlética em práticas esportivas realizadas em contextos diversos do ambiente atlético. Portanto, quando se planeja a educação física escolar, algumas perguntas devem ser respondidas, para se dar um verdadeiro tratamento pedagógico ao esporte:

“Qual a modalidade a ser ensinada?

Em que cenário?

Quais os personagens desta prática?

E, por fim, quais os seus significados?”

No intuito de fundamentar a proposta pedagógica, Paes aponta 2 pontos relevantes que devem estar equilibrados:

1) aspectos técnicos da modalidade a ser trabalhada em sala;

2) desenvolvimento de princípios, valores e atitudes por parte dos alunos. O professor, na escola ou fora dela, deve partir do interesse imediato do aluno, por exemplo, “fazer cestas, gols, saques, etc.”, mas não se limitar a isto. Os aspectos técnicos, táticos e físicos não podem ser a prioridade na iniciação esportiva. Faz-se necessário trabalhar as dimensões educacionais do esporte, a partir de 2 referenciais: metodológico e socioeducativo. O referencial metodológico deve responder a 3 questões:

O que ensinar?

Quando ensinar?

Como ensinar?

O referencial socioeducativo deve pensar tanto o esporte quanto a pedagogia de forma mais ampla, de modo a facilitar o desenvolvimento do ser humano, respondendo à pergunta: em que medida o esporte poderá contribuir para o processo educacional do ser humano?

A PEDAGOGIA DO ESPORTE E O ENSINO FORMAL

Paes aborda a pedagogia do esporte e dos jogos coletivos, considerando a escola como cenário (educação infantil, ensino fundamental e médio) os alunos como personagens nas diferentes fases de ensino e as modalidades são os jogos coletivos, em diferentes abordagens. O autor toma como eixo de discussão o “processo de ensino-vivência-aprendizagem socioesportiva para crianças e jovens no ambiente escolar”, indicando 4 problemas no campo da pedagogia do esporte.


1) Prática esportivizada: fundamentada nas técnicas (habilidades específicas) de diferentes modalidades, em si mesmas. Consiste na repetição e memorização de movimentos, de forma desvinculada da política pedagógica, impossibilitando o aprendizado de algo novo. É a prática mais comum na escola, atualmente.

2) Prática repetitiva dos mesmos gestos técnicos em diferentes níveis de ensino. Um exemplo muito comum é o voleibol que se repete indefinidamente do ensino fundamental ao médio com as mesmas práticas e gera desinteresse pelas aulas de educação física.

3) Fragmentação de conteúdos, sendo trabalhados os conteúdos de forma desorganizada e descontínua, sem considerar as fases do desenvolvimento do aluno. É fruto da ausência de planejamento tanto na escola quanto fora dela. Na escola, é mais grave, pois a prática esportiva é trabalhada desvinculada do projeto político-pedagógico da escola, resultando em distanciamento entre educação física e as demais disciplinas, causando sérios prejuízos na formação dos alunos.

4) Especialização precoce. É a busca de resultados de desempenho profissional esportivo de curto prazo na escola, orientando a prática esportiva para a competitividade e para a especialização como objetivo dos procedimentos pedagógicos adotados e das modalidades esportivas selecionadas como conteúdo. Isto gera problemas físicos, técnicos, táticos, psicológicos e filosóficos. Este problema é verificado na escola, mas tem maior incidência nos clubes com a criação da categoria “fraldinha”, combinada com a projeção dos pais sobre o futuro esportivo de seus filhos.

Tais problemas incidem de forma negativa na tentativa de dar um tratamento pedagógico ao esporte na escola. Em contraposição aos problemas, Paes propõe 4 aspectos para uma proposta pedagógica adequada para o esporte e jogos coletivos:

1) Esporte: deve ser entendido em sua função “facilitadora no processo educacional, no ambiente escolar”, fazendo sentido quando vinculado ao projeto político-pedagógico e quando priorizado o aspecto lúdico, proporcionando a experiência de conhecer, aprender, gostar, se interessar pela ação esportiva, possibilitando transcender o caráter meramente prático da atividade esportiva. Tal visão do esporte também contribui para a consolidação da educação física como disciplina.

