MARCELLINO, N. C. Lazer e Educação Física. In: DE MARCO, A. (Org.) Educação Física: cultura e sociedade. Ca mpinas: Papirus, 2006.

O lazer e as atividades físicas têm adquirido um significado social fundamental na sociedade contemporânea. Porém, nos meios acadêmicos, os estudos sobre esses temas é incipiente e ainda encontra resistências e preconceitos, mesmo nas faculdades de educação física. Sobretudo quando abordados do ponto de vista dos conteúdos ou das relações culturais. Cabe salientar que a relação entre educação física e lazer é apenas uma das abordagens possíveis em cada um dos temas considerados, e Marcellino conduziu estudos que demonstram a forte correlação ―entre os conteúdos físico-esportivos e os sociais‖ e, em menor grau, com o campo do turismo. Marcellino adota a classificação de conteúdos de Dumazedier, a partir dos interesses, ou conhecimentos enraizados na cultura vivida: artísticos, intelectuais, manuais, sociais e físico-esportivos, aos quais podem ser acrescentados os interesses turísticos.


No campo da educação física escolar, o autor considera que as ligações entre os temas se dão em 3 aspectos – ―educação para o lazer (objeto) e pelo lazer (veículo)‖: ―1) como objeto (educação pelo lazer), na perspectiva de chamar a atenção para a importância do lazer na nossa sociedade (tendo em vista a sua pouca ressonância social) e dando iniciação ao conteúdo cultural específico (fïsico-esportivo), mostrando a relação com os demais; 2) como veículo (educação pelo lazer), trabalhando os conteúdos vivenciados pelo lazer, a partir deles, buscando a superação do conformismo, pela crítica e pela criatividade; 3) como conteúdo e forma, no desenvolvimento das aulas, buscando incorporar, o máximo possível, o componente lúdico da cultura‖. (p. 48-49)


No campo da prática esportiva, tais relações se estabelecem:

1) como conteúdo e forma dos treinamentos vinculados a uma das manifestações do ludismo na cultura;

2) como espetáculo para o espectador, mesmo sendo trabalho para o atleta.


Em relação à educação física escolar, constata-se que a prática de atividades físicas é reduzida fora do contexto da escola e pouca ênfase se dá à formação crítica dos espectadores para uma fruição estética e para a interpretação dos múltiplos significados da prática esportiva na sociedade. Além disso, há uma discrepância entre os que desejam realizar alguma atividade física e os que de fato praticam, apesar de um enorme fascínio disseminado na sociedade contemporânea pelo esporte-espetáculo, com ênfase na performance, da elevada seletividade social e elitismo do esporte.

Tal discrepância também se revela pela escassez de espaços e equipamentos esportivos e de políticas públicas que estimulem a prática de atividades físicas.


Na educação física escolar, dados de pesquisas apontam a necessidade de redimensionar as atividades pedagógicas em conformidade com a nova compreensão do papel do lazer e das atividades físicas na sociedade atual. As atividades de lazer na educação física escolar devem ser trabalhadas em suas funções (descanso, divertimento e desenvolvimento pessoal e social) e em seus diversos gêneros (prática, assistência, informação). Essa compreensão permite dar valor pedagógico tanto ao ―assistir esporte‖ quanto praticá-lo.
Desse modo, o lazer se torna tanto uma área de intervenção profissional como também de inovação educacional, com uma tendência a alterar os próprios currículos de graduação em educação física e a formação de professores. Ressalte-se o caráter interdisciplinar que a disciplina deve assumir, dada a interdependência entre as relações lazer, escola, e processo educativo. A partir desse ponto de vista, 6 itens devem ser considerados na relação lazer e educação física:


Contribuição para a demonstração da importância do lazer, na nossa sociedade, como forma de expressão humana;

Iniciação aos conteúdos culturais físico-esportivos;

Contribuição para que o aluno perceba a inter-relação entre os conteúdos físico-esportivos e os demais conteúdos culturais;

Desenvolvimento desses conteúdos físico-esportivos não apenas como “prática” – o fazer, mas como conhecimento e apuração do gosto, contribuindo para a formação não só de praticantes, mas de espectadores ativos;

Partir do “nível” em que o aluno se encontra, respeitando sua cultura local, procurando promover esse “nível” de conformista, para crítico e criativo;

Trabalhar na metodologia de ensino, enquanto forma, incorporando, o máximo possível, o elemento lúdico da cultura, como componente do processo educacional.


