BETTI, M. Imagem e ação: a televisão e a Educação Física escolar. In: (Org.) Educação Física e mídia: novos olhares, outras práticas. São Paulo: Hucitec, 2003. Física e mídia: novos olhares, outras práticas. São Paulo: Hucitec, 2003.

Nesta obra são analisadas, em quatro capítulos, as implicações e interfaces dos meios de comunicação e outras mídias para a Educação Física, em especial na formação de professores, na prática docente e na própria interação midiática. As pesquisas sobre mídia, educação física e pedagogia datam do início do século XX, acompanhando as transformações nas tecnologias de informação e comunicação (TICs), o aprofundamento dos estudos sobre o corpo no capitalismo e a produção de subjetividades, interações sociais e novos conhecimentos, bem como os avanços das ciências pedagógicas. A partir de tais transformações sociais, o professor deve realizar uma reflexão sistemática sobre sua prática para compreender os impactos da mídia na educação física.


No artigo de sua autoria, “Imagem e ação: a televisão e a educação física escolar”, Betti, valendo-se do método compreensivo, da abordagem fenomenológica e da técnica da Pesquisa-Ação, propõe uma investigação sobre o discurso televisivo e sua relação com a Educação Física. O autor parte do pressuposto de que a Educação Física constitui-se um fenômeno cultural, compreendido pelas suas características intrínsecas, lúdicas e agonísticas, presentes no esporte, no jogo, desenvolvidas no contexto da industrialização da Europa no século XIX e ampliadas mundialmente com a globalização.


O objetivo da pesquisa é propiciar aos professores uma reflexão crítica sobre a prática, com vistas à utilização das mídias, em especial a televisão e seu discurso, nas aulas de educação física. Betti mostra que as imagens e sons midiáticos mobilizam os indivíduos e interagem com o imaginário socialmente construído, desenvolvendo uma cultura corporal do movimento: “a parcela da cultura geral que abrange algumas das formas culturais que se veem historicamente construindo, nos planos material e simbólico, mediante o exercício (em geral sistemático e intencionado) da motricidade humana – jogo, esporte, ginástica e práticas de aptidão física, atividades rítmicas/expressivas etc.” (p. 93) Em outras palavras, cultura corporal do movimento é o exercício intencional e sistemático da motricidade humana, constituído historicamente e codificado culturalmente no que hoje definimos como esporte, ginásticas, danças, jogos, etc. e que compõem os meios e conteúdos da Educação Física, esta sendo um campo de saber articulado a outras intencionalidades pedagógicas.


A televisão é um elemento dinamizador da cultura corporal do movimento, com grande capacidade de produzir discursos audiovisuais, gerando uma lógica de espetacularização. Somos bombardeados por informações televisivas e outras mídias, por meio de imagens, palavras e sons. Alguns autores afirmam que vivemos imersos em uma cultura das mídias, que estão cada vez mais integradas ao cotidiano, formando nosso imaginário e visão de mundo. Entretanto, o conteúdo veiculado pelas diversas mídias apresenta um caráter de espetáculo e entretenimento, e não há uma preocupação educativa, no sentido formal do termo. Diante do mosaico de informações, o indivíduo seleciona e estabelece as conexões de sentido que lhe interessam e satisfazem.
A televisão transmite muitas informações sobre a cultura corporal do movimento, para um grande número de indivíduos, privilegiando o esporte. Tais informações são consumidas também por meio de outras mídias
(revistas, internet, rádio, produtos diversos, materiais esportivos, etc.), afetando e modificando atitudes e hábitos sobre o corpo, saúde, estética, etc. A cultura corporal do movimento, estimulada pela televisão, tornou-se publicamente compartilhada na sociedade contemporânea, produzindo várias manifestações e interações midiáticas. Uma das formas de difundir mensagens no contexto da cultura corporal de movimento é a espetacularização, que constrói códigos e interpretações da realidade, conforme certos critérios.


