A Hong Kong admirada pelo ocidente resistirá ao autoritarismo chinês?

Hong Kong nasceu na encruzilhada dos impérios, um híbrido sino-britânico. Pode também desaparecer aí.

A “rocha estéril”, como um enviado da rainha Vitória uma vez a chamou, transformou-se em uma das primeiras cidades verdadeiramente globais do mundo, um lugar onde as finanças internacionais prosperaram quando seu povo criou uma identidade cultural própria. Mesmo o atual sistema político do território está vinculado a um acordo negociado, chamado “um país, dois sistemas”, que, apesar de todas as probabilidades e de um apelido deselegante, parecia funcionar.

Mas, recentemente, Hong Kong descobriu os limites do meio-termo que desenvolveu para nutrir uma das cidades mais prósperas e dinâmicas da Terra: entre o Oriente e o Ocidente, entre arroz e pão, entre uma ordem liberal e uma autoritária.

O destino do território está mais uma vez sendo decidido em salas do poder distantes, à medida que Pequim avança com planos para tirar parte da autonomia que Hong Kong deveria desfrutar por 50 anos depois que a Grã-Bretanha o devolveu à China em 1997.

A morte de Hong Kong já foi anunciada muitas vezes desde aquela data. Mas a legislação de segurança nacional proposta poderia ter sérias implicações para um lugar tão dedicado à linguagem internacional do comércio que a forma local de inglês é muitas vezes simplificada ao máximo.

As novas leis de segurança nacional, descritas na sessão anual do legislativo chinês, vão reduzir algumas das liberdades civis que diferenciam Hong Kong do resto do país. E elas visam o movimento de protesto em massa que, no ano passado, mostrou ao mundo até que ponto as pessoas estavam dispostas a ir para proteger sua casa híbrida.

“No fim das contas, temos de aceitar que respondemos a um país. E esse país é cada vez mais poderoso”, disse Nicholas Ho, descendente de 33 anos de uma família de magnatas de Hong Kong.

Com o aumento das tensões entre os Estados Unidos e a China, alguns caracterizaram a luta pelo futuro de Hong Kong como uma disputa em meio a um choque mais fundamental de civilizações. Pequim considera sua intervenção em Hong Kong um movimento necessário para manter a soberania do país, enquanto Washington a considera um ataque frontal à autonomia da cidade.

Em ambas as visões de mundo, Hong Kong novamente está no meio.

Ou o território está pronto para um retorno à política de protesto – o tipo de batalha de rua que despedaçou a reputação da cidade como centro ordeiro de finanças internacionais – ou as mais recentes imposições de segurança nacional de Pequim só servirão para afastar o comércio e o capital de que Hong Kong precisa para crescer.

E ambos os resultados são possíveis.

Douglas Young criou uma marca de decoração e moda chamada G.O.D., que brinca com noções ocidentais de orientalismo e celebra símbolos da vida de Hong Kong: trocadilhos que misturam cantonês e inglês, café da manhã com sopa de macarrão, filmes de kung fu com um toque de Hollywood.

Ele admite que é a típica mistura de Hong Kong. Mesmo com seu sotaque inglês elegante e suas maneiras impecáveis, ele tem, aos 54 anos, idade suficiente para se lembrar de como era a vida sob os britânicos, quando os chineses de Hong Kong não podiam entrar em certos clubes com facilidade.

Mas Young também enumera as qualidades democráticas que para ele tornam Hong Kong especial: Estado de direito, liberdade de expressão e judiciário independente. Essas são as liberdades civis que alguns temem perder sob a legislação de segurança nacional proposta por Pequim.

“Estou preocupado com o fato de os habitantes de Hong Kong estarem se tornando novamente cidadãos de segunda classe em sua própria cidade. Nosso destino é sempre nos sentirmos colonizados?”, questionou Young.

Política de identidade

Desde que os navios de guerra britânicos garantiram sua posse há quase 180 anos nas guerras do ópio, Hong Kong se tornou algo único: um enclave ligado aos ideais ocidentais, mesmo sendo povoado por chineses que falam uma língua, o cantonês, que se acredita ser mais antiga do que a usada em toda a China continental.

No ano passado, mais de 90 por cento dos jovens daqui disseram se considerar de Hong Kong, não da China, de acordo com uma pesquisa da Universidade de Hong Kong, o número mais alto desde que a pesquisa começou, há mais de uma década.

Por mais orgulhosos que estejam de sua identidade, as pessoas daqui nem sempre sabem como se autodenominar. Em inglês, alguns dizem hong kongers; outros, hong kongeses. Outros ainda usam o termo “povo de Hong Kong”.