2) Sistematização de conteúdos: refere-se ao planejamento das atividades pedagógicas, para que o esporte seja trabalhado nas situações de aprendizagem de forma organizada e sistematizada, permitindo a avaliação do processo. A sistematização é um pré-requisito do tratamento pedagógico do esporte.


3) Consideração dos diferentes níveis de ensino: deve permitir um desenvolvimento esportivo que não se restrinja a repetições e memorizações de gestos e movimentos.


4) Diversificação: por meio do estudo de diferentes movimentos e modalidades esportivas, os alunos poderão ter maior facilidade de inserção no campo esportivo, ampliando tanto suas potencialidades quanto possibilidades.


Com estes eixos norteadores, pode-se trabalhar os dois eixos de sustentação da proposta político-pedagógica: o referencial metodológico e o referencial socioeducativo. Referencial metodológico. Trata do planejamento e da organização do conhecimento a ser trabalhado, na perspectiva do ensino-vivência-aprendizagem do esporte e dos jogos coletivos. O professor deve trabalhar com os alunos os aspectos lógicos, técnicos e táticos. Do ponto de vista tático há nos jogos coletivos dois sistemas: defensivo e ofensivo, que podem ser abordados na perspectiva da transição.

Ter a posse da bola e perdê-la são situações-problema de inversão e da compreensão da lógica do jogo. Do ponto de vista técnico, devem ser escolhidos fundamentos comuns às quatro modalidades: “domínio de corpo, controle de bola, passe, recepção, drible – reter a posse de bola ou conduzi-la ao alvo do jogo sem cometer violações – e finalização”. Em seguida, o professor deve trabalhar o desenvolvimento das habilidades específicas de cada modalidade e criar atividades para resolver situações-problema relativas ao jogo, com graus crescentes de dificuldade. Referencial socioeducativo: além do enfoque técnico-tático deve ser trabalhado o desenvolvimento da personalidade dos alunos, em suas diferentes fases evolutivas, entre outros aspectos, a cooperação, participação, convivência, emancipação e coeducação.


Deve-se, em suma, “buscar o equilíbrio entre os referenciais metodológicos (organização pedagógica dos conteúdos) e os socioeducativos (embasamento nos princípios norteadores), tendo em vista a perspectiva pedagógica do ensino-vivência-aprendizagem socioesportiva.
Estratégias de ensino. Há vários facilitadores pedagógicos disponíveis: “exercícios analíticos, sincronizados, específicos e de transição, além de jogos e brincadeiras”, considerando que a origem do esporte está no jogo, fundamental para a aprendizagem do esporte. Para alguns autores, “esporte e o jogo” são reflexos da sociedade com potencial de criar o que é refletido na sociedade, bem como de propiciar o aprendizado de valores e comportamentos.

A Educação Física escolar trabalha diferentes tipos de jogos: pré-esportivos, de regras, cooperativos, adaptados e outros. Paes propõe o “jogo possível” como uma alternativa para equilibrar os referenciais metodológico e socioesportivo, com um caráter lúdico e facilitador do aprendizado interativo de técnica e tática dos jogos coletivos. Por meio do “jogo possível”, o professor “promove intervenções no processo de educação dos alunos, possibilitando-lhes o aprendizado dos fundamentos e das regras, trabalhando em espaços físicos que podem ser adaptados e, com o uso reduzido de materiais, permitindo a integração de quem sabe jogar com quem quer aprender.

Afinal, o aluno não precisa aprender para jogar, e sim jogar para aprender”. O “jogo possível” permite aos professores trabalharem os princípios, valores e atitudes dos alunos, dando oportunidade de um efetivo conhecer e aprender, tendo respeitados seus interesses. Paes destaca que o esporte é importante na escola por vários motivos:

1) O esporte é um dos conteúdos de educação física;

2) O esporte é um fenômeno sociocultural e a escola é uma agência de promoção e difusão da cultura;

3) O esporte é um elemento de justiça social, pois em outras instituições o acesso ao esporte é restrito aos clientes de clubes, escolinhas de esporte e academias.