O “esporte telespetáculo” é definido como uma realidade textual relativamente autônoma diante da “prática real do esporte”, caracterizado pela sua vinculação aos grandes interesses comerciais (patrocinadores) e às possibilidades tecnológicas de produção e emissão das imagens (enquadramentos, edição, comentários, efeitos especiais, repetição, etc.). Dessa forma, uma gama de produtos e serviços diversificados passou a ser estruturada ao redor do esporte telespetáculo: outras mídias, produtos energéticos, materiais esportivos, explorados pela publicidade em grande escala. O esporte telespetáculo é construído pela mediação, classificação e codificação de eventos esportivos, resultando em uma mensagem composta por enquadramentos de câmeras, seleção e edição de imagens e comentários, que se apresentam ao telespectador como um “discurso elaborado, acabado”, bastando ao público apenas recebê-lo como fonte de entretenimento e mercadoria de consumo, valorizando a forma e não o conteúdo.


A espetacularização do esporte tem como consequência a fragmentação e a descontextualização do fenômeno esportivo. O esporte e o atleta são retirados sutilmente de seu contexto de produção social, histórico, sociológico e antropológico. A relação com o telespectador passa a ser, então, mediada pelas câmaras televisivas (closes, ângulos, sons, etc.). Para Betti, o telespectador tem a sensação de olhar por uma “janela de vidro”, quando, na prática, assiste a certa “interpretação” da realidade mediada pela tecnologia, que valoriza aspectos parciais de interesse de espetacularização das empresas de comunicação. O autor ressalta a diferença entre assistir eventos esportivos presencialmente ou pela televisão. As mídias veiculam uma visão hegemônica do esporte, a visão dos ganhadores: vitória, esforço, disciplina, status, retorno financeiro. Outros aspectos são descartados, como a sociabilidade, o autoconhecimento e o prazer. O esporte torna-se uma mercadoria no mercado global e foi modificado substancialmente com a televisão ao vivo, o vídeo tape, os sistemas de satélite, firmando-se como espetáculo global desde os Jogos Olímpicos de 1984, em Los Angeles, o primeiro com lucros financeiros e a Copa do Mundo de 1996, a primeira copa transmitida em rede internacional. Com o passar do tempo, ganharam espaço televisivo as ginásticas, associadas ao ideal de corpo e de beleza, concomitantemente à expansão das cirurgias plásticas, dietas e dos exercícios físicos. O interesse por trás dessas manifestações é o mercado, a venda de produtos de ginástica, medicamentos, cirurgias, publicações em diversas mídias, etc. Essa situação de expansão do “mercado do corpo” interfere tanto na atuação dos profissionais da educação física quanto na prática docente na área.


As principais tendências da cultura corporal de movimento, apontadas por Betti são:

1) Novas esportivizações, relacionando a cultura corporal à espetacularização;

2) Distanciamento do esporte telespetáculo das outras manifestações da cultura esportiva, devido à mídia e aos interesses econômicos;

3) “Consentimento” ou “entrelaçamento” entre os modelos de estética corporal e do fitness (saúde/aptidão física).


Essas tendências fazem com que a relação mídias-cultura corporal de movimento se torne uma questão pedagógica para a Educação Física, diante do elevado volume de informações veiculadas pela mídia apropriado pelos alunos de educação física no contexto escolar, influenciando seus comportamentos, habilidades, atitudes, uma vez que os alunos são assíduos telespectadores e se encontram em uma fase crítica de seu processo educacional. Para Betti, no currículo escolar e, em especial na disciplina de Educação Física, devem ser analisadas criticamente as produções das mídias e propiciados espaços na formação de professores para problematizar a relação mídia-cultura corporal de movimento. Betti salienta que raramente os professores incorporam as mídias como estratégia ou conteúdo na educação básica e, muitas vezes, encontram-se despreparados para a adequada utilização da mídia na relação ensino-aprendizagem.