Independentemente de como são chamados, muitos compartilham uma rejeição à China, que encarna a incapacidade de Pequim de capturar o coração de uma população que deveria ser naturalmente simpática a ela. Os britânicos restringiram as reformas políticas em Hong Kong até o fim de seu governo. Enquanto isso, o Partido Comunista transformou a sociedade agrária atrasada da China na segunda maior economia do mundo. Hong Kong lucrou.

Em 2008, quando Pequim sediou os Jogos Olímpicos, Hong Kong colocou em campo sua própria equipe, como convinha à cidade governada sob o modelo “um país, dois sistemas”. Mas as cinco estrelas da bandeira chinesa tremularam orgulhosamente na cidade. Os residentes de Hong Kong que haviam fugido em busca de um porto seguro em países como o Canadá ou a Austrália voltaram.

Mais de uma década depois, as decepções se acumularam.

Assim como sob o domínio colonial, o povo de Hong Kong não pode escolher seu próprio líder nem moldar por completo a atuação de seu governo. Reformas políticas prometidas nunca se concretizaram. Livreiros que criticavam a liderança chinesa foram retirados das ruas de Hong Kong e acabaram na China.

O catalisador dos protestos em massa do ano passado, um projeto de lei de extradição agora revogado, evidenciou a capacidade de Pequim de, a qualquer momento, ameaçar as liberdades de Hong Kong.

Desde junho de 2019, um agudo sentimento de ansiedade em relação ao futuro levou milhões de manifestantes pacíficos para as ruas. A fúria contra a polícia – por lançar balas de borracha e gás lacrimogêneo contra a população – alimentou cada comício subsequente, mesmo quando o mal-estar aumentava com os agitadores da linha de frente que usavam coquetéis Molotov.

Cathy Yau foi criada por uma mãe solteira em um daqueles apartamentos minúsculos que, como o jogo Tetris, formam a arquitetura apertada de Hong Kong. Ela frequentou uma escola com um currículo pró-China e trabalhou por 11 anos como policial. No verão passado, quando os protestos se acirraram, ela deixou a polícia.

“Eu não podia ter um emprego em que recebia ordens de usar gás lacrimogêneo em pessoas normais como se fossem criminosas. Isso é contra os valores fundamentais de Hong Kong”, disse ela.

Em novembro, Yau, de 36 anos, concorreu ao conselho distrital e venceu o candidato pró-establishment. Embora o cargo detenha pouco poder, o apoio esmagador do eleitorado aos candidatos pró-democracia refletiu o clima de revolta local.

A pressão continuou a se intensificar. Em janeiro, a China substituiu seu principal representante na cidade por um alto funcionário conhecido por sua postura rígida em relação à segurança. Algumas das figuras mais pró-democracia de Hong Kong foram presas no mês passado. A última medida, a legislação de segurança nacional, não surpreende Yau.

“Esse é o Partido Comunista. Isso é o que vai acabar acontecendo. A única questão é quando. Cresci com o hasteamento da bandeira chinesa na escola todos os dias, mas não sinto nada. Não sei o que sou. Não sei para onde vou. Sou apenas Hong Kong”, afirmou ela.

Votar com os pés

A geração que construiu Hong Kong a partir de meados do século passado, alimentando suas oficinas e levantando seus arranha-céus, nunca esteve enraizada no território.

Muitos residentes vieram para cá fugindo da agitação na China, sobretudo após a revolução comunista de 1949. E continuaram vindo mesmo após 1997, quando a bandeira britânica foi recolhida pela última vez. Desde a entrega ao governo chinês, mais de um milhão de chineses do continente se mudaram para Hong Kong para desfrutar de seu compromisso com o comércio, o Estado de direito e a educação.

Mesmo com fortunas sendo feitas na cidade, uma mentalidade de refugiados ainda definia a elite da cidade. A maioria dos ricos de Hong Kong tem passaporte estrangeiro, por precaução.

Mas muitos de seus filhos, especialmente aqueles que viraram adultos desde que Hong Kong voltou ao domínio chinês, sentem-se diferentes. A cidade é seu lar – não o Canadá, nem a Austrália, e muito menos a China.

Além disso, para uma em cada cinco pessoas em Hong Kong que vivem abaixo da linha da pobreza, não há como fugir para outro país. Elas não conseguem comprar cidadania estrangeira.

Para elas, proteger Hong Kong é uma questão de defender o único futuro que têm, um futuro que parece cada vez mais sombrio.

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