Via Varejo agora tem o mesmo que a concorrência: sobra de caixa

Com a oferta de ações realizada neste mês, que trouxe 4,45 bilhões ao caixa da companhia, a Via Varejo vai “arrumar” o que o presidente, Roberto Fulcherberguer, acredita que era sua deficiência em relação às concorrentes: a estrutura de capital. A companhia saiu da posição de endividada para de sobra de caixa, assim como a principal rival Magazine Luiza.

O reforço apaga — ao menos dos números — o passado sombrio da fraude contábil de 1,2 bilhão de reais, cujas investigações foram concluídas em março. O balanço voltou a ficar mais robusto. “Vamos corrigir nosso patrimônio líquido”, disse, em entrevista ao EXAME IN. Ao fim de março, o indicador marcava apenas 641 milhões de reais de saldo, uma grande deterioração em relação ao 1,95 bilhão de reais de um ano antes. O valor foi afetado pela limpeza contábil no balanço de 2019.

Depois do sucesso da oferta, cuja previsão inicial era captar 3 bilhões de reais, a companhia terá de provar ao mercado que fará uma gestão eficiente dos recursos e que eles não serão usados para queima de estoques ou excesso de agressividade no crédito, num ambiente macroeconômico de crise e incerto. O voto de confiança os investidores já deram, junto com o dinheiro: o valor de mercado da empresa saiu de 6,8 bilhões de reais ao fim de março para os atuais 23,5 bilhões de reais — um ganho de 145% em meio à maior crise global já vista na história moderna.

A valorização é surpreendente e foi construída diante do desempenho de vendas no e-commerce que Fulcherberguer manteve o mercado atualizado. Contudo, a percepção de valor ainda está distante do sucesso registrado por Maria Luiza Trajano: com vendas menores, a Magalu é avaliada em 112 bilhões de reais na B3, já fortemente associada à tecnologia digital.

Antes da oferta, a Via Varejo tinha 2,1 bilhões de reais em caixa disponíveis para 2 bilhões de reais de dívida corporativa — toda com vencimento no curto prazo. Enquanto isso, a Magazine Luiza fechou o primeiro trimestre com uma sobra de recursos superior a R$ 1,7 bilhão de reais.

Após a capitalização, a realidade vai ficar bastante diferente. Tomando março como partida, o caixa da Via Varejo somaria 6,55 bilhões de reais e a dívida estaria inalterada. A empresa seria ‘caixa líquido’ em 4,5 bilhões de reais, portanto.

Poucos dias após encerrar a captação com ações, a companhia anunciou também um plano para troca de dívida, que trará um pequeno alongamento de vencimentos. Colocou na rua uma emissão de debêntures de 1,5 bilhão de reais, em séries de um ano e dois, e uma oferta para resgatar 1,5 bilhão de reais de notas promissórias que venceriam no segundo semestre.

Para a Via Varejo, fortalecer a posição financeira é praticamente “core business”, já que a operação é  calcada no crédito ao consumidor. A dívida, incluídas as linhas para atender ao crediário da loja, supera 5,7 bilhões de reais, o que reduz a folga de recursos sensivelmente.

Fulcherbeguer disse que até o momento não sentiu um aumento da inadimplência — tema que assombra os mais variados setores, como bancos, universidades e, claro, varejistas. Segundo o executivo, será preciso acompanhar a abertura das lojas, onde boa parte dos clientes paga suas parcelas no antigo modelo de crediário tão ligado ao sucesso da Casas Bahia — 70% das unidades voltaram a funcionar em junho, mas o número muda todo o dia com o abre e fecha nas diversas cidades do país.

“Eu liberei o pagamento das parcelas de abril, jogando o vencimento para o final do parcelamento, e mesmo assim 65% dos clientes já pagaram”, contou. “No nosso caso, o parcelamento é muitas vezes o único crédito ao qual o consumidor tem acesso, o que o torna cuidadoso com os pagamentos”, afirmou Fulcherberguer, repetindo a antiga lógica da família Klein, fundadora da Casas Bahia e que voltou ao centro do comando do negócio há pouco mais de um ano.

Tecnologia

Do total da oferta, segundo o presidente da Via Varejo, cerca de 1,5 bilhão de reais serão destinados aos investimentos em tecnologia, nas mais diversas formas. Tanto para melhoria dos aplicativos de e-commerce, que estão sendo atualizados com nova apresentação e funcionalidades, quanto no “back-office” e na logística. Assim, a empresa pretende atacar a outra frente que ainda faz diferença no valor que o investidor atribui ao negócio.

A folga de recursos vai permitir que a companhia acelere planos e lance, nos próximos 60 dias, o crediário digital. O projeto foi anunciado em novembro do ano passado logo após a compra da plataforma financeira banQi, e estava previsto para o fim de 2020.

O cliente do e-commerce vai conseguir fazer e pagar suas parcelas remotamente, depois de seguir uma avaliação de pré-aprovação de crédito. O sistema está em teste há cerca de 40 dias para 4,5 milhões de clientes e depois ficará disponível para todos os demais que, segundo o executivo, somam mais 80 milhões, nos cadastros.

De acordo com Fulcherberguer, o futuro vai unir o que a Casas Bahia já sabia fazer, o crédito ao consumidor, com a tecnologia. “As pessoas ainda não entenderam como o Me Chama no Zap pode ser um fator de inclusão tecnológica”, disse, referindo-se ao sistema de venda adotado durante a pandemia em que os vendedores provocam os clientes diretamente. O vendedor estimula e auxilia, ao mesmo tempo o consumidor remotamente, pelo WhatsApp. Com isso, acaba fazendo uma venda assistida e, muitas vezes, introduz o cliente nesse universo de e-commerce, segundo o executivo.

O presidente da Via Varejo disse que ainda não sabe qual será o equilíbrio entre vendas on-line e físicas, após a retomada da normalidade. “Em março, o digital representava 35% das nossas vendas e, na pandemia, essa fatia chegou a 80%. O futuro deve ficar no meio do caminho, mas ainda não dá para saber qual será.” O executivo disse que em abril a companhia alcançou 70% das vendas do mesmo período do ano anterior e que, em maio, mesmo com 80% das lojas fechadas, conseguiu registrar crescimento.

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