Na escola, as práticas esportivas deverão ser ofertadas a partir de um planejamento político-pedagógico que considere o nível de desenvolvimento e perfil dos alunos em cada fase do ensino, conforme sugestão abaixo.

“A forma de organização e distribuição de temas não implica uma fragmentação dos conteúdos, mas sim uma tentativa de suprir uma das mais graves deficiências no ensino do esporte nas aulas de educação física escolar, que é a repetição da mesma prática em diferentes períodos escolares. Em síntese, para que o esporte tenha um tratamento pedagógico na escola, deverá não apenas possibilitar aos alunos o desenvolvimento motor (aquisição de habilidades básicas e específicas) e o desenvolvimento das inteligências (destacam-se a corporal cinestésica, espacial, interpessoal, intrapessoal e lógico-matemática), mas também trabalhar a autoestima (reforçando acertos em geral e promovendo intervenções positivas) e, por fim, facilitar as intervenções dos professores no sentido de trabalhar princípios essenciais à sua educação (cooperação, participação, emancipação, coeducação e convivência).”

Conforme Parlebas: “O desporto não possui nenhuma virtude mágica. Ele não é em si mesmo nem socializante nem antisocializante. É conforme: ele é aquilo que se fizer dele. A prática do judo ou do rúgbi pode formar tanto patifes como homens perfeitos, preocupados com o „fair play‟”. Esta afirmação demonstra que o professor de educação física desempenha um papel fundamental na condução do processo educacional, cumprindo a função socializadora.

Paes destaca 3 pontos que o professor de educação física escolar deve estar atento:

1) A educação é uma área de intervenção, e o professor deverá sempre promover intervenções construtivas, positivas, ou seja, mostrar para o aluno o certo e não simplesmente comentar e criticar o errado.

2) O professor deverá sempre incentivar e motivar todos os alunos a praticar esportes. Todas as crianças e jovens têm o direito de aprender e vivenciar o esporte. Não se trata de excluir o talento, mas sim de incluir quem não tem talento.

3) Caberá ao professor de educação física promover e administrar a relação de ensino e aprendizagem do esporte na escola. Para tanto, será necessário valer-se da pedagogia do esporte e não da simples administração e condução da prática esportivizada.


CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pedagogia do esporte é uma das dimensões do contexto do esporte e deve estar adequadamente articulada com a escola em seus diferentes níveis de ensino, possibilitando um equilíbrio no tratamento pedagógico entre os aspectos metodológicos (técnicas e táticas), e os aspectos socioeducativos (valores, comportamentos e atitudes).

Paes observa que “a prática descontextualizada do esporte na educação formal e não formal pode reduzir as suas possibilidades, limitando as suas funções. A subutilização do esporte pode até mesmo torná-lo uma prática de caráter simplista e de exclusão. No entanto, é preciso deixar claro que esse problema não pode ser atribuído ao fenômeno esporte, mas à falta da consideração de importantes elementos, aqui apontados para compreendê-lo melhor”.

O autor destaca que, tanto na escola ou fora dela, o esporte se relaciona com um contexto educacional, apontando o risco da busca precoce da plenitude atlética e o desmerecimento da formação cidadã. A pedagogia do esporte deve propiciar aos alunos a experimentação dos diferentes movimentos e modalidades esportivas, de forma planejada, organizada e adequada ao nível de ensino e ao perfil do aluno.

A pedagogia do esporte deve acompanhar a evolução do esporte enquanto fenômeno sociocultural em escala mundial, permitindo uma pluralidade de funções e intervenções em sala de aula e fora dela. Dentre os princípios a serem trabalhados na prática pedagógica estão a participação e a inclusão social, em todo o processo. Com isto, o professor pode trabalhar o individual e o coletivo, de modo a multiplicar o potencial de competências e habilidades dos alunos de forma multidimensional.


Dessa forma, o aluno se forma um cidadão consciente e participativo, vivenciando, na teoria e na prática, os princípios de convivência, cooperação e solidariedade, a fim de criar novas jogadas que se tornarão, a partir da visão pedagógica aqui apresentada, desafios estimuladores, permitindo ao esporte ser reconhecido como o maior fenômeno humano das últimas décadas”.

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