GUEDES, D. P. Educação para a saúde me diante programas de Educação Física escolar. Motriz: Revista de Educação Física. Rio Claro, v. 5, n. 1, p. 10 14, jun. 1999.

A Educação Física permanece no currículo escolar devido à concepção de que a atividade física contribui para o desenvolvimento biopsicossocial e cultural dos alunos. Já na 5ª série, ou mesmo antes, são iniciadas atividades com base nos esportes competitivos. Estudos demonstram que o enfoque esportivo não atende às expectativas colocadas sobre os programas de ensino, surgindo alternativas para solucionar tal discrepância. A maioria das propostas alternativas de adequar o ensino de educação física coloca o professor da disciplina como coadjuvante do processo, com as funções de organizar atividades recreativas, comemorativas, esportivas e orientar exercícios físicos. O papel ativo, de desenvolver o currículo inserido em um contexto mais amplo fica, geralmente, em segundo plano.


Para, de fato, reorientar a disciplina de educação física no currículo, em uma nova concepção de seu papel e objetivos pedagógicos, psicológicos e sociais no desenvolvimento do aluno, é necessário debater “o tipo de conhecimento associado ao movimento humano”, que será trabalhado no período da educação básica. Um dos aspectos salientados por Guedes é a educação para a saúde, em uma sociedade marcada pelo aumento das doenças crônico-degenerativas, principalmente causadas por hábitos não saudáveis, com baixa prática social de atividades físicas.


Observa-se nas escolas, adolescentes e jovens manifestando sintomas de doenças degenerativas e o processo educacional não trabalha a adoção de hábitos saudáveis de vida que podem prevenir, evitando ou retardando, o aparecimento de tais enfermidades. Na estrutura de ensino, a educação para a saúde é bastante negligenciada, o que é comprovado pelo elevado número de adultos que apresentam alguma espécie de distúrbio degenerativo em decorrência do estilo de vida que poderia ser mais saudável, bem como um nível de desinformação sobre o próprio corpo e sua saúde.


O autor aponta que, em alguns períodos, a educação física escolar tinha objetivo de “aquisição e manutenção da saúde”, porém de uma forma equivocada, se preocupando apenas com a cultura do corpo, desvinculada de uma proposta pedagógica abrangente e universal. A proposta, a partir da consideração de tais deficiências, é de que a escola passe a desenvolver “programas que levem os educandos a perceberem a importância de se adotar um estilo de vida saudável, fazendo com que a atividade física direcionada à promoção da saúde torne-se componente habitual no cotidiano das pessoas”.


Isto exige dos professores uma nova postura frente aos desafios educacionais, de modo a tornar as aulas não apenas uma prática de atividades físicas, mas uma verdadeira educação para a saúde. Neste aspecto, o professor deve selecionar, organizar e desenvolver experiências e situações de aprendizagem com objetivo, além de tornar os alunos ativos fisicamente, a terem “um estilo de vida saudável ao longo de toda a vida”.


SAÚDE NO CONTEXTO DIDÁTICO-PEDAGÓGICO


O conceito de saúde, geralmente é utilizado de uma forma genérica, dando margens a interpretações deslocadas de um contexto didático-pedagógico. Disso decorre o desenvolvimento de inúmeros programas de promoção da saúde na escola, que não estão interligados com um projeto político-pedagógico ou com uma efetiva formação dos alunos da educação básica. Guedes cita o documento da Conferência Internacional sobre Exercício, Aptidão e Saúde, realizada no Canadá em 1988, que teve por objetivo “estabelecer consenso quanto ao estado atual do conhecimento nessa área, procurou definir saúde como condição humana com dimensões física, social e psicológica, caracterizada por um continuum com polos positivos e negativos”. Nesses termos, saúde positiva se refere “à capacidade de apreciar a vida e de resistir aos desafios do cotidiano, e não meramente a ausência de doenças; enquanto a saúde negativa está associada à morbidez e, no extremo, à mortalidade.”


