NASCIMENTO, P. R. B.; ALMEIDA, L. A tematização das lutas na Educação Física escolar: restrições e possibilidades. Movimento: revista da Escola de Educação Física, Porto A restrições e possibilidades. Movimento: revista da Escola de Educação Física, Porto Alegre, v.13, legre, v.13, n.3, p. 91n.3, p. 91–110, set./dez. 2007. 110, set./dez. 2007.

Trabalhar ―lutas na educação física escolar é se deparar com restrições e relativizar possíveis ―empecilhos‖ para uma abordagem pedagógica do tema. O professor de educação física de ter consciência da complexidade da questão e selecionar abordagem teórico-metodológica mais adequada em sua prática pedagógica ao trabalhar ―lutas no contexto escolar.


1 INTRODUÇÃO


Este artigo busca ―instigar a construção de um corpo de conhecimentos significativos, relacionados ao trato do conteúdo de lutas, pela disciplina curricular de Educação Física na escola‖, sendo tal desafio uma tarefa de construção coletiva entre os profissionais da área, mudando suas concepções e práticas pedagógicas para tratar tal conteúdo e enfrentar as restrições correspondentes. Os autores analisam, para isto, a prática de professores de Educação Física, um sem vivência das lutas e outro com experiência no ensino de capoeira.


2 ARGUMENTOS RESTRITIVOS EM RELAÇÃO AO TRATO DA LUTA NA DISCIPLINA DE EDUCAÇÃO FÍSICA


A incorporação de novos temas e conteúdos na disciplina Educação Física escolar ocorre de forma intensa e rápida, resultante das mudanças de paradigmas que introduziram o conceito de ―cultura‖ na disciplina possibilitando novas interpretações sobre o corpo, o movimento e a atividade física na sociedade contemporânea. O tema ―lutas‖ surge nesse contexto, objeto de questionamentos e de posicionamentos diversos entre os profissionais. Introduzido na escola, na maioria das vezes, fora do currículo oficial da educação física, pela ação de terceiros que realizam oficinas de lutas (capoeira, artes marciais, etc.), totalmente desvinculadas do projeto político-pedagógico da escola e sem diálogo com os professores de educação física.


A pesquisa feita pelos autores, ―buscou verificar as concepções dos professores de Educação Física sobre o conteúdo de lutas a ser tratado pela disciplina de Educação Física, intervenções já realizadas e, como acreditam que este tema deve ser tratado por esse componente curricular […]. Foram encontradas posições favoráveis no trato pedagógico do tema, bem como argumentos restritivos à introdução das lutas no currículo oficial, em decorrência de 2 fatores:

1) a falta de vivência pessoal em lutas por parte dos professores, tanto no cotidiano de vida, como no âmbito acadêmico;

2) a preocupação com o fator violência, que julgam ser intrínseco às práticas de luta, o que incompatibiliza a possibilidade de abordagem deste conteúdo na escola.


3 PERSPECTIVAS TEÓRICO-METODOLÓGICAS OU CAMINHOS QUE PERPASSARAM O ESTUDO PROPOSTO


Assim como os demais temas da disciplina educação física, a abordagem das lutas deve compreender os aspectos de autonomia, criticidade, emancipação e a construção de conhecimentos significativos, relacionando este tema com a cultura corporal de movimento. Esta é entendida como o conjunto de conhecimentos que devem ser tematizados‖ pela Educação Física podem municiar, pedagogicamente, para construir possibilidades metodológicas para o trato específico deste tema.


A pesquisa-ação foi realizada com a realização de intervenções na escola, tratando pedagogicamente o tema das lutas na Educação Física, a partir das vivências dos professores da área, considerando o contexto da escola e as possíveis restrições ao próprio desenvolvimento das lutas, não apenas na disciplina Educação Física, mas também na Escola.


4 RELATOS E ANÁLISES


4.1 RELATO Nº 1: A NECESSIDADE DE O PROFESSOR SER ESPECIALISTA OU TER VIVÊNCIAS SUBSTANCIAIS EM ―LUTAS‖: UM DISCUTÍVEL ARGUMENTO RESTRITIVO PARA O TRATO DO TEMA NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR


Este primeiro relato contrapõe o argumento de que o professor de educação física para trabalhar lutas pedagogicamente, precisa ter vivenciado ou ser especialista em alguma modalidade de luta na sua trajetória de formação profissional ou acadêmica. A pesquisa não pretende gerar uma regra universal, mas debater os potenciais e limites de tal argumento.
Grande parte dos professores da área se sentem despreparados‖ diante desse tema novo na disciplina: as ―lutas. Os autores apresentam uma possibilidade de abordagem, ressaltando a impossibilidade de universalizar tal proposta, considerando, entretanto, que ―nas aulas de Educação Física, tem-se dado prioridade ao plano procedimental (emprego de técnicas e fundamentos), enquanto tem-se deixado de lado o atitudinal (valores nas e para as práticas), bem como o conceitual (entendimento do porquê realizar este ou aquele movimento).