Com relação aos níveis do conteúdo cultural, Dumazedier apresenta uma escala do elementar, compreendendo atitudes conformistas, o patamar médio, caracterizado pela criticidade e o superior, marcado pela criatividade.


Marcellino, a partir de pesquisa em Campinas, identificou alguns traços de moralismo, vigilância, e disciplina militar da educação física tradicional, presentes atualmente na ação dos profissionais da área, que se perpetuam, muitas vezes, por demanda da população em um contexto de aumento da violência, que veem na educação física um caráter instrumental ou saneador da agressividade. Programas de animação sociocultural em centros esportivos, comunitários, entre outros, demandam profissionais da educação física que atuem como promotores da ―iniciação esportiva‖ e da ordem.


Diante desse quadro, os programas de formação de profissionais de educação física devem buscar reverter determinadas expectativas redentoras da área, sedimentadas pelo senso comum, tanto em relação aos valores do lazer e do esporte em uma visão ―militarista‖ ou ―higienista‖ da educação física quanto ao papel dos profissionais e sua relação perante as expectativas distorcidas da população. Em suma, o professor de educação física não é um policial ou agente sanitário, mas, para desempenhar seu papel, deve ter um grande fundamento teórico-metodológico.


O ato de usufruir atividades físico-esportivas ocorre por adesão livre, em condições de espaço/tempo disponíveis, caracterizando-as como manifestações de lazer. Marcellino utiliza como base para sua noção de lazer: ―a cultura – compreendida no seu sentido mais amplo – vivenciada (praticada ou fruída), no ‘tempo disponível’‖ e de forma ―desinteressada‖. O lazer, enquanto atividade humana, é historicamente situado, integra a cultura, sendo esta “um conjunto de modos de fazer, ser, interagir e representar que, produzidos socialmente, envolvem simbolização e, por sua vez, definem o modo pelo qual a vida social se desenvolve”, dos significados que dão sentido à existência. Conforme Marcellino, ―a análise da cultura, pois, não pode ficar restrita ao ‗produto‘ da atividade humana, mas tem que considerar também o ‗processo dessa produção‘ – o modo como esse produto é socialmente elaborado”.


Dessa forma, o jogo e a recreação, enquanto possibilidades de atividades de lazer se constituem a partir de um repertório de conteúdos históricos da educação física. Embora o lazer esteja cada vez mais associado a um campo de serviços a ser consumido na sociedade contemporânea, sua vinculação com o campo da educação física e a formação profissional começou a se consolidar a partir da década de 1930. Enquanto campo de pesquisa começou a se expandir a partir dos anos 1980. No currículo da graduação em educação física, encontram-se algumas disciplinas ligadas a recreação/lazer e até mesmo modalidades e especializações que contemplam essa abordagem. No âmbito institucional da pesquisa científica, no CNPq, dada a defasagem histórica entre a prática profissional, o ensino e a pesquisa sistemática, apresenta-se a dicotomia entre a ―teoria‖ e a ―prática‖. Tal dicotomia se revela mais intensa quando aplicada ao campo da educação física, pois geralmente se associa prática da educação física diretamente à prática de alguma modalidade de atividade corporal (exercício, esporte, movimento). E torna a relação desta prática com a teoria, algo muito mais difícil, devido à desvinculação entre os saberes experenciais e os saberes curriculares. O professor que desconhece a teoria do lazer, muitas vezes confunde a prática profissional com a prática da atividade em si, restringindo-se a manuais de recreação e de lazer, sem a discussão teórica que ilumina e transforma a prática (práxis).