Em decorrência dessa concepção, o binômio “saúde-doença” recebe outro sentido: não precisa estar doente para falar de saúde. “Saúde-doença” é um fenômeno multifatorial e contínuo, abrangendo a totalidade da vida do indivíduo em seu contexto social e cultural. Essa conceituação traz alguns desdobramentos para o currículo, como por exemplo, a educação para a preservação ambiental, parte do entendimento que doenças são indicadores importantes de desequilíbrios na relação homem-meio ambiente, englobando: hábitos alimentares, estado de estresse, opções de lazer, atividade física, agressões climáticas, etc. “Ser saudável” é, portanto, um conceito dinâmico: “torna-se necessário adquiri-lo e construí-lo de forma individualizada constantemente ao longo de toda a vida, apontando para o fato de que saúde é educável e, portanto deve ser tratada não apenas com base em referenciais de natureza biológica e higienista, mas sobretudo em um contexto didático-pedagógico”. Portanto, a educação para a saúde situa-se no domínio didático-pedagógico, para o qual a disciplina educação física tem muito a contribuir.


EVOLUÇÃO HISTÓRICA DOS PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR


A disciplina Educação Física, suas tendências e concepções didático-pedagógicas, no Brasil é fortemente influenciada por outras áreas de atividade: médica, militar, biopsicossocial e esportiva, podendo ser identificadas algumas fases.


Influência médica: corresponde à fase inicial da disciplina, mas ainda persiste em diversas escolas, com programas de educação física voltados à preparação física de indivíduos fortes e enrijecidos, com uma preocupação essencialmente ortopédica, morfogênica, postural e de “boa aparência”.
Influência militar: na década de 1930, com as reformas educacionais do Estado Novo. Além da “assepsia corporal”, privilegiava-se uma eugenia da raça, marginalizando os menos capazes e fora dos padrões aceitos, utilizando a disciplina militar nas aulas.


Influência Biopsicossocial: característica do final da década de 1940, com o fim da II Guerra Mundial, fundamentada na proposta liberal da Escola-Nova. A dimensão pedagógica passa a ser considerada como fundamental para as disciplinas e, no caso da educação física, esta passa a se inserir nas preocupações da pedagogia. A visão de “homem educado” passa a incluir, além das dimensões cognitivas e afetivas, o campo físico. Entretanto, “pressupostos da área médica e militar se mantiveram fortemente impregnados entre os professores de educação física da época”. Na década de 1970, com o sucesso esportivo de equipes brasileiras, a educação física passou a dar ênfase às práticas esportivas em seu currículo, estimulando elementos como “desempenho atlético” como base para a formação de um cidadão ideal, integrado à vida em sociedade. Esta concepção fundamenta-se na visão de que o desenvolvimento de um país competitivo corresponde também a um indivíduo competitivo. Nesse contexto, o esporte contribui para tal formação.


Embora tais influências tenham impacto na atual configuração da disciplina educação física, o autor destaca que a educação para a saúde nunca foi um objetivo explícito e sistemático a ser atingido na escola. Porém, na atualidade, com a elevação do fenômeno da hipocinesia, em decorrência da intensificação do ritmo de trabalho no cotidiano, provocando maior incidência de processos degenerativos de forma mais frequente e precoce. Nesse cenário, a educação física desempenha um papel de compensação aos efeitos nocivos do estilo de vida moderno, justificando-se uma educação física para a saúde.


FUNDAMENTOS BIOLÓGICOS DOS PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR DIRECIONADOS À EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE


O caráter sedentário da sociedade moderna é intensificado pelos avanços tecnológicos, o que leva ao aumento das doenças degenerativas, justificando-se investimentos em prevenção. Estudos epidemiológicos apontam o surgimento de fatores de risco que tornam o surgimento dos primeiros sintomas de doenças degenerativas por volta dos 7 ou 8 anos e, aos 17-18 anos, há uma grande probabilidade de se ter sucesso na reversão desses quadros com a prática orientada de exercícios físicos.
FUNDAMENTOS DIDÁTICO-PEGAGÓGICO DOS PROGRAMAS DE EDUCAÇÃO FÍSICA ESCOLAR DIRECIONADOS À EDUCAÇÃO PARA A SAÚDE


Guedes ressalta que os programas de educação física escolar têm por objetivo “proporcionar fundamentação teórica e prática que possa levar os educandos a incorporarem conhecimentos, de tal forma que os credencie a praticar atividade física relacionada à saúde não apenas durante a infância e a adolescência, mas também, futuramente na idade adulta”. Isto exige uma reformulação curricular para dar conta de superar os programas voltados à competência atlética, que privilegia os bem dotados, em função da maioria da população que demanda, de fato, uma educação física para melhoria da saúde global.