Os autores planejaram a prática pedagógica em torno dessas 3 dimensões e a partir das seguintes questões:

por quê ensinar? (justificativa);

o que ensinar? (seleção de conteúdos);

quando ensinar? (etapas ensino-aprendizagem);

como ensinar? (metodologia); o que, para que, como e quando avaliar? (construção de um processo de avaliação).

Tomaram por referência os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCNs) que definem os esportes de combate/luta como: ―[…] disputas em que o(s) oponente(s) deve(m) ser subjugado(s), mediante técnicas e estratégias de desequilíbrio, contusão, imobilização ou exclusão de um determinado espaço na combinação de ações de ataque e defesa.


As lutas mais ―conhecidas‖ mencionadas pelos alunos foram: judô, karatê, boxe, kung fu, sumô, etc. Outras lutas, os alunos sabiam certas características que permitiram aos autores procederam à identificação conjunta. A seleção das lutas a serem trabalhadas nas aulas foi feita de acordo com alguns critérios das estratégias (técnicas e táticas), apresentados no Quadro 1, tendo sempre por referência o plano conceitual e os aspectos históricos, sociais e culturais, incentivando a prática de pesquisa e a exibição de vídeos. Constatou-se que,no imaginário dos alunos, tais esportes são acessados de forma superficial e são considerados violentos.


No plano procedimental, a ênfase recai sobre os jogos de lutas com a consequente transformação pedagógica desses esportes. Dos jogos de lutas realizados em aula, destacamos o cabo de guerra, briga de galo, exclusão de espaço com ombro, mãos, conquista da quadra do oponente e conquista de objetos com oposição. Alguns elementos do esporte são incorporados nos jogos de lutas com a criação de regras e novos jogos propostos pelos alunos. Utilizamo-nos de três exemplos de jogos de lutas propostos por três grupos de alunos.


Quadro 1. Lutas propostas pelos alunos

Ao planejar a abordagem, o professor previne atitudes de deslealdade dos alunos através das regras, com objetivo de estabelecer relações éticas e de esportividade, reduzindo as atitudes violentas (dimensão atitudinal) nos jogos criados/adaptados conjuntamente pelos alunos e coordenados pelo professor. A elaboração conjunta permite a alteração e explicitação das regras, produzindo uma negociação e um acordo, baseado no respeito às regras, à integridade física e moral dos colegas e às diferenças de gênero, estatura e peso. Com isto os alunos se tornam atentos a situações de inclusão/exclusão vivenciadas em sala de aula.

Neste relato de planejamento das aulas de lutas na Educação Física, o professor não tinha experiência ou formação prévia na área de lutas. O bom desempenho nas atividades preparadas demonstrou a tese de que não há necessidade de termos uma especialização em uma modalidade de lutas, desde que nosso objetivo não esteja pautado na formação de atletas/lutadores, mas na produção de conhecimento nas aulas de Educação Física‖. Isto não significa descartar a contribuição dos especialistas, mas sim de valorizar um componente curricular a partir da realidade de professores e alunos com práticas pedagógicas bem preparadas e fundamentadas.


4.2 RELATO Nº 2: ―VIOLÊNCIA‖: OUTRO DISCUTÍVEL ARGUMENTO RESTRITIVO PARA O TRATO DO TEMA DE LUTAS NA EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR


A violência é considerada algo intrínseco às lutas e que pode estimular a violência no cotidiano escolar. A violência e agressividade são presentes na sociedade, na escola e nas aulas de educação física. Olivier conceitua violência como inerente às relações sociais‖, sendo modos de expressão e de comunicação‖, que surgem em situações de conflito, de ameaças, de incerteza. Para este autor, as atividades de luta na escola, sistematizadas e metodologicamente pensadas e conduzidas, servem como importantes elementos de estruturação motora, psicoafetiva e social, que ajudam a criança a gerir e a controlar a complexidade das relações violentas no interior do grupo social.