Outro aspecto a considerar no contexto escolar é a desigualdade do acesso às novas tecnologias de informação e comunicação, o que agrava os conflitos na escola. Na lógica da espetacularização, não é de interesse do mercado a reflexão crítica e a formação intelectual e, sim, a constituição de um público consumidor passivo, desde a infância e adolescência. Os professores, segundo Betti, devem se posicionar diante do fenômeno “mídia”, tornando-se mediadores entre as novas tecnologias e os alunos, o que é um desafio de refletir criticamente sobre a linguagem audiovisual enraizada no cotidiano dos alunos. Porém, é possível ressignificar o conteúdo midiático, com base nas teorias interacionistas: “a escola deve tornar-se, explícita e intencionalmente, mais um contexto de mediação que se interpõe entre alunos e as mídias”. (p. 96)
Em relação à expansão midiática, que bombardeia a todos com uma quantidade e intensidade crescente de recepções individuais de mensagens, a escola deve se constituir como um locus de reagrupamento e ressignificação dos conteúdos veiculados, revertendo a tendência à fragmentação de conhecimentos.


Betti, portanto, propõe à escola e à disciplina “educação física” um diálogo entre mídia e educação, versando sobre os aspectos da “vivência corporal / conhecimento / reflexão, à luz do conceito de cultura corporal de movimento. O discurso hegemônico sobre o esporte é veiculado pela televisão, que atinge todas as classes sociais. Para este diálogo ser concreto, é preciso considerar o aluno em sua totalidade e a escola ser o local de reagrupamento e comunicação, no qual a fragmentação será superada por meio do trabalho pedagógico adequado sobre as informações disseminadas socialmente.


No campo da Educação Física, há diversas experiências e fundamentos teórico metodológicos para utilizar matérias televisivas como material para discussão nas interações o ambiente escolar. O professor deve, na sala de aula, utilizar a mídia a favor da educação, de modo a estimular a análise de informações, de criar atenção, de trabalhar as imagens e de formar o leitor e telespectador crítico. A escola deve educar para a reflexão crítica sobre os conteúdos midiáticos, implícitos e explícitos, propiciando que o aluno compreenda e se posicione diante das realidades socialmente construídas e de suas interpretações. E isto deve ser feito de modo que o aluno se aproprie da linguagem audiovisual, entenda os processos técnico-econômicos das mídias, se comunique a partir da relação com as mídias e, enfim, se eduque no meio e com o meio. O
objetivo do processo ensino-aprendizagem na relação com a mídia é possibilitar que o aluno associe, analise e aprofunde as informações desconexas que recebe das mídias. É dotar o aluno de instrumentos de interpretação da linguagem das mídias de modo a contextualizar sua produção e questionar sua reprodução. Desse modo, a escola se torna “um lugar de reflexão crítica coletiva”. E o professor assume o papel de mediador entre as mídias e os alunos, em uma atitude não de negação e preconceito, mas de presença e de qualidade pedagógica, levando em conta a realidade das crianças, adolescentes e jovens que cada vez mais compartilham uma “cultura audiovisual”, que influencia seus comportamentos, interações e visões de mundo. O desafio da escola, portanto, é muito grande em combinar a racionalidade e a reflexão crítica com a afetividade, emoções e a intuição produzidas pelas interações dos alunos com as mídias. O autor ressalta que os alunos interagem com os conteúdos midiáticos como telespectadores, como sujeitos passivos na relação com as imagens e sons e não como praticantes reais de esporte, inserido em sua vivência cotidiana.


Desse modo, o esporte telespetáculo apresenta-se como um novo modelo de socialização, diferentemente das antigas gerações que se socializavam com o esporte nas ruas e terrenos baldios, como forma de ludismo. A predominância da televisão no cotidiano das crianças e adolescentes faz com que a socialização esportiva se dê pela interação midiática, interferindo na sua construção de valores de status advindo do esporte. Exemplo: muitos meninos querem ser “Ronaldinhos” e passam a encarar a prática esportiva não como brincadeira, mas como um treino em vistas a uma futura profissionalização no esporte, idealizada e, na maioria das vezes, distante de sua realidade. Betti analisa essa situação como superposição entre o lúdico e o esporte.