Nos programas curriculares, devem ser pensados alguns critérios para selecionar e implementar atividades pedagógicas condizentes com uma proposta de educação pra a saúde: duração, intensidade e tipo de atividade física, informações sobre saúde, aptidão e atividade física, de acordo com o nível de desenvolvimento do aluno e, sobretudo, explicações sobre o significado, conceitos e princípios das atividades propostas. Ou seja, trata-se de educar e não de praticar atividade física pelo simples ato de praticar.
Guedes afirma que as lacunas na fundamentação teórico-metodológica da disciplina educação física causam a desinformação sobre suas possibilidades, o que leva ao desinteresse pela prática da atividade física voltada à saúde. O autor reforça a tese central do artigo, afirmando que, para o “desenvolvimento de atitudes positivas em relação à atividade física relacionada à saúde, durante os anos de escolarização, é importante requisito para participação voluntária mais efetiva na idade adulta, torna-se imperativo a adoção de estratégias de ensino que contemplem não apenas o aspecto prático, mas sobretudo a abordagem de conceitos e princípios teóricos que proporcione subsídios aos educandos no sentido de adotarem hábitos saudáveis de prática da atividade física por toda a vida”.


CONSIDERAÇÕES FINAIS


Existe um consenso entre os profissionais da educação física sobre a necessidade de mudanças no currículo da disciplina, superando a atual ênfase na competição individualista e elitista, ligada exclusivamente à prática esportiva nas aulas de educação física. A ênfase no esporte tem menor eficácia educacional e tem pouco alcance em relação ao desenvolvimento motor das crianças, adolescentes e jovens em idade escolar.


Observa-se que, quando são feitas avaliações da prática pedagógica em educação física, busca-se solucionar eventuais falhas dos modelos mecanicistas, influenciados pelas abordagens tradicionais da disciplina, na tentativa de recuperar os aspectos negligenciados do ludismo e do lazer. Isto, em detrimento da educação para a saúde, produzindo deficiências no desenvolvimento de conhecimentos, habilidades, competências, atitudes e valores do aluno que vão incidir negativamente, tanto em sua saúde física quanto em seu desenvolvimento cognitivo e afetivo, por não possibilitar aos mesmos a adoção de hábitos saudáveis e ativos de vida.
Para mudar a prática pedagógica no campo da educação física, para que este campo de conhecimento exerça seu papel verdadeiro na sociedade, é necessário que “as estratégias de ensino sejam conduzidas a segmentos do movimento humano onde, prioritariamente, venham a prevalecer aspectos da atividade física relacionada à saúde”.


Em relação à formação profissional dos professores de educação física, é essencial alterar os atuais currículos de graduação, que também encontram-se formatados com ênfase nos esportes como base para a preparação dos indivíduos em uma sociedade extremamente competitiva, que valoriza as qualidades do corpo esbelto e bem preparado para competir por melhores colocações no mercado de trabalho. Na prática, entretanto, verifica-se que a visão competitiva tem afastado crianças, adolescentes e jovens das aulas de educação física e estimulando perspectivas sociais negativas sobre esta disciplina.


De fato, o esporte tem sua importância, se vinculado à proposta pedagógica, mas não deve constituir a meta da disciplina. O objetivo da educação física escolar é “promover um estilo de vida ativo, procurando melhorar o nível de qualidade de vida de nossa população”, sendo que “a inadequada utilização do esporte nos programas pode atuar de forma inversa”.
Estudos recentes mostram a correlação entre a formação de valores e atitudes frente à atividade física e o domínio de conceitos e referenciais teóricos associados à prática efetiva da educação física escolar. Portanto, a atividade física isolada não é eficaz. Guedes enfatiza “a necessidade de insistir em um equilíbrio quanto à abordagem do conjunto de conteúdos em termos teórico e prático nos programas de educação física direcionados à educação para a saúde. Esta conduta, sem dúvida, requer estabelecimento de novo comportamento por parte dos professores, exigindo uma formação de maior consistência acadêmica”.

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