Os alunos estão expostos à violência por meio da mídia, dos heróis lutadores, desde pequenos, em seu ambiente familiar e social. A escola deve trabalhar tais conteúdos ao estabelecer regras de sociabilidade, exercendo um papel de contra poder. Predomina ainda, na Educação Física, uma monocultura quanto à prática de movimentos que desconsidera tais contextos sociais e culturais do aluno.

Muitas vezes as aulas de Educação Física se restringem a jogar futebol‖, em especial de forma livre, e os aspectos violência e risco, que surgem em tais partidas em atos físicos e expressões gestuais e verbais, não são elaborados pedagogicamente pelo professor. Em tais situações as regras que o próprio grupo estabelece, ignoram a equidade capaz de conferir àquele momento certo equilíbrio de forças entre os grupos constituídos.

Os menos habilidosos são naturalmente excluídos. Durante tais partidas, em especial na segunda-feira, os autores observaram que os comportamentos de prática esportiva (jogo de várzea, jogos assistidos na TV, reprises dos melhores momentos dos campeonatos, exaltação dos craques) vivenciados pelos alunos durante o final de semana são manifestos durante as partidas na escola. Essas vivências trazem à escola uma carga emocional de competitividade e de agressividade, em um contexto de naturalização da violência, inclusive no contexto escolar.


Isto reforça o argumento de que a abordagem da luta no âmbito escolar contribuiria para fazer aflorar comportamentos agressivos e trazer, inclusive, transtornos para o próprio professor poder interagir com seu grupo de alunos, inviabilizando assim o trabalho a ser realizado‖. Com base nessa situação observada e dos questionamentos teóricos, os autores fizeram uma intervenção em uma turma de 4ª série do ensino fundamental, que vinha apresentando um grau elevado de dificuldade para manejarem suas emoções, o que estava sistematicamente gerando comportamentos agressivos exagerados, física e verbalmente, principalmente quando as práticas realizadas envolviam competição coletiva.

O objetivo foi analisar as atividades de lutas com os alunos, propiciando uma interação entre eles por meio das lutas, portanto, de modo diferenciado dos esportes coletivos com bola (no caso, o futebol). Por meio da luta, buscou-se a vivência da oposição com contato corporal.


O pressuposto utilizado pelos autores na pesquisa-ação foi de que o interesse pedagógico não está centrado no domínio técnico dos conteúdos, mas no seu domínio conceitual, na perspectiva de um saber sistematizado que supere o senso comum, inserido num espaço humano de convivência, em que possam ser vivificados aqueles valores humanos que aumentem o grau de confiança e de respeito entre os integrantes do grupo.


Quadro 2. Relato resumido da vivência realizada, acompanhado de considerações gerais a respeito de cada aula.

A conclusão que os autores chegaram dessa intervenção foi a seguinte:

Não foram percebidos comportamentos violentos ou agressivos, nem física, nem verbalmente, no desenvolvimento de todas as aulas; ao contrário, percebeu-se um envolvimento constante nas tomadas de decisões e um zelo para o cumprimento dos acordos‖. Desse modo, fica relativizado o argumento da violência como sendo algo restritivo ao trato deste conteúdo por essa disciplina escolar.


A maneira de conduzir a tematização das lutas e mesmo outras atividades na Educação Física Escolar, é fundamental para um resultado satisfatório, desde que pedagogicamente abordada, evitando conflitos e hostilidades e trabalhando positivamente a prevenção da violência, tanto teórica quanto praticamente: o desporto [ou outro tema] não possui nenhuma virtude mágica. Ele não é em si nem socializante nem antissocializante. É conforme: ele é aquilo que se fizer dele. A prática do judô ou do râguebi pode formar tanto patifes como homens perfeitos preocupados com o fair-play‖.


5 CONSIDERAÇÕES FINAIS


Os autores concluem que podem ser relativizadas as restrições à abordagem pedagógica do tema lutas no currículo da Educação Física escolar. Tal relativismo se deve à adoção, para a disciplina, de uma concepção da cultura corporal de movimento. Com esta abordagem, o professor de educação física pode criar novos arranjos metodológicos e técnicos adequados ao contexto da escola em que atua. As restrições ou empecilhos‖ tornam-se o ponto de partida de uma nova prática, a um novo fazer pedagógico cotidiano, baseado na postura de aprendizado contínuo e de compreensão de que o conhecimento é dinâmico, provisório e pode ser ressignificado de acordo com a realidade em que o docente realiza e se realiza na prática pedagógica.

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