Considerando essas áreas do ponto de vista da produção de conhecimento, há necessidade da produção de teorias e metodologias próprias, com base na contribuição das várias ciências que podem subsidiá-las. Atualmente a área de lazer é genérica, podendo vincular-se à educação física, ao turismo, à sociologia, ou à política. Entretanto, na educação física escolar, devem ser garantidos quatro eixos: ―iniciação às bases teóricas, vivências refletidas dos conteúdos culturais que permitam a formação de um repertório, análise crítica do mercado de trabalho, e iniciação ao planejamento, contemplando pelo menos o desenvolvimento de projetos de ação‖.
O lazer representa um campo amplo e crescente de atuação do profissional de educação física, porém, assumindo uma postura de contraposição à indústria cultural que explora o lazer-mercadoria e o entretenimento de baixa qualidade, onde os valores da convivencialidade não são respeitados. Mesmo objeto de fruição individual, o lazer apresenta um sentido social e cultural, voltado à coletividade, relacionando-se com questões importantes do trabalho, da educação, da família, da religião, enfim, da cultura e do existir humanos.


O lazer é distinto do tempo livre. Marcuse destaca a produtividade associada ao desempenho como um dos valores centrais da sociedade capitalista e oposta ao jogo, que é improdutivo e inútil, desse modo fazendo com que o próprio tempo livre seja dominado pelas preocupações com os negócios e com a política. A racionalidade do sistema torna o lúdico inviável, pois o tempo do lúdico não é regulável, mensurável, objetivável e consiste em uma negação do sistema. Perrotti, um pesquisador brasileiro diz que o lúdico é o jogo, a brincadeira, a criação contínua e ininterrupta e o lazer é o espaço do não trabalho. Na prática do lazer na sociedade, entendida como mercadoria, prevalece a performance, o produto e não o processo de vivência que lhe dá origem, geralmente vinculadas à moda ou ao status. Conforme Marcellino, ―o caráter social requerido pela produtividade confina e adia o prazer para depois do expediente, para os fins de semana, para os períodos de férias, ou, mais drasticamente, para a aposentadoria. No entanto, isso tudo não nos permite ignorar a ocorrência histórica do lazer, inclusive como conquista da classe trabalhadora‖. Citando Magnani, o lazer é o espaço “onde as possibilidades de criação e escolha são, com certeza, maiores que as existentes numa linha de montagem”.


Atualmente, na sociedade contemporânea, o lazer é uma atividade essencialmente urbana e, pela mídia, atinge as demais regiões, do ponto de vista da massificação. Porém, o entendimento do lazer como espaço de manifestação social abre possibilidades do próprio questionamento dos atuais parâmetros da vida social, ―tendo em vista a realização humana, a partir de mudanças no plano cultural‖. Desse modo, constitui um campo de intervenção multiprofissional e de ação política, integrando os diversos setores na busca de garantir o direito constitucional ao lazer de toda a população (Artigo 62 e 217 da Constituição Federal), porém, jamais desvinculado das demais políticas sociais.


O papel do profissional de educação física, portanto, se amplia a partir de tais considerações, de modo a trabalhar os valores do descanso, do divertimento e do desenvolvimento, tanto pessoal quanto social, buscando o equilíbrio entre esses três fatores. O profissional de educação física enfatiza, em sua atuação, a dimensão do desenvolvimento pessoal e social do indivíduo, buscando a evolução do nível conformista para o crítico e, deste, para o criativo, conforme a situação de cada aluno. Desse modo, contribui-se para atingir tanto os objetivos consumatórios, como o relaxamento e o prazer propiciados pela prática ou pela contemplação, quanto objetivos instrumentais, voltados à compreensão da realidade. Do ponto de vista social, busca-se desenvolver o sentido de responsabilidade social, de sensibilidade pessoal, da busca do autoaperfeiçoamento, enfim, culminando com as expressões de solidariedade, como elementos do desenvolvimento humano.