As formas de cultura corporal de movimento, objeto das mídias, integram a cultura contemporânea e estão cada vez mais disseminadas na sociedade. Diante disto, exige-se da educação física escolar uma nova postura para enfrentar os desafios pedagógicos correspondentes: “contribuir para a formação do receptor crítico, inteligente e sensível frente às produções das mídias no campo da cultura corporal de movimento” (p. 93). Esta postura decorre de uma concepção de educação física derivada das “teorias críticas” que se contrapõe a duas óticas vigentes nas escolas sobre a disciplina: 1) Compensatória/terapêutica, orientada apenas para a diminuição do sedentarismo ou para atingir o psiquismo por meio da atividade física; 2) esportivização, que considera a educação física escolar uma preparação de atletas. Para Betti, somente uma educação física compreendida como “articulação pedagógica entre vivência corporal/conhecimento/ reflexão, referenciando-se à cultura corporal de movimento”, capaz de trabalhar criticamente a relação mídia-educação física. Esta visão permite integrar as dimensões físico-motora, afetiva-social e cognitiva dos alunos, proporcionando a formação cidadã crítica diante da cultura corporal de movimento. Alguns professores de educação física resistem a essa abordagem, por considerarem a educação física uma disciplina essencialmente “prática” (“o aluno quer mesmo é jogar bola”). Porém, o que Betti propõe é que a educação física seja não apenas um discurso, mas uma ação pedagógica com o corpo em movimento, consciente e crítico diante da cultura corporal de movimento.


Betti propõe um trabalho de “mixagem”, que consiste em associar produções de mídia às aulas tradicionais, se referindo a matérias esportivas na TV e outros vídeos educativos, na postura denominada “educação com o meio”, explorando a articulação dos saberes específicos da Educação Física com as demais disciplinas. Outro trabalho do professor é em “estéreo”, com o objetivo de compreender o discurso da televisão sobre a cultura corporal, identificando modelos de práticas corporais e esportivas, denominada “educação no meio”. Porém, o professor deve considerar e trabalhar a partir do imaginário de seus alunos, de modo a reduzir as divergências entre as expectativas dos alunos e o conteúdo e prática oferecidos pelo professor.


Especificamente quanto ao uso da televisão e do vídeo na educação física, Betti ressalta as seguintes vantagens:

1) motivação para o debate e a reflexão sobre temas atuais a partir do conhecimento prévio e cotidiano dos alunos;

2) atratividade da linguagem jornalística, que é mais sintética e ilustrada;

3) os audiovisuais dão destaque a informações e chamam a atenção, muitas vezes mais que o professor;

4) substituem longas exposições e textos;

5) as imagens televisivas atingem primeiramente as emoções e, em seguida, o professor deve trabalhar as interpretações racionalizadas e críticas.


Betti explica alguns objetivos da utilização dos audiovisuais nas aulas de educação física escolar:

1) sensibilização, ao introduzir novo assunto e motivar os alunos;

2) ilustração, trazendo e compondo cenários desconhecidos;

3) conteúdo de ensino, de forma direta, apresentando o tema específico ou de forma indireta, permitindo abordagens interdisciplinares.


A partir da pesquisa-ação desenvolvida por Betti, são apresentadas algumas recomendações para o uso das mídias na educação física, em especial a TV e vídeo:
1) partir de um tema e/ou situação atual e de interesse dos alunos, porém, integrado ao tema trabalhado no currículo naquele período;
2) utilizar matérias curtas, evitando matérias essencialmente narrativas;
3) preparar a utilização da matéria, verificando a veracidade das informações;
4) articular exibição do vídeo com vivências corporais;
5) favorecer a discussão sobre o vídeo, articulando-a à vivência dos alunos e à cultura corporal de movimento, em seu contexto histórico (passado e presente) e com dados científicos;


Betti ressalta a dificuldade de obter materiais adequados para trabalhar nesta concepção pedagógica. Porém, faz-se necessário que o professor se aproprie das novas tecnologias de informação e comunicação que fazem parte do seu próprio cotidiano e de seus alunos.
Além do espaço escolar, também nas academias os profissionais de Educação Física devem perceber as buscas mais profundas e contraditórias do ser humano que são subjacentes à busca de beleza corporal e propiciar aos seus clientes/alunos a experiência gratificante o exercício físico, articulando componentes intencionais externos dos movimentos (ex.: emagrecimento, definição muscular) com os componentes intencionais internos (prazer do movimento). Desse modo, recupera-se a tarefa educativa e física da Educação Física, enquanto elemento dinâmico da cultura.

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