As dicas do jovem que recusou oferta de R$ 42 mi por monitor da covid-19

Avi Schiffmann tem 17 anos e acabou de se formar no ensino médio nos Estados Unidos — e define esse período da sua vida como “férias de verão”. Entre uma soneca e outra (porque dormir é uma tarefa um tanto quanto complicada para ele), o adolescente atualiza seu site, um dos maiores monitoramentos em tempo real sobre o novo coronavírus do mundo, o ncov2019.live. Com cerca de 30 milhões de visitantes diários, o site de Schiffmann atraiu olhares e uma empresa ofereceu, recentemente, a bagatela de 8 milhões de dólares (cerca de 42 milhões de reais na cotação atual) para incluir alguns anúncios e ganhar o controle editorial. O menino recusou.

“Uma das muitas razões é que, se eu tivesse muitos anúncios no meu site de determinadas marcas, não poderia dar entrevistas mostrando outras, como o pôster da Ferrari que tenho em meu quarto. Isso me traria muito menos mídia, e eu acredito que mídia é o mais importante. Também não teria ganhado um prêmio se meu site fosse lotado de anúncios”, explica ele em entrevista por vídeo à EXAME. “Outro ponto é a proteção de dados dos meus visitantes. Eu não estou monitorando ninguém, não estou vendendo informações de ninguém — o mesmo não aconteceria se meu site fosse vendido”, diz.

Schiffmann diz que programa já há “uma década” e que desenvolveu seu primeiro website aos sete anos de idade. Ele também conta que nunca participou de nenhum treinamento especial sobre tecnologia, não teve aulas super avançadas sobre o tema: tudo o que aprendeu, de acordo com ele, foi por meio de tutoriais no YouTube e de fóruns na internet. “Não tinha ninguém me dizendo o que fazer, só tinha eu e minha motivação. Eu acredito que, com motivação, você pode fazer qualquer coisa. E dá para aprender tudo online. Se eu quiser jogar basquete embaixo d’água, eu posso aprender isso na web”, afirma. “Meu site não é tão complicado de programar, se um programador mais experiente olhá-lo, ele vai saber no ato como replicar. Eu acho que o mais importante foi a minha iniciativa. E eu espero que isso inspire muita gente ao redor do mundo”, garante.

E, quando questionado sobre o conselho que gostaria de dar para jovens da sua geração, ele é categórico. “Se alguma pessoa jovem tem vontade de experimentar com a tecnologia, existe por aí um tutorial para te ajudar, você não precisa saber de tudo antes de começar. A melhor forma de fazer as coisas é experimentando e desenvolvendo vários projetos”, afirma.

O site para monitorar os casos e mortes de covid-19 foi criado em janeiro, quando a doença ainda não havia se alastrado totalmente ao redor do mundo. À época, o garoto pretendia facilitar a busca por dados sobre o vírus na China. “Eu fiz isso porque era muito difícil encontrar informações sobre o vírus que não estivessem em chinês e comecei a trabalhar em um site que seria mais fácil de usar, principalmente no telefone”, diz.

Ele diz que jamais imaginou que o pequeno projeto se tornaria tão grande — grande o suficiente para se tornar referência na área. “Sempre quis fazer coisas grandes em tecnologia. Não achei que meu website seria algo tão gigante ou que a doença se tornaria uma pandemia global, mas as pessoas gostaram do meu site e aqui estamos”, resume.

O adolescente também não quer ter uma vida conservadora e seguir à risca a noção de uma carreira comum: se formar na escola, ir para a faculdade, arrumar um emprego. Schiffmann não sabe se quer ingressar em uma universidade quando acabar a escola, não quer trabalhar em gigantes de tecnologia e tem interesse por empresas menores. Para ele, a Napster, serviço de streaming de música americano que perdeu o espaço quando outras, como o Spotify e o Deezer, apareceram, é um exemplo de empresa que admira. “Gostaria de trabalhar em um empresa com impacto social, sem me preocupar se ela é lucrativa ou não”, conta.

Schiffmann também contou à EXAME que a suposta oferta que teria recebido da Microsoft é mentira e que não foi feito nenhum contato entre ele e a fabricante do Windows. “Não quero trabalhar na Microsoft, quero fazer as minhas coisas. Acho que eu posso produzir muito mais sozinho, trabalhar nessas companhias enormes me faria perder a motivação”, afirma.

Apesar de tudo, ele acredita que, em futuras pandemias, a responsabilidade de um site do tipo deve ser de governos e demais organizações da área de saúde, e não de uma “criança aleatória”, como ele mesmo se define. “Li no New York Times que meu site atualiza mais rápido do que o do próprio governo americano. Achei engraçado que um adolescente conseguiu fazer isso”, brinca. “Os governos precisam se comprometer a informar seu povo e não dependerem de uma criança para isso”, explica.

A plataforma é atualizada constantemente com dados da Organização Mundial da Saúde (OMS), Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) e de sites dos governos dos países. No mapa, é possível ver onde o surto tem sido mais forte, a porcentagem de mortes, casos ativos e críticos e também quantas pessoas já se recuperaram da doença. “É complicado encontrar informações sobre países autoritários, como a China e a Coreia do Norte. E não sei se confio nas que eu encontro”, afirma.

Recentemente, ele implementou também uma ferramenta que conta quantos testes têm sido feitos no mundo. Segundo o monitoramento do jovem, o país que mais testa é também o epicentro da doença no mundo: os Estados Unidos. Por lá, com mais de 2 milhões de casos confirmados, já foram realizados 27.136.332 testes. Em seguida vem a Rússia, com 16.321.964.

Por lidar com dados sobre a covid-19 o dia todo, a visão de Schiffmann é de que alcançaremos a marca de 10 milhões de casos confirmados em julho. “Os números vão crescer mais e mais. Eu acho que as coisas vão começar a melhorar em 2021, mas está tudo piorando por enquanto”, diz.

A última atualização do ncov2019, feita há 21 minutos, aponta que o mundo tem 8.699.133 infectados e 459.403 óbitos. Para o Brasil, o monitoramento de Schiffmann aponta 1.009.699 de doentes, 48.427 mortos e 520.360 recuperados. E, embora seja o segundo com o maior número de casos, é o décimo país que mais faz testes — por aqui, foram feitos 2.344.437. Um retrato da subnotificação brasileira.

A ideia do estudante é retirar o site do ar quando a pandemia acabar e transformá-lo em uma página que compara dados entre o novo vírus e a SARS ou a Gripe Espanhola. Schiffman quer entrar para a história e acredita que o site será algo que as pessoas se lembrarão daqui uns anos. Em partes, ele está certo: o site já rendeu o prêmio Webby, principal prêmio de excelência na internet.

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