Para Marcellino, a personalidade pode ser desenvolvida pelo lazer, de modo a estimular a sociabilidade, a participação social e uma cultura livre do corpo, com desenvolvimento de atitudes positivas perante a vida e o mundo, individual e coletivamente. A relação entre lazer e educação física se dá, portanto, pela consideração do profissional da educação física, não como um mercador mas como um verdadeiro educador e o lazer, nessa concepção de desenvolvimento integral, como um direito subjetivo dos cidadãos, especialmente como fator de inclusão e de cidadania.
Na relação educação e educação física, é importante distinguir os diferentes processos educativos, pois estes envolvem a transmissão cultural, que estão presentes na relação pedagógica. Essa distinção é importante também na relação entre educação física ―fora da escola‖ e educação física escolar. Marcellino utiliza a visão pedagógica ampla de Gramsci, relacionada ao conceito de hegemonia: ―em toda a sociedade no seu conjunto e em todo o indivíduo com relação aos outros indivíduos, bem como entre camadas intelectuais e não intelectuais, entre governantes e governados, entre elite e seguidores, entre dirigentes e dirigidos, entre vanguardas e corpos do exército. Toda relação de “hegemonia” é necessariamente uma relação pedagógica‖.


Quando se fala em educação, nesse sentido amplo, deve-se valorizar o espaço escolar, sem desconsiderar o contexto cultural mais amplo, inclusive as políticas públicas e ações das organizações da sociedade civil. A escola é um instrumento fundamental da construção da hegemonia. As classes dominantes se apropriam dos seus significados e a utilizam para manutenção da ordem e da cultura vigente. Uma vez apropriada pelas classes populares, para construir uma nova odem social e uma nova cultura, deve-se considerar seu papel relevante, portanto, na construção de uma nova hegemonia, ou deixá-la ao uso exclusivo da classe dominante, conforme afirma Saviani.


Ao mesmo tempo, as relações ―pedagógicas‖ construídas ―fora da escola‖, permitem despontar para mudanças estruturais da sociedade, sobretudo as transformações nos ―serviços públicos intelectuais‖, sendo que, na avaliação de Gramsci, “serviços intelectuais são elemento de hegemonia, ou seja, de democracia no sentido moderno”. Atualmente, as novas tecnologias de informação e comunicação permitem inserir diversas possibilidades de ―contrainformação‖, ou seja, de construção da cultura popular inserida em relações pedagógicas mais amplas. Para Marcellino, ―não é possível desconhecer as relações existentes entre o lazer, a escola e o processo educativo. Elas caracterizam-se pela interdependência entre cada um desses elementos considerados como pares, ou encadeados.


Em contraposição a essa visão dialética do lazer, o funcionalismo, em suas vertentes moralista, compensatória, utilitarista ou romântica, prioriza o lazer em detrimento da escola no processo educativo, considerando o fracasso escolar como o próprio fracasso da escola. A teoria pedagógica, ao contrário, privilegia a escola, adotando a mesma visão da classe dominante sobre o lazer, ou seja, ―instrumento de manipulação‖.


A interdependência entre lazer, escola e processo educativo, exige, portanto, na visão dialética, uma nova pedagogia que fundamente uma nova prática pedagógica, que considere o ―lazer, como canal possível de atuação no plano cultural, de modo integrado com a escola, no sentido de contribuir para a elevação do senso comum, numa perspectiva de transformação da realidade social, sempre em conexão com outras esferas de atuação política; uma pedagogia que considerasse, ao mesmo tempo, a necessidade de trabalhar para a mudança do futuro, por meio da ação no presente, sem abrir mão do prazer de que se dispõe, mas, pelo contrário, que essa vivência fosse, em si mesma, prazerosa‖. Uma pedagogia da animação, que recupere o caráter lúdico da relação ensino-aprendizagem, e a escola como centro de cultura popular, abrindo espaço para a alegria e a festa, eliminando as formas de alienação. Ao mesmo tempo, tal pedagogia é, para Marcellino, ―uma alternativa para a denúncia da realidade tal como se apresenta; assim sendo, a sala de aula, longe de ser espaço de alienação, poderia ser encarada como um dos espaços de resistência.


A educação física, na escola e fora dela poderia, enfim contribuir com políticas públicas e intervenções focalizando o lazer na formação de competências específicas (conteúdos físico-esportivos), e competência geral (estabelecimento de políticas, planejamento, gerenciamento). Abrindo espaço, portanto, para inovações e novas possibilidades e oportunidades de atuação na área.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *